Artigo de Opinião

  • O poder das palavras

    As palavras têm um poder tremendo. Repito com assertividade: as palavras têm um poder tremendo. Há palavras que edificam, outras que destroem; umas trazem bênção, outras, maldição. E é entre estas duas balizas que a comunicação vai moldando a nossa vida.

    Há palavras que deviam ser escondidas num baú fechado a sete chaves. Porque não edificam, porque magoam, porque destroem…

    Há uns tempos fui fazer um exame médico. Após o questionário clínico habitual, a médica prosseguiu: “Agora, vou fazer-lhe umas maldades”. Nesse instante, o meu corpo sucumbiu e o desmaio tornou-se iminente. Ora, a palavra maldade magoou-me mais do que o próprio exame. Teria sido muito sensato ter escondido tal palavra num quarto escuro. Não teria magoado tanto.

    Mas voltemos às palavras amigas, as que mimam, as que confortam, as que aquecem o coração.

    Sabiam que podem mudar o dia de alguém com uma calorosa saudação? “Bom dia, como está?” Experimentem, sempre que comunicam, escolher palavras com carga afetiva positiva! Por exemplo, se substituírem a palavra “problema” por “situação”, o problema parece tornar-se mais pequeno, não parece? Ou então acrescentar adjetivos robustos quando agradecem a alguém: “Obrigada pela sua preciosa, valiosa ajuda”.

    Se queremos relações pessoais e profissionais mais saudáveis e felizes, usemos e abusemos das palavras positivas na nossa vida. E não nos cansemos de elogiar. Palavras de louvor e honra trazem felicidade não só a quem as recebe, mas também, e sobretudo, a quem as oferece.

    Sandra Duarte Tavares. O poder das palavras. In: Visão, ed. 1298, 2017. Internet: <visao.sapo.pt> (com adaptações).

  • Barbra Streisand clonou seu cão – o que é meio errado e completamente sem sentido

    Clonar pets, além de causar sofrimento a animais que já estão vivos, não adianta nada: genes iguais não garantem personalidades iguais.

    Eu reconheço um episódio de Black Mirror quando vejo um. Por isso tomei um susto desgraçado quando li, na última sexta, que a cantora Barbra Streisand havia encomendado um clone de seu cachorro morto por 50 mil dólares. Dei um belo beliscão no braço para ver se eu estava mesmo no escritório, e não no sofá de casa, assistindo à quinta temporada numa pré-estreia exclusivíssima. Depois, dei um rolê rápido no Twitter e descobri que quase todo mundo achou a ideia ótima. Fofa.

    Antes de começar o textão, uma ressalva básica: eu, infelizmente, nunca saí na rua para lutar pelos direitos dos animais. E, apesar de achar o vegetarianismo uma ótima ideia – não só do ponto de vista ideológico como do científico também -, me falta força de vontade para segui-lo. Não vou tentar arranjar desculpas para essa preguiça. Eu concordo plenamente que pessoas vão longe demais nessa história de confundir animais com objetos inanimados. E é esse ponto de vista que vou defender aqui.

    Para começo de conversa, produzir clones usando o método da ovelha Dolly só é simples na teoria. Vamos revisar: você pega o núcleo de uma célula, que contém o DNA do animal que será copiado, e o insere no óvulo de uma fêmea qualquer. Depois, pega esse óvulo e o implanta no útero de uma segunda fêmea, que levará a gestação adiante.

    A chance de o processo descrito acima dar errado é muito grande. Quando Dolly foi clonada, foi a única que vingou entre 29 embriões, implantados em 13 úteros. Snuppy, o primeiro cachorro clonado da História, é o único sobrevivente entre outras 94 potenciais cópias, que não sobreviveram à gestação. É óbvio que, duas décadas depois, a técnica já é bem mais eficiente. Em 2014, a China já estava clonando porcos para fins industriais com taxas de sucesso entre 70% e 80%. Mas ainda há uma margem de erro razoável aí, que precisa ser compensada por meio da criação de mais de um óvulo e da inseminação de mais de uma fêmea.

    Em outras palavras, empresas como a que Streisand contratou para xerocar seu pet se aproveitam de cadelas anônimas, que fornecem úteros e óvulos (cuja extração envolve estimulação hormonal e intervenção cirúrgica). Há uma entrevista detalhada sobre isso na Scientific American, e esta reportagem relata a rotina de uma empresa sul-coreana especializada no ramo. É no mínimo sacanagem usar e abusar de dezenas de Canis lupus familiaris para gerar um único exemplar de um animal da mesma espécie, só por causa de sua aparência física. A única diferença entre o coton du tulear de Streisand e o vira-lata do boteco é que um nasceu em berço de ouro, com pedigree, e o outro na esquina. Cachorro para adotar é o que não falta nesse mundo.

    […]

    Disponível em: https://super.abril.com.br/blog/supernovas/barbra-streisand-clonou-seu-cao-o-que-e-meio-errado-e-completamente-sem-sentido/. Acesso em: 16 set. 2020. [Fragmento]

  • A viralização do senso comum

    Quem já recebeu alguma mensagem via WhastApp informando que o governo vai confiscar a caderneta de poupança ou que o Congresso vai votar um projeto que acaba com o 13º salário? Outro conteúdo falso que “viralizou” no Facebook nos últimos tempos se refere ao auxílio-reclusão, que seria pago diretamente ao criminoso, ou, ainda, que o benefício se multiplicava conforme o número de filhos do preso ou da presa.

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  • Em defesa do voto obrigatório

    Existe, no senso comum, um mal-estar em relação ao voto obrigatório. Toda obrigação incomoda. Este fato, indiscutível, favorece os defensores do voto facultativo, que, ademais, apresentam sua proposta como expressão da postura libertária e como fator de desmonte de algumas distorções que, de fato, existem em nosso sistema eleitoral.

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  • “Tá com dó do refugiado? Leva pra casa!”

    “Tá com dó? Leva para casa!” é uma daquelas frases icônicas, através das quais consegue-se avaliar se o interlocutor merece respeito ou um abraço forte e solidário. É utilizada por pessoas com síndrome de pombo-enxadrista (faz sujeira no tabuleiro, joga ignorando regras mínimas de sociabilidade e sai voando, cantando vitória), normalmente diante do clamor para políticas voltadas àquela gente pobre, parda, perdida ou violada que habita as frestas das grandes cidades.

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  • Direitos Humanos: do papel para a prática escolar

    As primeiras declarações dos Direitos Humanos datam do século 18 e, desde então, assistimos, em nível global, ao avanço no reconhecimento dos valores básicos para a vida e a dignidade humanas. Como, também, ao aprimoramento dos instrumentos legais para desenvolver sociedades justas, igualitárias e democráticas. No Brasil, a Constituição de 1988 é considerada um documento muito adiantado nessa questão. Ela estabelece, por exemplo, que são objetivos fundamentais da República “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” e “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

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  • Se a publicidade infantil é proibida, por que continua existindo?

    Em eventos, entrevistas e redes sociais, não é raro que me façam a seguinte pergunta: se a publicidade infantil é proibida, por que ela continua existindo? A resposta é simples, ainda que inaceitável: ilegalidades acontecem diariamente porque nossas leis não são cumpridas por aqueles a quem elas se dirigem.

    No caso da publicidade infantil, muitas empresas insistem em fazer com que as normas que protegem as crianças brasileiras frente à publicidade não peguem, em defesa exclusiva de seus interesses comerciais. Assim anunciam brinquedos, roupas, materiais escolares, alimentos, parques de diversões, produtos de higiene para os pequenos em canais de televisão, dentro de escolas, nos pontos de venda, em eventos em praças, nos jogos na internet, em canais de youtubers, e por aí vai.

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  • Como garantir o direito à água para todos

    Carlos Bocuhy, 16 de março de 2018.

    A Organização das Nações Unidas (ONU), em sua resolução de 2015, definiu que a água e o saneamento são direitos fundamentais de todos.

    Todo ser humano tem direito a esse bem tão precioso, e cada vez mais escasso, em quantidade suficiente, aceitável para uso pessoal e doméstico. No Brasil, porém, essa determinação, feita em assembleia geral da ONU, está longe de ser cumprida.

    Apenas uma parcela da população brasileira usufrui em condições adequadas da água para a sua sobrevivência. Às vésperas do Fórum Mundial da Água e do evento paralelo, o Fama, que acontecem no Brasil pela primeira vez, em Brasília, entre 18 e 23 de março, é essencial uma ampla discussão de como garantir a água para todos.

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  • O pai dos males

    O sedentarismo é pai de muitos males. A atividade física, ao contrário, é uma espécie de panaceia moderna com indicações comparáveis às poções receitadas para qualquer doença, já no Egito antigo.

    A diferença, entretanto, é que os médicos do passado repetiam prescrições baseadas em crenças e princípios equivocados, enquanto acumulamos, nos últimos anos, extensa literatura com evidências claras dos benefícios de manter o corpo em movimento.

    O aumento da expectativa de vida ocorrido a partir do início do século passado deslocou a mortalidade geral do campo das doenças infecciosas e parasitárias para as crônico-degenerativas. Hipertensão arterial, diabetes e obesidade tornaram-se as epidemias com maior prevalência até em países de renda mais baixa. No Brasil, transtornos cardiovasculares e câncer ocupam o primeiro e segundo lugar nas estatísticas das causas de morte, respectivamente.

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  • O que precisamos é de menos enzima que come plástico e mais vergonha na cara

    Contar com recém-descoberta para destruir novas gerações de lixo é irresponsabilidade

    Meses antes de morrer, o genial físico inglês Stephen Hawking cometeu a imprudência de proferir uma frase que marcou negativamente a luta de muitos que consagram suas vidas em defesa deste planeta.

    “Estamos ficando sem espaço aqui e os únicos lugares disponíveis para irmos estão em outros planetas, outros universos”, disse Hawking, ignorando talvez o efeito devastador que seu diagnóstico teria sobre os que acreditam que ainda há tempo e recursos para virar o jogo.

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