Conto Crônica Gênero Textual Literatura Literatura Brasileira Poema Reportagem Texto Jornalístico Tipologia Argumentativa Tipologia Narrativa

  • Meu engraxate

    É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxate me deixou.

    Passei duas vezes pela porta onde ele trabalhava e nada. Então me inquietei, não sei que doenças mortíferas, que mudança pra outras portas se pensaram em mim, resolvi perguntar ao menino que trabalhava na outra cadeira. O menino é um retalho de hungarês, cara de infeliz, não dá simpatia nenhuma. E tímido o que torna instintivamente a gente muito combinado com o universo no propósito de desgraçar esses desgraçados de nascença. “Está vendendo bilhete de loteria”, respondeu antipático, me deixando numa perplexidade penosíssima: pronto! estava sem engraxate! Os olhos do menino chispeavam ávidos, porque sou dos que ficam fregueses e dão gorjeta. Levei seguramente um minuto pra definir que tinha de continuar engraxando sapatos toda a vida minha e ali estava um menino que, a gente ensinando, podia ficar engraxate bom. É incrível como essas coisas são dolorosas. Sentei na cadeira, com uma desconfiança infeliz, entregue apenas à “fatalidade inexorável do destino”.

    Pode parecer que estou brincando, estou brincando não. Há os que fazem engraxar os sapatos no lugar onde estão, quando pensam nisso. Há os como eu, que chegam a tomar um bonde comprido, vão até a rua Fulana, só pra que os seus sapatos sejam engraxados pelo “seu” engraxate. Há indivíduos cujo ser como que é completo por si mesmo, seres que se satisfazem de si mesmos. Engraxam sapato hoje num, amanhã noutro engraxate; compram chapéu numa chapelaria e três meses depois já compram noutra; conversam com a máxima comodidade com os empregados duma e doutra casa e com todos os engraxates desse mundo. Indivíduos assim me dão uma impressão ostensiva de independência feliz, porém não os invejo.

    De primeiro, faz talvez vinte anos, meu engraxate foi trabalhar com o meu freguês barbeiro. Era cômodo, ficava tudo perto da minha casa de então. Meu barbeiro, serzinho de uma amabilidade tão loquaz que acabou me convencendo da perfeição da gilete, logo me falou que aquele engraxate falava o alemão. Perguntei por passatempo e o italiano fizera a guerra, preso logo pelos austríacos. Era baixote, atarracado, bigode de arame e uma calvície fraternal. Se estabeleceu uma corrente de forte interdependência entre nós dois, isso o homenzinho trabalhou que foi uma maravilha e meus sapatos vieram de Golconda. Nunca mais nos largamos. Entre nós só se trocaram palavras tão essenciais que nem o nome dele sei, Giovanni? Carlo? não sei. Um dia ele me contou baixinho, rápido, que mudava de porta. Foi o que me deu a primeira noção nítida de que o meu barbeiro era mesmo duma amabilidade insustentável. Mudei com o meu engraxate e, pra não ferir o barbeiro, que a final das contas era um homem querendo ser bom, me atirei nos braços da gilete a que até agora sou fiel.

    Veio o dia em que a engraxadela aumentou de preço. Só soube muito mais tarde, por acaso, meu engraxate não me contou nada, preferindo ficar sem gorjeta, não é lindo! Nos fins de ano, jamais pediu festas, eu dava porque queria. Hoje, tanto as festas como as pequenas gorjetas me produzem um sentimento de mesquinhez, não sei por que dificuldades meu engraxate terá passado, quanto lutou consigo e com a mulher. A final não aguentou mais esta crise, vamos ver se vender bilhete rende mais!

    O menino, até me deu raiva de tanto que demorou. (Meu engraxate também demorava demais quando era eu, mas não dava raiva.) O menino, pra falar verdade, engraxou tão bem como o meu engraxate e meus sapatos continuaram vindo de Golconda. Não sei… não voltei mais lá. Faz semana que não engrax o meus sapatos. Sei que isso não pode durar muito e o mais decente é ficar mesmo freguês do menino, porém minha única e verdadeira resolução decidida é que vou comprar bilhetes de loteria. Não tenho intenção nenhuma de tirar a sorte grande mas… mas que mal-estar!…

    ANDRADE, Mário de. Os filhos da Candinha. São Paulo. Martins. 1963. p. 167.

    Mário de Andrade

    Mário de Andrade (1893-1945), paulista da capital, que cantou como nenhum outro, estreia com livro de poesia em 1917. Sua primeira obra modernista foi Paulicéia desvairada (1922). Foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, na qual palestrou e recebeu muitas vaias. Teórico do Modernismo, além da obra pessoal, consagrou-se à militância jornalística, institucional e epistolar. Com Macunaíma (1928), atingiu o apogeu da prosa modernista. Praticou uma poesia de andamentos dilatados e poemas extensos, voltada para a meditação. Principais livros: Paulicéia desvairada (1922), Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927), Remate de males (1930), Poesias (1941) e Poesias completas (1966).

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Gramática normativa, gramática descritiva e gramática internalizada

    Uma das observações que devem ser feitas sobre as diferenças entre uma gramática descritiva e outra normativa é que, além do caráter prescritivo desta estar ausente naquela, a gramática descritiva não pode valer‐se de critérios estéticos (bonito, elegante, fino etc.), puristas ou quaisquer outros menos científicos. Uma gramática descritiva deve dizer, da forma mais objetiva possível, como é uma língua ou uma variedade, como é usada essa língua ou essa variedade.

    Os linguistas têm desenvolvido gramáticas descritivas das línguas ou de suas variedades à luz de diferentes quadros teóricos produzidos no interior da linguística. Assim, por exemplo, pode‐se descrever uma variedade utilizada por determinado grupo de falantes – variedade que pode coincidir ou não com a norma culta –, estabelecendo‐se as suas regras de formação e uso; essa descrição poderá enfocar aspectos sintáticos, semânticos, fonéticos etc. Em suma, as gramáticas, apesar de não avalizarem preconceitos linguísticos, elegem variedades a serem descritas e o fazem segundo determinado construto teórico, o que faz com que também elas não sejam neutras.

    Outra diferença entre gramática normativa e a descritiva é a noção de erro. Para a primeira, toda realização linguística que esteja fora dos padrões estabelecidos como ideais é considerada errada. E, para a gramática descritiva, existe erro? Sim: segundo essa concepção de gramática, é erro o que não ocorre sistematicamente na língua, em nenhuma de suas variedades. Suponha‐se, por exemplo, que o enunciado “a gente vamos” não tenha sido encontrado em um estudo descritivo da norma culta falada no Brasil; mas, confirmando‐se que essa construção ocorra sistematicamente em outra variedade do português, ela não é um erro, e sim uma inadequação à norma culta.

    Além das gramáticas normativa e descritiva, pode‐se considerar mais um conceito de gramática, a internalizada.

    De acordo com esse conceito, saber uma língua pode ser entendido como ter internalizada a gramática dessa língua. É segundo essa perspectiva que se diz que todo falante nativo do português sabe o português, sabe a gramática de sua língua e conhece as diferenças das variedades linguísticas com as quais tem contato. Assim, vistas sob essa perspectiva, concordâncias como “a gente vamos” e “nós vai” não são erradas, já que são fruto do conhecimento linguístico de falantes do português no Brasil. São fruto de um processo de construção de uma gramática que teve como base as relações sócias vivenciadas pelo falante e uma capacidade para a linguagem, inata e presente em todos os seres humanos que não possuem patologias que os impeçam de construí‐la.

    Marina Célia Mendonça. Língua e ensino: políticas de fechamento. In: Fernanda Mussalim e Ana Cristina Bentes (orgs.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras. v.2. 3.ª ed. São Paulo: Cortez, 2003, p. 237‐8 (com adaptações).

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Não há línguas fáceis ou difíceis

    Uma das mais interessantes descobertas, do ponto de vista europeu, produzida pelas análises de numerosas línguas indígenas, isto é, línguas faladas nos continentes que os europeus “descobriram”, é que não é verdade que existem línguas simplificadas, ou, para utilizar um termo mais corrente, primitivas. Era um lugar comum (pode ser que o seja ainda hoje, para muitos, por desinformaçao) imaginar que a civilização européia constituía progresso, melhoria, desenvolvimento, avanço. O ponto máximo até então atingido pela humanidade. Mesmo no século XIX, muito depois, portanto, do Iluminismo [no interior do qual se gestou essa ideia de progresso), ainda se imaginava, por influência das teorias correntes sobre a evolução, que as civilizações e as sociedades estavam submetidas a uma evolução similar à das espécies (talvez isso seja mais lamarckismo, mas, deixemos os detalhes de lado, por enquanto). Parecia óbvio pensar o seguinte: há povos atrasados, que mal conhecem o fogo e o tacape, que nem agricultores são. Parecia lógico pensar que, se são primitivos no que se refere a sua sobrevivência e a suas artes, deve ser porque ainda não desenvolveram “totalmente” as capacidades típicas dos seres humanos, vale dizer, a razão, a inteligência. Logo, devem falar uma língua primitiva, mais próxima dos grunhidos dos gorilas do que da sofisticação de uma língua como o gregos o latim, o inglês, o francês, o alemão. Ora, esse raciocínio só foi possível como decorrência do desconhecimento das estruturas internas dessas línguas. Quando os próprios europeus analisaram as línguas indígenas, isto é, quando missionários e linguistas descreveram as gramáticas de tais línguas, fizeram descobertas surpreendentes (para os preconceituosos). Descobriram que línguas consideradas primitivas podem ser classificadas ao lado de línguas ditas civilizadas (segundo Mattoso Câmara, Hill afirma a existência de semelhanças estruturais entre o latim e o esquimó, Nida mostra que os processos morfológicos tornam “aparentadas” línguas como o latim, o sânscrito e o grego com o nwátal, do México e o haussá, da África, por exemplo).

    Afirmar que há línguas primitivas é um equívoco equivalente a afirmar que a Lua é um planeta, que o Sol gira ao redor da Terra, que as estrelas estão fixas em uma abóbada. Tais equívocos foram correntes, mas hoje há um argumento forte contra eles: o conhecimento científico. Da mesma maneira, hoje se sabe que todas as línguas são estruturas de igual complexidade. Isso significa que não há línguas simples e línguas complexas, primitivas e desenvolvidas. O que há são línguas diferentes. Uma análise de qualquer aspecto de qualquer das línguas consideradas primitivas revelará que as razões que levam a esse tipo de juízo não passam de preconceito e(ou) de ignorância. Não é decente, nesse domínio, basear‐se no preconceito do “ouvi dizer”. Hoje, a bibliografia sobre línguas no mundo é abundante; qualquer pessoa interessada pode descobrir que, há muito tempo, os estudiosos mostraram que é ridícula a ideia de que há línguas primitivas, só porque são faladas por povos pouco cultos, segundo um critério pessoal – por exemplo, não escrevem, não moram em prédios de apartamentos, não têm armas sofisticadas… De certa forma, essa revolução copernicana, no domínio das línguas, ainda não se tornou conhecida do grande público…

    Sírio Possenti. Por que (não) ensinar gramática na escola. 2.ª reimp. Campinas‐SP: Mercado de letras: Associação de Leitura do Brasil, 1998 (com adaptações).

    Sírio Possenti

    Sírio Possenti é licenciado em Filosofia e tem mestrado e doutorado em Linguística. É professor titular (Análise do Discurso) no Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp). Estuda humor. Tem interesse pelos discursos jornalístico e publicitário. Dedica-se ao estudo de textos breves, especialmente piadas, pequenas frases e fórmulas. Pela Contexto é autor dos livros Ethos Discursivo, Fórmulas Discursivas, Discurso e Desigualdade Social, A Desordem do Discurso, Humor, Língua e Discurso e Sentido e Significação.

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • A Bola

    O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.

    O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.

    — Como é que liga? – Perguntou.

    — Como, como é que liga? Não se liga.

    O garoto procurou dentro do papel de embrulho.

    — Não tem nenhuma instrução?

    O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.

    — Não precisa manual de instrução.

    — O que é que ela faz?

    — Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.

    — O quê?

    — Controla, chuta…

    — Ah, então é uma bola?

    — Claro que é uma bola. — Uma bola, bola. Uma bola mesmo.

    — Você pensou que fosse o quê?

    — Nada, não.

    O garotinho agradeceu, disse “Legal! “, de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado MONSTER BALL, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de bip eletrônico na tela, ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.

    O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.

    O pai pegou a bola nova ensaiou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.

    — Filho, olha.

    O garoto disse “legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recuperar mentalmente o cheiro do couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

    Disponível em: https://www.escrevendoofuturo.org.br/caderno_virtual/texto/a-bola/index.html. Acesso em: 31 ago. 2023 (adaptado).

    Luis Fernando Veríssimo

    Com apenas seis anos, Luis Fernando Verissimo ganhava a sua primeira bola. Uma bola de couro tão novinha que ele ainda tem guardado na memória o cheiro. Aos dez, viu o Internacional, seu time do coração, jogar pela primeira vez e, a partir desse momento, nunca mais tirou a camisa do time. Mas o jogo que este gaúcho, nascido em 26 de setembro de 1936, melhor domina é o da escrita. E seus dribles arrancam risadas todos os dias dos leitores de suas crônicas. As primeiras jogadas foram no jornal Zero Hora, com passes pela Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. A história de O cachorro que jogava na ponta esquerda reforça a crença de Verissimo no futebol de rua, que só tem como regra a ausência de regras.

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Presa do ódio

    Da tua alma na funda galeria
    Descendo às vezes, eu às vezes sinto
    Que como o mais feroz lobo faminto
    Teu ódio baixa de alcateia espia.

    Do desespero a noite cava e fria,
    De boêmias vis o pérfido absinto
    Pôs no teu ser um negro labirinto,
    Desencadeou sinistra ventania.

    Desencadeou a ventania rouca,
    Surda, tremenda, desvairada, louca,
    Que a tua alma abalou de lado a lado,

    Que te inflamou de cóleras supremas
    E deixou-te nas trágicas algemas
    Do teu ódio sangrento acorrentado!

    Cruz e Souza

    Cruz e Souza foi um poeta simbolista brasileiro. Ele foi o precursor do movimento simbolista no Brasil com a publicação de suas obras “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia) em 1893. É patrono da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15. Ao lado de Alphonsus de Guimaraens, ele é um dos mais importantes poetas do movimento no país.

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • O homem e a sua época

    À medida que o homem cria, recria e decide, vão se formando as épocas históricas. E é também criando, recriando e decidindo como deve participar nessas épocas. É por isso que obtém melhor resultado toda vez que, integrando-se no espírito delas, se apropria de seus temas e reconhece suas tarefas concretas.

    Ponha-se ênfase, desde já, na necessidade permanente de uma atitude crítica, a única com a qual o homem poderá apreender os temas e tarefas de sua época para ir se integrando nela. Uma época, por outro lado, realiza-se na proporção em que seus temas forem captados e suas tarefas, resolvidas. E se supera na medida em que os temas e as tarefas não correspondem a novas ansiedades emergentes.

    Uma época da história apresentará uma série de aspirações, de desejos, de valores, em busca de sua realização. Formas de ser, de comportar-se, atitudes mais ou menos generalizadas, das quais somente os visionários que se antecipam têm dúvidas e frente às quais sugerem novas fórmulas.

    A passagem de uma época para outra caracteriza-se por fortes contradições que se aprofundam, dia a dia, entre valores emergentes em busca de afirmações, de realizações, e valores do ontem em busca de preservação.

    Quando isso ocorre, verifica-se o que chamamos transição. Observa-se um aspecto fortemente dramático que vai atingir as mudanças de que se nutre a sociedade. Porque é dramático, é fortemente desafiador. E a transição se torna então um tempo de opções. Nutrindo-se de mudanças, a transição é mais que as mudanças. Implica realmente a marcha que faz a sociedade na procura de novos temas, de novas tarefas ou, mais precisamente, de sua objetivação. As mudanças se produzem numa mesma unidade de tempo, sem afetá-la profundamente. É que se verificam dentro do jogo normal, resultante da própria busca de plenitude que fazem estes temas.

    Quando, por fim, estes temas começam a esvaziar e a perder sua significação, emergindo novos temas, a sociedade começa a passar para outra época. Nestas fases, mais do que nunca, se faz indispensável a integração. Mais do que nunca se faz indispensável o desenvolvimento de uma mente crítica, com a qual o homem possa se defender dos perigos dos irracionalismos, encaminhamentos distorcidos da emoção, característica dessas fases de transição.

    Paulo Freire. Educação e mudança. 41.ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2020, p. 87-89 (com adaptações)

    Paulo Freire

    Paulo Freire (Recife, 1921–São Paulo, 1997) é Patrono da Educação Brasileira. É um dos brasileiros mais célebres e um dos filósofos do século XX mais lidos do mundo, segundo levantamento do Massachusetts Institute of Technology. Escreveu dezenas de livros, entre eles, Pedagogia do oprimido, a terceira obra de ciências sociais e humanas mais citada no mundo, de acordo com a London School of Economics. Ao longo de sua história, Paulo Freire recebeu mais de cem títulos de doutor honoris causa, de diversas universidades nacionais e estrangeiras, além de inúmeros prêmios, como Educação para a Paz, da Unesco, e Ordem do Mérito Cultural, do governo brasileiro. Integra o International Adult and Continuing Education Hall of Fame e o Reading Hall of Fame.

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Letramento e leitura

    A leitura é um processo cognitivo, histórico, cultural e social de produção de sentidos. Isso significa dizer: o leitor — um sujeito que atua socialmente, construindo experiências e história — compreende o que está escrito a partir das relações que estabelece entre as informações do texto e seus conhecimentos de mundo, ou seja, o leitor é sujeito ativo do processo. Na leitura, não age apenas decodificando, isto é, juntando letras, sílabas, palavras, frases, porque ler é muito mais do que apenas decodificar. Ler é atribuir sentidos. E, ao compreender o texto como um todo coerente, o leitor pode ser capaz de refletir sobre ele, de criticá-lo, de saber como usá-lo em sua vida.

    Conceber a leitura desse modo muda radicalmente a forma de pensar e de organizar o seu ensino. Se os sentidos não estão prontos no texto, é preciso contribuir para que os alunos criem boas estratégias para estabelecer relações necessárias à compreensão. É importante que, nas aulas de leitura, o aluno faça perguntas, levante hipóteses, confronte interpretações, conte sobre o que leu e não apenas faça questionários de perguntas e respostas de localização de informação. Aula de leitura, então,começa com o acionamento ou a mobilização de conhecimentos anteriores do leitor. Os textos são marcados pelo momento histórico em que são escritos, pela cultura que os gerou, e ter essas informações, no momento da leitura, contribui para a compreensão.

    Uma nova concepção de leitura pressupõe o outro, os outros. Há um componente social no ato de ler. Lemos para nos conectarmos ao outro que escreveu o texto, para saber o que ele quis dizer, o que quis significar. Mas lemos também para responder às nossas perguntas, aos nossos objetivos. Nas aulas tradicionais de leitura, o aluno lê por ler, ou para responder perguntas para o professor saber que ele leu. Em situações sociais, em nossa vida cotidiana, no entanto, lemos para buscar respostas para nossas perguntas. Ler, portanto, pressupõe objetivos bem definidos. E esses objetivos são do próprio leitor, em cada uma das situações de leitura. São objetivos que vão sendo modificados à medida que lemos o texto. Assim, a cada nova informação, vamos reformulando nossos objetivos. Um grande desafio das aulas de leitura é levar o aluno a formular (e reformular) seus próprios objetivos.

    Delaine Cafiero. Letramento e leitura: formando leitores críticos. In: Egon de Oliveira Rangel e Roxane Helena Rodrigues Rojo. Língua Portuguesa: ensino fundamental. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010 (com adaptações)

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Memórias do cárcere

    Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a ideia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas?

    Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça.

    Nunca tivemos censura prévia em obra de arte. Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses autos de fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção literária.

    Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade — talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível acharmos nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes com louvores dos sustentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício.

    Graciliano Ramos. Memórias do cárcere. Editora Record.

    Graciliano Ramos

    Graciliano Ramos nasceu em 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, em Alagoas. Entre 1914 e 1915, então no Rio de Janeiro, trabalhou como revisor nos jornais Correio da Manhã, A Tarde e O Século. Casou-se em 21 de outubro de 1915 com Maria Augusta de Barros, com quem tem quatro filhos. Em 1926, já viúvo, casou-se novamente, com Heloisa Medeiros. Em 1938, escreveu o livro que se tornaria sua obra-prima: Vidas secas, seu quarto e último romance, voltado para o drama social e geográfico de sua região ― melhor expressão de seu estilo, com ênfase regionalista. Em 30 de março de 1953, aos 61 anos, o Mestre Graça ― como era carinhosamente tratado ― faleceu na cidade do Rio de Janeiro.

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Teoria do medalhão

    (diálogo)

    — Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…

    — Papai…

    — Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. (…) Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. (…)

    — Sim, senhor.

    — Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

    — Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

    — Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. (…)

    — Entendo.

    — Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente (…).

    — Mas quem lhe diz que eu…

    — Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as soframos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

    Machado de Assis. Teoria do medalhão. In: 50 contos escolhidos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 82-83 (com adaptações).

    Machado de Assis

    Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, em 1864. Ao longo da década de 1870, publicaria Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia. Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado em 1881. Papéis avulsos, de 1882, foi sua primeira coletânea de contos dessa fase realista. Em 1899, publicou Dom Casmurro. Escreveu mais de quatrocentas crônicas para o periódico Gazeta de Notícias. Em 1897, foi eleito presidente da Academia Brasileira de Letras, instituição que ajudara a fundar no ano anterior. Morreu em 1908.

    1. Rian Alves
    2. Lucas
  • Quem sou eu?

    […] Se negro sou, ou sou bode
    Pouco importa. O que isto pode?
    Bodes há de toda a casta,
    Pois que a espécie é muito vasta…
    Há cinzentos, há rajados,
    Baios, pampas e malhados
    Bodes negros, bodes brancos,
    E, sejamos todos francos,
    Uns plebeus, e outros nobres,
    Bodes ricos, bodes pobres,
    Bodes sábios, importantes,
    E também alguns tratantes…
    Aqui, nesta boa terra,
    Marram todos, tudo berra;
    Nobres Condes e Duquesas,
    Ricas Damas e Marquesas,
    Deputados, senadores,
    Gentis-homens, veadores;
    Belas Damas emproadas,
    De nobreza empantufadas;
    Repimpados principotes,
    Orgulhosos fidalgotes,
    Frades, Bispos, Cardeais,
    Fanfarrões imperiais,
    Gentes pobres, nobres gentes
    Em todos há meus parentes.
    Entre a brava militança
    Fulge e brilha alta bodança;
    Guardas, cabos, furriéis,
    Brigadeiros, Coronéis,
    Destemidos Marechais,
    Rutilantes Generais,
    Capitães de mar-e-guerra,
    — Tudo marra, tudo berra —
    Na suprema eternidade,
    Onde habita a Divindade,
    Bodes há santificados,
    Que por nós são adorados.
    Entre o coro dos Anjinhos
    Também há muitos bodinhos. —
    O amante de Syiringa
    Tinha pelo e má catinga;
    O deus Mendes, pelas contas,
    Na cabeça tinha pontas;
    Jove quando foi menino,
    Chupitou leite caprino;
    E, segundo o antigo mito,
    Também Fauno foi cabrito.
    Nos domínios de Plutão,
    Guarda um bode o Alcorão;
    Nos ludus e nas modinhas
    São cantadas as bodinhas:
    Pois se todos têm rabicho,
    Para que tanto capricho?
    Haja paz, haja alegria,
    Folgue e brinque a bodaria;
    Cesse pois a matinada,
    Porque tudo é bodarrada!

    Luís Gama. Quem sou eu? In: Sílvio Romero. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Internet: www.brasiliana.usp.br (com adaptações).

    Glossário

    Siringa: belíssima ninfa da água na mitologia clássica.
    Midas: personagem da mitologia grega, rei da Frígia.
    Jove: ou Júpiter, ou Zeus, deus dos deuses e dos homens.
    Fauno: deus romano protetor dos pastores e rebanhos.
    Plutão: ou Hades, deus que possuía as chaves do reino dos mortos.

    Luís Gama

    Luís Gonzaga Pinto da Gama foi um advogado, abolicionista, orador, jornalista e escritor brasileiro e o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Nascido de mãe negra livre e pai branco, foi contudo feito escravo aos 10 anos, e permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado “o maior abolicionista do Brasil”. Apesar de considerado um dos expoentes do romantismo, obras como a “Apresentação da Poesia Brasileira”, de Manuel Bandeira, sequer mencionam seu nome. Teve uma vida tão ímpar que é difícil encontrar, entre seus biógrafos, algum que não se torne passional ao retratá-lo — sendo ele próprio também carregado de paixão, emotivo e ainda cativante. Neste sentido declara o historiador Boris Fausto que Gama era dono de uma “biografia de novela”.

    1. Rian Alves
    2. Lucas