Poema

  • Presa do ódio

    Da tua alma na funda galeria
    Descendo às vezes, eu às vezes sinto
    Que como o mais feroz lobo faminto
    Teu ódio baixa de alcateia espia.

    Do desespero a noite cava e fria,
    De boêmias vis o pérfido absinto
    Pôs no teu ser um negro labirinto,
    Desencadeou sinistra ventania.

    Desencadeou a ventania rouca,
    Surda, tremenda, desvairada, louca,
    Que a tua alma abalou de lado a lado,

    Que te inflamou de cóleras supremas
    E deixou-te nas trágicas algemas
    Do teu ódio sangrento acorrentado!

    Cruz e Souza

    Cruz e Souza foi um poeta simbolista brasileiro. Ele foi o precursor do movimento simbolista no Brasil com a publicação de suas obras “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia) em 1893. É patrono da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15. Ao lado de Alphonsus de Guimaraens, ele é um dos mais importantes poetas do movimento no país.

  • Quem sou eu?

    […] Se negro sou, ou sou bode
    Pouco importa. O que isto pode?
    Bodes há de toda a casta,
    Pois que a espécie é muito vasta…
    Há cinzentos, há rajados,
    Baios, pampas e malhados
    Bodes negros, bodes brancos,
    E, sejamos todos francos,
    Uns plebeus, e outros nobres,
    Bodes ricos, bodes pobres,
    Bodes sábios, importantes,
    E também alguns tratantes…
    Aqui, nesta boa terra,
    Marram todos, tudo berra;
    Nobres Condes e Duquesas,
    Ricas Damas e Marquesas,
    Deputados, senadores,
    Gentis-homens, veadores;
    Belas Damas emproadas,
    De nobreza empantufadas;
    Repimpados principotes,
    Orgulhosos fidalgotes,
    Frades, Bispos, Cardeais,
    Fanfarrões imperiais,
    Gentes pobres, nobres gentes
    Em todos há meus parentes.
    Entre a brava militança
    Fulge e brilha alta bodança;
    Guardas, cabos, furriéis,
    Brigadeiros, Coronéis,
    Destemidos Marechais,
    Rutilantes Generais,
    Capitães de mar-e-guerra,
    — Tudo marra, tudo berra —
    Na suprema eternidade,
    Onde habita a Divindade,
    Bodes há santificados,
    Que por nós são adorados.
    Entre o coro dos Anjinhos
    Também há muitos bodinhos. —
    O amante de Syiringa
    Tinha pelo e má catinga;
    O deus Mendes, pelas contas,
    Na cabeça tinha pontas;
    Jove quando foi menino,
    Chupitou leite caprino;
    E, segundo o antigo mito,
    Também Fauno foi cabrito.
    Nos domínios de Plutão,
    Guarda um bode o Alcorão;
    Nos ludus e nas modinhas
    São cantadas as bodinhas:
    Pois se todos têm rabicho,
    Para que tanto capricho?
    Haja paz, haja alegria,
    Folgue e brinque a bodaria;
    Cesse pois a matinada,
    Porque tudo é bodarrada!

    Luís Gama. Quem sou eu? In: Sílvio Romero. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Internet: www.brasiliana.usp.br (com adaptações).

    Glossário

    Siringa: belíssima ninfa da água na mitologia clássica.
    Midas: personagem da mitologia grega, rei da Frígia.
    Jove: ou Júpiter, ou Zeus, deus dos deuses e dos homens.
    Fauno: deus romano protetor dos pastores e rebanhos.
    Plutão: ou Hades, deus que possuía as chaves do reino dos mortos.

    Luís Gama

    Luís Gonzaga Pinto da Gama foi um advogado, abolicionista, orador, jornalista e escritor brasileiro e o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Nascido de mãe negra livre e pai branco, foi contudo feito escravo aos 10 anos, e permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado “o maior abolicionista do Brasil”. Apesar de considerado um dos expoentes do romantismo, obras como a “Apresentação da Poesia Brasileira”, de Manuel Bandeira, sequer mencionam seu nome. Teve uma vida tão ímpar que é difícil encontrar, entre seus biógrafos, algum que não se torne passional ao retratá-lo — sendo ele próprio também carregado de paixão, emotivo e ainda cativante. Neste sentido declara o historiador Boris Fausto que Gama era dono de uma “biografia de novela”.

  • Soneto do Amor Total

    Amo-te tanto, meu amor… não cante
    O humano coração com mais verdade…
    Amo-te como amigo e como amante
    Numa sempre diversa realidade.

    Amo-te enfim, de um calmo amor prestante,
    E te amo além, presente na saudade.
    Amo-te, enfim, com grande liberdade
    Dentro da eternidade e a cada instante.

    Amo-te como um bicho, simplesmente,
    De um amor sem mistério e sem virtude
    Com um desejo maciço e permanente.

    E de te amar assim muito e amiúde,
    É que um dia em teu corpo de repente
    Hei de morrer de amar mais do que pude.

    Vinícius de Moraes. Livro de sonetos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957, p. 73-74.

    Vinícius de Moraes

    Nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Consagrado como um dos principais poetas de língua portuguesa, foi também cronista, crítico de cinema, dramaturgo, compositor e diplomata. Com Tom Jobim, deu início a uma intensa e brilhante parceria, que se firmaria como a dupla precursora da bossa nova. Ao lado de uma vasta lista de amigos e músicos, Vinicius deixou sua marca incontornável no cancioneiro popular brasileiro. Morreu aos 66 anos, em 1980, no Rio.

  • Minha cama é um veleiro

    A minha cama é um veleiro;
    nela me sinto seguro;
    com minha roupa de marinheiro,
    vou navegando no escuro.

    De noite embarco e sacudo a mão
    para os amigos no cais;
    fecho os olhos e pego o timão:
    não ouço nem vejo mais.

    Cauto marujo, levo em segredo
    para a cama uma fatia
    de bolo e também algum brinquedo,
    pois é longa a travessia.

    Corremos de noite o mundo inteiro;
    mas quando chega a alvorada,
    eis-me a salvo em meu quarto e o veleiro
    de proa bem amarrada.

    In: José Paulo Paes, sel. e trad. Ri melhor quem ri primeiro – Poemas para crianças (e adultos inteligentes). São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 22.

    Robert Louis Stevenson

    Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo a 13 de novembro de 1850. Cursou Direito – sem que alguma vez tenha chegado a advogar – e, pouco depois, apaixona-se por Fanny Osbourne com quem, apesar das diversas atribulações por que passaram, se viria casar. Anos mais tarde contrai tuberculose e muda-se com a mulher e o enteado para a Suíça, onde vive durante um ano. Regressa à Escócia mas o clima só prejudica ainda mais a sua saúde, obrigando-o a mudar-se novamente, desta vez para o Sul de França. Os anos seguintes foram passados à procura de um clima que não agravasse a sua doença, até que finalmente, em 1892, se fixou com a família em Samoa. Foi aí que morreu no dia 3 de dezembro de 1894, vítima de uma hemorragia cerebral. Foi autor, entre outros, de O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, e de A Ilha do Tesouro, que o imortalizaram.

  • Meus oito anos

    Oh! Que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais!
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais!

    Como são belos os dias
    Do despontar da existência!
    – Respira a alma inocência
    Como perfumes a flor;
    O mar é – lago sereno,
    O céu – um manto azulado,
    O mundo – um sonho dourado,
    A vida – um hino d’amor!

    Que auroras, que sol, que vida,
    Que noites de melodia
    Naquela doce alegria,
    Naquele ingênuo folgar!
    O céu bordado d’estrelas,
    A terra de aromas cheia,
    As ondas beijando a areia
    E a lua beijando o mar!

    Oh! dias da minha infância!
    Oh! meu céu de primavera!
    Que doce a vida não era
    Nessa risonha manhã.
    Em vez das mágoas de agora,
    Eu tinha nessas delícias
    De minha mãe as carícias
    E beijos de minha irmã!

    Livre filho das montanhas,
    Eu ia bem satisfeito,
    De camisa aberto ao peito,
    – Pés descalços, braços nus –
    Correndo pelas campinas
    À roda das cachoeiras,
    Atrás das asas ligeiras
    Das borboletas azuis!

    Naqueles tempos ditosos
    Ia colher as pitangas,
    Trepava a tirar as mangas,
    Brincava à beira do mar;
    Rezava às Ave-Marias,
    Achava o céu sempre lindo,
    Adormecia sorrindo
    E despertava a cantar!

    Oh! Que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais!
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais!

    Poesias completas de Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d. p. 19.

    Casimiro de Abreu

    Casimiro de Abreu (Casimiro José Marques de Abreu), poeta, nasceu em Barra de São João (distrito da cidade que leva seu nome), RJ, em 4 de janeiro de 1839, e faleceu em Casimiro de Abreu, RJ, em 18 de outubro de 1860. Ele é o autor da obra Meus Oito Anos, um dos poemas mais populares da literatura brasileira que se destacou na Segunda Geração do Romantismo.
    Em 1853 foi para Lisboa. Foi nesse período que escreveu a maior parte dos poemas de seu único livro “Primaveras”. É patrono da cadeira n.º 6 da Academia Brasileira de Letras.
    Casimiro José Marques de Abreu nasceu na Barra de São João, Estado do Rio de Janeiro, no dia 4 de janeiro de 1839. Era filho do rico comerciante português, José Joaquim Marques de Abreu e da brasileira Luíza Joaquina das Neves.
    Casimiro passou sua infância na fazenda da Prata, no atual município de Silva Jardim, de onde saiu com nove anos para estudar Humanidades no Colégio Frese em Nova Friburgo.

  • Grito negro

    Eu sou carvão!
    E tu arrancas-me brutalmente do chão
    e fazes-me tua mina, patrão.


    Eu sou carvão!
    e tu acendes-me, patrão
    para te servir eternamente como força motriz
    mas eternamente não, patrão.
    Eu sou carvão
    e tenho que arder, sim
    e queimar tudo com a força da minha combustão.
    Eu sou carvão
    tenho que arder na exploração
    arder até às cinzas da maldição
    arder vivo como alcatrão, meu irmão
    até não ser mais a tua mina, patrão.
    Eu sou carvão
    Tenho que arder
    queimar tudo com o fogo da minha combustão.
    Sim!
    Eu serei o teu carvão, patrão!

    In: Mário de Andrade, org. Antologia temática de poesia africana. 3. ed. Lisboa: Instituto Cabo-Verdeano do Livro, 1980. v. 1 p. 180.

    Mário de Andrade

    Mário de Andrade (1893-1945), paulista da capital, que cantou como nenhum outro, estreia com livro de poesia em 1917. Sua primeira obra modernista foi Paulicéia desvairada (1922). Foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, na qual palestrou e recebeu muitas vaias. Teórico do Modernismo, além da obra pessoal, consagrou-se à militância jornalística, institucional e epistolar. Com Macunaíma (1928), atingiu o apogeu da prosa modernista. Praticou uma poesia de andamentos dilatados e poemas extensos, voltada para a meditação. Principais livros: Paulicéia desvairada (1922), Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927), Remate de males (1930), Poesias (1941) e Poesias completas (1966).

  • A valsa

    Casimiro de Abreu

    Tu ontem,
    Na dança
    Que cansa,
    Voavas
    Co’as faces
    Em rosas
    Formosas
    De vivo,
    Lascivo
    Carmim;
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  • Aquarela do Brasil

    Brasil, meu Brasil brasileiro
    Meu mulato rizoneiro
    Vou cantar-te nos meus versos

    O Brasil, samba que dá
    Bamboleio, que faz gingar
    O Brasil do meu amor
    Terra de Nosso Senhor (mais…)

  • Com Que Roupa?

    Agora vou mudar minha conduta
    Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar
    Vou tratar você com a força bruta
    Pra poder me reabilitar (mais…)