Gênero Textual

  • Bullying deixa marcas para a vida toda — até em quem não é a vítima

    Não é brincadeira de criança. Não é só uma piada. Não é mimimi. A ciência já sabe que as consequências da perseguição sofrida quando criança ou adolescente atravessam (e prejudicam) a vida adulta

    A primeira vez que Fernanda Brzezinski fez uma dieta foi aos seis anos. A avó cobrava dela um corpo dentro dos padrões. E a menina absorvia toda aquela cobrança. Na escola, as piadas dos colegas também a estimulavam a perder peso. “Eu ainda era peluda, então começaram a dizer que eu parecia uma foca quando ria”, relembra. Não comprava roupas justas ou do tamanho certo; preferia camisetas e calças largas, na tentativa de esconder o corpo.

    Na adolescência, quando frequentava a casa de uma amiga bem magra, na hora do lanche da tarde ela era proibida de comer. Fernanda só perdeu peso perto dos 30 anos, quando teve seus dois filhos: Felipe, hoje com 14 anos, e Sofia, com 10.

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  • As formigas

    Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.

    — É sinistro.

    Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes, com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.

    — Pelo menos não vi sinal de barata — disse minha prima.

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  • O Galo e a Peróla

    Um galo, que ciscava no terreiro para encontrar alimento, fossem migalhas ou bichinhos para comer, acabou encontrando uma pérola preciosa.

    Após observar sua beleza por um instante, disse:

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  • Teleco, o coelhinho

    “Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta eu a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.”

    (Provérbios, XXX, 18 e 19)

    […]

    A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.

    O importuno pedinte insistia:

    […]

    Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:

    Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.

    – Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor; saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.

    Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:

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  • Manifesto pela erradicação da violência contra a mulher, que as vozes femininas sejam ouvidas e respeitadas

    Estamos no final da segunda década do século 21 e ainda há uma mácula indelével na sociedade patriarcal em que vivemos: a violência contra a mulher. Sofrida pelo domínio da irracionalidade, de inferiorizar a condição de ser mulher e subjugá-la a padrões estabelecidos que ignoram a preservação de sua saúde física e mental, e ainda prejudicam a moral, a convivência social e a oportunidade de seu desenvolvimento intelectual e financeiro.

    Nós, do Grupo Mulheres do Brasil, queremos uma sociedade justa e igualitária, somos um grupo feminista e suprapartidário composto por mais de 25 mil mulheres no Brasil e no mundo, lutamos para que seja erradicado qualquer tipo de violência contra a mulher, independente de sua classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião.

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  • Manifesto em defesa das Bibliotecas Públicas no Brasil – 2019

    No ano 2019 os estudos internacionais liderados pela Seção de Bibliotecas Públicas da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA) completaram 46 anos, e o “Manifesto da IFLA/UNESCO sobre bibliotecas públicas” completou 25 anos de sua publicação.

    Esses documentos internacionais, bem como outros em defesa da biblioteca pública e da prestação de serviços bibliotecários de qualidade à população, são reconhecidos, difundidos e avançam na atualização e adequação às mudanças tecnológicas e de comportamento da sociedade em geral. No entanto, o estado brasileiro não conseguiu seguir as diretrizes propostas pela IFLA/UNESCO. O país não possui bibliotecas em número suficiente, com serviços de qualidade, para atender as demandas de informação e leitura da população. O Brasil não avançou nem na ampliação e nem no fortalecimento das bibliotecas, ao contrário, muitas daquelas que tiveram investimentos ou foram priorizadas pelo poder público sofreram descontinuidade, como o caso das bibliotecas parque do estado do Rio de Janeiro.

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  • Iracema

    Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

    Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

    O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

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  • Casamento do século: Mônica e Cebolinha no altar

    Depois de muitas brigas infantis, provocações e hematomas provocados por um certo coelhinho azul, eis que Mônica e Cebolinha resolveram acertar as diferenças e… trocar juras eternas de amor. […] Na edição 50 da revista Turma da Mônica Jovem, os dois personagens de Maurício de Sousa vão se casar. […]

    Na trama, os adolescentes vão descobrir, segundo a editora, os “caminhos tortuosos do relacionamento a dois”. […]

    Que os pombinhos sejam felizes… até a próxima reviravolta da ficção, claro.

    FARIA, Tiago. Disponível em: <https://vejasp.abril.com.br/blog/pop/casamento-do-seculo-monica-e-cebolinha-no-altar/>. Acesso em: 19 ago. 2021. [Fragmento]

  • Carta de Mário de Andrade à Carlos Drummond de Andrade

    São Paulo, 10 de novembro, 1924

    Meu caro Carlos Drummond

    Já começava a desesperar da minha resposta? Meu Deus! comecei esta carta com pretensão… Em todo caso de mim não desespere nunca. Eu respondo sempre aos amigos. Às vezes demoro um pouco, mas nunca por desleixo ou esquecimento. As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e… Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. […] Como vai o Nava? Vocês não arranjam mesmo um jeitinho de vir passar uns dias em São Paulo? Isto aqui é engraçado. Me avisem antes se um dia se aventurarem até aqui. E até logo. Vou lhe mandar uma cópia do “Noturno”, é só minha irmã ter um tempinho e passará a versalhada a máquina. Olhe, a Estética publicou um poema meu, “Danças”, que eu acho que tem alguma coisinha dentro. Reflita e mande me dizer.

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  • A arte explica a vida

    Por que existe resistência em relação à arte contemporânea?

    Mirian: Porque ela é mais difícil de ser entendida, perturba, provoca e incita o espectador.

    Mas essa sempre foi a intenção dos precursores das novas ideias, não?

    Mirian: Com certeza! Todos os movimentos de vanguarda são contrários às normas estabelecidas. O impressionismo se opôs ao academicismo. Na época, não era considerado arte, mas borrões jogados na tela. A sociedade ria e desprezava quem aderia ao movimento. Acho que se dá algo semelhante com os artistas contemporâneos. Hoje, temos rupturas mais abruptas. Não podemos ficar parados no tempo e ter como referência a produção de cem anos atrás. Para entender uma obra contemporânea é preciso conhecer as pesquisas e as idéias que surgiram nas últimas décadas. […]

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