Tipologia Descritiva

  • Os Dois Reis de Gondar

    Era um dia como os de outrora… e um pobre camponês, tão pobre que tinha apenas a pele sobre os ossos e três galinhas que ciscavam alguns grãos de teff que encontravam pela terra poeirenta, estava sentado na entrada da sua velha cabana como todo fim de tarde. De repente, viu chegar um caçador montado a cavalo. O caçador se aproximou, desmontou, cumprimentou-o e disse:

    — Eu me perdi pela montanha e estou procurando o caminho que leva à cidade de Gondar.

    — Gondar? Fica a dois dias daqui — respondeu o camponês. — O sol já está se pondo e seria mais sensato se você passasse a noite aqui e partisse de manhã cedo.

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  • A Jade

    A Jade merece uma explicação, porque a chatice dela é eterna. A Jade, como a minha tia Ucha costuma dizer, é um capítulo à parte. Ela é magra e bem baixinha. Tem cara de ratinho assustado, tipo aqueles personagens que têm uma única fala no filme, aparecem na cena correndo de um lado para o outro, falam alguma coisa sem muito sentido e depois somem. Talvez ela saiba disso. Muito provavelmente percebeu a semelhança entre ela e o ratinho e, pra compensar, resolveu aparecer de verdade. A Jade é muito inteligente. Consegue ser a menina mais barulhenta da classe e tirar as melhores notas em tudo, sempre. Ninguém entende, mas eu sei que é porque ela é megaesperta, arrogante e eterna. Ela não tem problemas com ninguém em especial, mas vive um caso de amor e ódio com tudo e todos ao mesmo tempo. Acho que até com ela mesma, ou pelo menos é o que a minha mãe diz. Minha mãe não conhece a Jade direito e o pouco que sabe da garota é pelas coisas que eu falo. E eu não falo muito, especialmente sobre a minha vida na escola e a Jade. É que a minha mãe tem a mania de querer saber tudo e tudo vira uma conversa. É como se tocasse uma trombeta dessas de filmes antigos, anunciando que o príncipe regente vai chegar. Tutururururu, agora é hora de conversar. E tudo vira a tal da conversa. Sobre coisas esquisitas e adultas, que eu não tenho a menor vontade de falar ou saber. A Jade virou conversa. Mesmo sem eu dizer nada, ela soube por uma outra mãe da escola o episódio do lanche. Minha mãe disse que ela era carente, devia ter pouca atenção em casa. Problemas na família. Para a minha mãe, todo mundo tem problemas na família. Mas vou deixar ela de lado, porque a minha mãe também merece um capítulo à parte. Voltando para a Jade: além de ser baixinha, ratinha de voz assustada, barulhenta e boa aluna ao mesmo tempo, ela usa a unha pinta da e comprida e sempre fala umas palavras difíceis que ninguém entende. Fala não, grita. “Eterno”, eu aprendi com a Jade. “Bacanosa ‘ também, no dia em que ela me disse: “Sabe, Mia, apesar dessa sua cara supernormal e totalmente sem graça, tenho certeza que um dia você ainda vai mostrar para o mundo que é uma garota bacanosa”.

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  • Iracema

    Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

    Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

    O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

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  • A escuna azul

    Como uma ilha azul que se avista a distância, pouco a pouco ela ia ganhando contorno e deita-lhes, e, já próxima, revelava formas originais e intrigantes – a silhueta elegante forte, que eu já vira outras vezes. […] Não era íntima conhecida mas uma paixão que me perseguia havia um bom tempo. A escuna azul, um veleiro viajante de dois mastros que de tempos em tempos aparecia no Brasil, e que eu nunca deixava escapar sem uma pequena abordagem. Rapa Nui, nome polinésio da ilha de Páscoa, lindo nome para um barco azul e cheio de histórias. Construido em alumínio, em Tarare, na França, num estaleiro onde nasceram dúzias e dúzias de barcos e viagens que se tornaram célebres. A escuna azul, mais do que um veleiro interessante, era uma espécie de máquina de viajar por mar, segura, independente e muito bem equipada. Um barco feito para ir por qualquer caminho. E voltar. Pior ainda, um barco polar, que a qualquer hora acabaria atravessando as altas latitudes para navegar no gelo. Um barco com cara e alma de barco. O barco dos meus sonhos.

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