Crônica

  • O Homem Trocado

    O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

    — Tudo perfeito — diz a enfermeira, sorrindo.

    — Eu estava com medo desta operação…

    — Por quê? Não havia risco nenhum.

    — Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos…

    E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

    — E o meu nome? Outro engano.

    — Seu nome não é Lírio?

    — Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e…

    Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

    — Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

    — O senhor não faz chamadas interurbanas?

    — Eu não tenho telefone!

    Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

    — Por quê?

    — Ela me enganava.

    Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:

    — O senhor está desenganado.

    Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

    — Se você diz que a operação foi bem…

    A enfermeira parou de sorrir.

    — Apendicite? — perguntou, hesitante.

    — É. A operação era para tirar o apêndice.

    — Não era para trocar de sexo?

    VERÍSSIMO, Luís Fernando. Comédias para se ler na escola. Objetiva, 2001.

    Luis Fernando Verissimo

    Nasceu em 1936, em Porto Alegre. É autor de best-sellers como Comédias para se ler na escola, As mentiras que os homens contam e O clube dos anjos, e criador de tipos marcantes como a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, O Analista de Bagé e As Cobras. Filho do romancista Erico Verissimo, escreveu diariamente para vários jornais por décadas e tem livros publicados em mais de quinze países. Faleceu em agosto de 2025.

  • Repelindo o carteiro

    Tenho, sim, um cão feroz que ameaça o carteiro; na verdade, eu o comprei com essa finalidade.

    Correios lançam campanha para preservar os carteiros dos ataques de cães.

    “SENHOR CHEFE DOS CORREIOS: dirijo-me a V.S. por causa do aviso que recebi de V.S., intimando-me a tomar medidas para evitar que o meu cão pitbull ameace o carteiro que atende a minha rua. Reconheço que a advertência é procedente.

    Eu poderia, senhor chefe dos Correios, inventar uma desculpa: por exemplo, que o cão é inofensivo, e que as supostas ameaças correm por conta da paranoia do seu funcionário. Mas sinto-me na obrigação de falar a verdade. Tenho, sim, um cão feroz. E ele ameaça o carteiro.

    Na verdade, eu o comprei exatamente com essa finalidade, ameaçar o carteiro. Posso explicar. Nunca fiz muita questão de receber correspondência. É só propaganda ou então, pior, são contas a pagar: luz, aluguel, telefone. Coisa no mínimo desagradável. Mas eu não iria brigar com o carteiro por causa disso; até comentava com ele, numa boa, a quantidade de dinheiro que tinha de gastar a cada mês.

    Foi então que começaram a chegar as cartas anônimas. E aí a coisa mudou. Sou um homem de certa idade, um cinquentão. Casei-me tarde, com uma moça bem mais jovem do que eu e muito bonita. Casamos por amor, e nesses três anos temos sido muito felizes. Até a chegada das cartas.

    Ah, que cartas são essas, senhor chefe dos Correios, que cartas. São escritas por alguém, um homem que garante ter um caso com a minha mulher. E esse alguém sabe tudo sobre nós. Sabe que viajo muito, a serviço da empresa para a qual trabalho, e diz que cada viagem minha é, para ele, um banquete do sexo. Garante que minha mulher na cama é um demônio e descreve minuciosamente as relações que tem com ela. Nunca desconfiei de minha esposa, senhor chefe dos Correios.

    Para mim, ela é rigorosamente fiel. Mas as cartas eram tão convincentes que fiquei abalado e acabei falando-lhe a respeito. A coitada ficou desesperada, teve uma verdadeira crise de nervos. Jurou que aquilo era mentira, e que as cartas só podiam ser obra de um louco ou de algum inimigo que, sem saber, tínhamos arranjado.

    Eu acredito nela, senhor chefe dos Correios. Tenho todos os motivos para acreditar nela. Mas cada vez que chegava uma carta, as suspeitas voltavam a me assaltar. Decidi falar com o carteiro. Expliquei o que estava acontecendo e pedi que destruísse as tais cartas, aliás facilmente identificáveis, porque os envelopes eram decorados com o desenho de uma cabeça com cornos.

    O carteiro mostrou-se muito compreensivo e gentil; disse, porém, que tinha de cumprir com sua obrigação, que é a de entregar a correspondência. Sugeriu que eu próprio rasgasse as cartas sem ler. Mas isso seria inútil, senhor chefe dos Correios. Só de olhar o envelope já fico doente de fúria. Tomei então duas providências.

    Em primeiro lugar, todas as minhas despesas são agora debitadas na conta bancária, de modo que já não preciso receber as contas de luz e as outras. E comprei o pitbull. Exatamente para que o carteiro não entregue mais as tais cartas. Agora, o senhor quer que eu contenha o cão.

    O cão eu posso conter, senhor chefe dos Correios. Mas como conter o ciúme e a raiva? Hein, senhor chefe dos Correios? Por favor, me responda. Mas não por carta. Use o telefone.”

    Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0809200802.htm>. Acesso em: 20 out. 2015.

    Moacyr Scliar

    Médico e escritor, Moacyr Jaime Scliar (1937-2011) nasceu em Porto Alegre (RS). Publicou mais de 60 livros, que abrangem vários gêneros e pelos quais recebeu numerosos prêmios. Tem livros traduzidos em vários idiomas. Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação da tradição judaico-cristã. Escrevia crônicas para os jornais Zero Hora e Folha de S.Paulo. Entre seus livros, destacam-se O carnaval dos animais, Histórias da terra trêmula, Os leopardos de Kafka, Manual da paixão solitária, O tio que flutuava, Navio das cores (infantojuvenis); Um país chamado infância, Dicionário do viajante insólito, O imaginário cotidiano (crônicas).

  • Meu engraxate

    É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxate me deixou.

    Passei duas vezes pela porta onde ele trabalhava e nada. Então me inquietei, não sei que doenças mortíferas, que mudança pra outras portas se pensaram em mim, resolvi perguntar ao menino que trabalhava na outra cadeira. O menino é um retalho de hungarês, cara de infeliz, não dá simpatia nenhuma. E tímido o que torna instintivamente a gente muito combinado com o universo no propósito de desgraçar esses desgraçados de nascença. “Está vendendo bilhete de loteria”, respondeu antipático, me deixando numa perplexidade penosíssima: pronto! estava sem engraxate! Os olhos do menino chispeavam ávidos, porque sou dos que ficam fregueses e dão gorjeta. Levei seguramente um minuto pra definir que tinha de continuar engraxando sapatos toda a vida minha e ali estava um menino que, a gente ensinando, podia ficar engraxate bom. É incrível como essas coisas são dolorosas. Sentei na cadeira, com uma desconfiança infeliz, entregue apenas à “fatalidade inexorável do destino”.

    Pode parecer que estou brincando, estou brincando não. Há os que fazem engraxar os sapatos no lugar onde estão, quando pensam nisso. Há os como eu, que chegam a tomar um bonde comprido, vão até a rua Fulana, só pra que os seus sapatos sejam engraxados pelo “seu” engraxate. Há indivíduos cujo ser como que é completo por si mesmo, seres que se satisfazem de si mesmos. Engraxam sapato hoje num, amanhã noutro engraxate; compram chapéu numa chapelaria e três meses depois já compram noutra; conversam com a máxima comodidade com os empregados duma e doutra casa e com todos os engraxates desse mundo. Indivíduos assim me dão uma impressão ostensiva de independência feliz, porém não os invejo.

    De primeiro, faz talvez vinte anos, meu engraxate foi trabalhar com o meu freguês barbeiro. Era cômodo, ficava tudo perto da minha casa de então. Meu barbeiro, serzinho de uma amabilidade tão loquaz que acabou me convencendo da perfeição da gilete, logo me falou que aquele engraxate falava o alemão. Perguntei por passatempo e o italiano fizera a guerra, preso logo pelos austríacos. Era baixote, atarracado, bigode de arame e uma calvície fraternal. Se estabeleceu uma corrente de forte interdependência entre nós dois, isso o homenzinho trabalhou que foi uma maravilha e meus sapatos vieram de Golconda. Nunca mais nos largamos. Entre nós só se trocaram palavras tão essenciais que nem o nome dele sei, Giovanni? Carlo? não sei. Um dia ele me contou baixinho, rápido, que mudava de porta. Foi o que me deu a primeira noção nítida de que o meu barbeiro era mesmo duma amabilidade insustentável. Mudei com o meu engraxate e, pra não ferir o barbeiro, que a final das contas era um homem querendo ser bom, me atirei nos braços da gilete a que até agora sou fiel.

    Veio o dia em que a engraxadela aumentou de preço. Só soube muito mais tarde, por acaso, meu engraxate não me contou nada, preferindo ficar sem gorjeta, não é lindo! Nos fins de ano, jamais pediu festas, eu dava porque queria. Hoje, tanto as festas como as pequenas gorjetas me produzem um sentimento de mesquinhez, não sei por que dificuldades meu engraxate terá passado, quanto lutou consigo e com a mulher. A final não aguentou mais esta crise, vamos ver se vender bilhete rende mais!

    O menino, até me deu raiva de tanto que demorou. (Meu engraxate também demorava demais quando era eu, mas não dava raiva.) O menino, pra falar verdade, engraxou tão bem como o meu engraxate e meus sapatos continuaram vindo de Golconda. Não sei… não voltei mais lá. Faz semana que não engrax o meus sapatos. Sei que isso não pode durar muito e o mais decente é ficar mesmo freguês do menino, porém minha única e verdadeira resolução decidida é que vou comprar bilhetes de loteria. Não tenho intenção nenhuma de tirar a sorte grande mas… mas que mal-estar!…

    ANDRADE, Mário de. Os filhos da Candinha. São Paulo. Martins. 1963. p. 167.

    Mário de Andrade

    Mário de Andrade (1893-1945), paulista da capital, que cantou como nenhum outro, estreia com livro de poesia em 1917. Sua primeira obra modernista foi Paulicéia desvairada (1922). Foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, na qual palestrou e recebeu muitas vaias. Teórico do Modernismo, além da obra pessoal, consagrou-se à militância jornalística, institucional e epistolar. Com Macunaíma (1928), atingiu o apogeu da prosa modernista. Praticou uma poesia de andamentos dilatados e poemas extensos, voltada para a meditação. Principais livros: Paulicéia desvairada (1922), Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927), Remate de males (1930), Poesias (1941) e Poesias completas (1966).

  • A Bola

    O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.

    O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.

    — Como é que liga? – Perguntou.

    — Como, como é que liga? Não se liga.

    O garoto procurou dentro do papel de embrulho.

    — Não tem nenhuma instrução?

    O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.

    — Não precisa manual de instrução.

    — O que é que ela faz?

    — Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.

    — O quê?

    — Controla, chuta…

    — Ah, então é uma bola?

    — Claro que é uma bola. — Uma bola, bola. Uma bola mesmo.

    — Você pensou que fosse o quê?

    — Nada, não.

    O garotinho agradeceu, disse “Legal! “, de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado MONSTER BALL, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de bip eletrônico na tela, ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.

    O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.

    O pai pegou a bola nova ensaiou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.

    — Filho, olha.

    O garoto disse “legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recuperar mentalmente o cheiro do couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

    Disponível em: https://www.escrevendoofuturo.org.br/caderno_virtual/texto/a-bola/index.html. Acesso em: 31 ago. 2023 (adaptado).

    Luis Fernando Veríssimo

    Com apenas seis anos, Luis Fernando Verissimo ganhava a sua primeira bola. Uma bola de couro tão novinha que ele ainda tem guardado na memória o cheiro. Aos dez, viu o Internacional, seu time do coração, jogar pela primeira vez e, a partir desse momento, nunca mais tirou a camisa do time. Mas o jogo que este gaúcho, nascido em 26 de setembro de 1936, melhor domina é o da escrita. E seus dribles arrancam risadas todos os dias dos leitores de suas crônicas. As primeiras jogadas foram no jornal Zero Hora, com passes pela Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. A história de O cachorro que jogava na ponta esquerda reforça a crença de Verissimo no futebol de rua, que só tem como regra a ausência de regras.

  • A mulher sem medo

    Ele não sabia o que o esperava quando, levado mais pela curiosidade do que pela paixão, começou a namorar a mulher sem medo. Na verdade havia aí também um elemento interesseiro; tinha um projeto secreto, que era o de escrever um livro chamado “A Vida com a Mulher sem Medo”, uma obra que, imaginava, poderia fazer enorme sucesso, trazendo-lhe fama e fortuna. Mas ele não tinha a menor ideia do que viria a acontecer.

    Dominador, o homem queria ser o rei da casa. Suas ordens deveriam ser rigorosamente obedecidas pela mulher. Mas como impor sua vontade? Como muitos ele recorria a ameaças: quero o café servido às nove horas da manhã, senão… E aí vinham as advertências: senão eu grito com você, senão eu bato em você, senão eu deixo você sem comida.

    Acontece que a mulher simplesmente não tomava conhecimento disso; ao contrário, ria às gargalhadas. Não temia gritos, não temia tapas, não temia qualquer tipo de castigo. E até dizia, gentil: “Bem que eu queria ficar assustada com suas ameaças, como prova de consideração e de afeto, mas você vê, não consigo.”

    Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado. Meter medo na mulher transformou-se para ele em questão de honra. Tinha de vê-la pálida, trêmula, gritando por socorro.

    Como fazê-lo? Pensou muito a respeito e chegou a uma conclusão: para amedrontá-la só barata ou rato. Resolveu optar pela barata, por uma questão de facilidade: perto de onde moravam havia um velho depósito abandonado, cheio de baratas. Foi até lá e conseguiu quatro exemplares, que guardou num vidro de boca larga.

    Voltou para casa e ficou esperando que a mulher chegasse, quando então soltaria as baratas. Já antegozava a cena: ela sem dúvida subiria numa cadeira, gritando histericamente. E ele enfim se sentiria o vencedor.

    Foi neste momento que o rato apareceu. Coisa surpreendente, porque ali não havia ratos, sobretudo um roedor como aquele, enorme, ameaçador, o Rei dos Ratos. Quando a mulher finalmente retornou encontrou-o de pé sobre uma cadeira, agarrado ao vidro com as baratas, gritando histericamente.

    Fazendo jus à fama ela não demonstrou o menor temor; ao contrário, ria às gargalhadas. Foi buscar uma vassoura, caçou o rato pela sala, conseguiu encurralá-lo e liquidou-o sem maiores problemas. Feito que ajudou o homem, ainda trêmulo, a descer da cadeira. E aí viu que ele segurava o vidro com as quatro baratas. O que deixou-a assombrada: o que pretendia ele fazer com os pobres insetos? Ou aquilo era um novo tipo de perversão?

    Àquela altura ele já nem sabia o que dizer. Confessar que se tratava do derradeiro truque para assustá-la seria um vexame, mesmo porque, como ele agora o constatava, ela não tinha medo de baratas, assim como não tivera medo do rato. O jeito era aceitar a situação. E admitir que viver com uma mulher sem medo era uma coisa no mínimo amedrontadora.

    Moacyr Scliar. Folha de S. Paulo, 17/1/2011.

    Moacyr Scliar

    Médico e escritor, Moacyr Jaime Scliar (1937-2011) nasceu em Porto Alegre (RS). Publicou mais de 60 livros, que abrangem vários gêneros e pelos quais recebeu numerosos prêmios. Tem livros traduzidos em vários idiomas. Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação da tradição judaico-cristã. Escrevia crônicas para os jornais Zero Hora e Folha de S.Paulo. Entre seus livros, destacam-se O carnaval dos animais, Histórias da terra trêmula, Os leopardos de Kafka, Manual da paixão solitária, O tio que flutuava, Navio das cores (infantojuvenis); Um país chamado infância, Dicionário do viajante insólito, O imaginário cotidiano (crônicas).

  • Norma e padrão

    Uma das comparações que os estudiosos de variação linguística mais gostam de utilizar é a da língua com a vestimenta. Esta, como sabemos, é bastante variada, indo da mais formal (longo e smoking) à mais informal (biquíni e sunga, ou camisola e pijama). A ideia dos que fazem essa comparação é a seguinte: não existem, a rigor, formas linguísticas erradas, existem formas linguísticas inadequadas. Como as roupas: assim como ninguém vai à praia de smoking ou de longo, também ninguém casa de biquíni e de sunga, ou de camisola e de pijama (sem negar que estas sejam vestimentas, e adequadas!), assim ninguém diz “me dá esse troço aí” num banquete público e formal nem “faça-me o obséquio de passar-me o sal” numa situação de intimidade familiar.

    Os gramáticos e os sociolinguistas, cada um com seu viés, costumam dizer que o padrão linguístico é usado pelas pessoas representativas de uma sociedade. Os gramáticos dizem isso, mas acabam não analisando o padrão, nem recomendando-o de fato. Recomendam uma norma, uma norma ideal. Vou dar uns exemplos: se o padrão é o usado pelos figurões, então deveriam ser considerados padrões o verbo “ter” no lugar de “haver”; a regência de “preferir x do que y”, em vez de “preferir x a y”; o uso do anacoluto (A inflação, ela estará dominada quando…); a posição enclítica dos pronomes átonos. O que não significa proibir as mais conservadoras. Algumas dessas formas “novas” aparecem em muitíssimo boa literatura, em autores absolutamente consagrados, que poderiam servir de base para que os gramáticos liberassem seu uso – para os que necessitam da licença dos outros.

    Vejam-se esses versos de Murilo Mendes: “Desse lado tem meu corpo / tem o sonho / tem a minha namorada na janela / tem as ruas gritando de luzes e movimentos / tem meu amor tão lento / tem o mundo batendo na minha memória / tem o caminho pro trabalho. Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida / tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas / tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão / tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.” 

    Faltou ao poeta acrescentar: tem uns gramáticos do tempo da onça / de antes do tempo em que se começou a andar pra frente.

    Não vou citar Drummond de Andrade, com seu por demais conhecido “Tinha uma pedra no meio do caminho…”, nem o Chico Buarque de “Tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu…”

    Mas acho que vou citar “Pronominais”, do glorioso Oswald de Andrade: Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da nação brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro.

    Quero insistir: ao contrário do que se poderia pensar (e vários disseram), não sou anarquista, defensor do tudo pode, ou do vale tudo. Nem estou dizendo que “Nós vai” é igual a “Tem muito filho que obedece os pais”. O que estou fazendo é cobrar coerência, um pouquinho só: se o padrão vem da fala dos bacanas, se os mais bacanas são os poetas consagrados, por que, antes das dez, numa aula de literatura, podemos curtir seu estilo e em outra aula, depois das onze, dizemos aos alunos e aos demais interessados: viram o Drummond, o Murilo, o Machado, o Guimarães Rosa? Que criatividade!!! Mas vocês não podem fazer como eles.

    POSSENTI, Sírio. A cor da língua e outras croniquinhas de linguística. Campinas: Mercado de Letras, 2001. p. 111-112. (Adaptado).

    Sírio Possenti
    Sírio Possenti

    Sírio Possenti é licenciado em Filosofia e tem mestrado e doutorado em Linguística. É professor titular (Análise do Discurso) no Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp). Estuda humor. Tem interesse pelos discursos jornalístico e publicitário. Dedica-se ao estudo de textos breves, especialmente piadas, pequenas frases e fórmulas. Pela Contexto é autor dos livros Ethos Discursivo, Fórmulas Discursivas, Discurso e Desigualdade Social, A Desordem do Discurso, Humor, Língua e Discurso e Sentido e Significação.

  • Sob o feitiço dos livros

    Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo —ler um livro é simplesmente algo depravado”. É o que sinto ao andar pelas manhãs pelos maravilhosos caminhos da fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos”.

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  • Catadores de tralhas e sonhos

    Copyright© by Cenpec e Itaú Social

    São centenas, talvez milhares os catadores de papel nessa megalópole. Puxam ou empurram carroças e catam objetos no lixo ou nas calçadas. É um museu de tralhas variadas: restos de materiais para construção, papel, caixas de papelão, embalagens de inúmeros produtos, e até mesmo objetos decorativos, alguns belos e antigos, desprezados por algum herdeiro.

    Há carroças exóticas, pintadas com desenhos de figuras pop, seres mitológicos, nuvens, pássaros e vampiros. Em Santana, vi uma carroça que lembrava um jinriquixá, só que maior do que o veículo asiático.

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  • Pavão

    Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

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  • Peladas

    Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.

    E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “Eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe”. Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

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