Poema

  • Senhora minha, desde que vos vi

    Senhora minha, desde que vos vi,
    lutei para ocultar esta paixão
    que me tomou o coração;
    mas não o posso mais e decidi
    que saibam todos o meu grande amor,
    a tristeza que tenho, a imensa dor
    que sofro desde o dia em que vos vi.

    Quando souberem que por vós sofri
    tamanha pena, pesa-me, senhora,
    que por vossa crueza padeci,
    eu que sempre vos quis mais que ninguém,
    e nunca me quisestes fazer bem,
    nem ao menos saber o que eu sofri.
    E quando eu vir, senhora, que o pesar
    que me causais me vai levar a morte,
    direi, chorando minha triste sorte:
    “Senhor, por que me vão assim matar?”
    E, vendo-me tão triste e sem prazer,
    todos, senhora, irão compreender
    que só de vós me vem este pesar.

    Já que assim é, eu venho vós rogar
    que queiras pelo menos consentir
    que passe a minha vida a vos servir,
    e que possa dizer em meu cantar
    que está mulher, que em seu poder me tem,
    sois vós, senhora minha, vós, meu bem;
    graça maior não ousarei rogar.

    Afonso Fernandes. Apud C. Berardinelli, Cantigas de trovadores medievais em português moderno. Rio de Janeiro: Simões, s.d.:l9

  • Se eu não a tenho, ela me tem


    Arnaut Daniel (tradução-recriação de Augusto de Campos)

    Se eu não a tenho, ela me tem
    o tempo todo preso, Amor,
    e tolo e sábio, alegre e triste,
    eu sofro e não dou o troco.
    É indefeso quem ama.
    Amor comanda
    à escravidão mais branda
    e assim me rendo,
    sofrendo,
    à dura lida
    que me é deferida.

    Se calo, é porque mais convém
    calar, em mim, o meu calor.
    A língua hesita, o corpo existe
    e, doendo, acha pouco,
    sofre mas não reclama.
    A sombra vã da
    memória me demanda
    e eu me surpreendo
    mexendo
    nesta ferida
    sempre revolvida.

    CAMPOS, Augusto de. Mais provençais – Amaut Doniel/Raimbaut D’Aurenga. São Paulo: Companhia das letras. 1987. p.79.

    Arnaut Daniel


    Arnaut Daniel de Ribérac nasceu em Périgord, na atual França, por volta de 1150 ou 1160. Foi um dos principais representantes do estilo de poesia trovadoresca trobar clus. Foram conservadas 18 composições suas, duas delas com música, tratando quase sempre de temas amorosos. É considerado o criador da sextina, uma canção com estrofes de seis versos. No século XX, o interesse por sua obra foi retomado, o que repercutiu no Brasil por meio dos ensaios e das traduções de Augusto de Campos.

    Augusto de Campos



    Augusto Luís Browne de Campos, poeta, tradutor e ensaísta nascido em São Paulo em 1931, é um dos criadores do movimento concretista no Brasil, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Em 1952, eles lançaram a revista Noigandres, palavra retirada de uma cantiga de Arnaut Daniel que significa “perfume para afugentar o tédio” É autor de estudos e traduções da poesia provençal no Brasil. Sua obra crítica é composta de Teoria da poesia concreta, O anticrítico e outros. Traduziu autores importantes corno Mallarmé, Joyce, Maiakóvski, Raimbaut D’Aurenga e Arnaut Daniel.

  • Ribeirinha reivi

    No mundo, disso não há semelhança:
    enquanto vou vivendo de esperança,
    por ela vou morrendo – e… ai!

    Minha senhora clara e rosada,
    como queria descrevê-la, e tanto
    só eu sei quando a vi sem manto!

    Infeliz do dia em que me levantei
    e a vi assim tão bela, tão corada!

    Minha senhora, desde aquele dia, ai,
    me senti bem mal, comigo ausente.

    Ela, filha de Dom Paio
    Moniz, bem parecida
    por seus modos, de luxo assim vestida.

    E eu, minha senhora, um presente
    de si nunca poderei ter, nem dar:
    a não ser alguma coisa reles,
    sem valor, insignificante!
    Ay!


    BARRETO, Atônito. Disponível em: <www.primeiroprograma.com.br>. Acesso em: 9 set. 2015.

  • Violões que choram…

    Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
    Soluços ao luar, choros ao vento…
    Tristes perfis, os mais vagos contornos,
    Bocas murmurejantes de lamento.

    Noites de além, remotas, que eu recordo,
    Noites da solidão, noites remotas
    Que nos azuis da Fantasia bordo,
    Vou constelando de visões ignotas.

    Sutis palpitações à luz da lua,
    Anseio dos momentos mais saudosos,
    Quando lá choram na deserta rua
    As cordas vivas dos violões chorosos.

    Quando os sons dos violões vão soluçando,
    Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
    E vão dilacerando e deliciando,
    Rasgando as almas que nas sombras tremem.

    Harmonias que pungem, que laceram,
    Dedos nervosos e ágeis que percorrem
    Cordas e um mundo de dolências geram
    Gemidos, prantos, que no espaço morrem…

    E sons soturnos, suspiradas mágoas,
    Mágoas amargas e melancolias,
    No sussurro monótono das águas,
    Noturnamente, entre ramagens frias.

    Vozes veladas, veludosas vozes,
    Volúpias dos violões, vozes veladas,
    Vagam nos velhos vórtices velozes
    Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

    Tudo nas cordas dos violões ecoa
    E vibra e se contorce no ar, convulso…
    Tudo na noite, tudo clama e voa
    Sob a febril agitação de um pulso.

    Que esses violões nevoentos e tristonhos
    São ilhas de degredo atroz, funéreo,
    Para onde vão, fatigadas do sonho,
    Almas que se abismaram no mistério. […]

    Cruz e Sousa. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p. 50-1.

    Vocabulário

    dolência: mágoa, dor.
    ignoto: ignorado, desconhecido.
    lacerar: dilacerar, cortar em pedaços.
    plangente: lastimoso, que chora.
    pungir: ferir, causar dor.

    Cruz e Sousa

    Cruz e Souza foi um poeta simbolista brasileiro. Ele foi o precursor do movimento simbolista no Brasil com a publicação de suas obras “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia) em 1893. É patrono da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15. Ao lado de Alphonsus de Guimaraens, ele é um dos mais importantes poetas do movimento no país.

  • Passagem da noite

    É noite. Sinto que é noite
    não porque a sombra descesse
    (bem me importa a face negra)
    mas porque dentro de mim,
    no fundo de mim, o grito
    se calou, fez-se desânimo.
    Sinto que nós somos noite,
    que palpitamos no escuro
    e em noite nos dissolvemos.
    Sinto que é noite no vento,
    noite nas águas, na pedra.

    E que adianta uma lâmpada?
    E que adianta uma voz?
    É noite no meu amigo.
    É noite no submarino.
    É noite na roça grande.
    É noite, não é morte, é noite
    de sono espesso e sem praia.
    Não é dor, nem paz, é noite,
    é perfeitamente a noite.

    Mas salve, olhar de alegria!
    E salve, dia que surge!
    Os corpos saltam do sono,
    o mundo se recompõe.
    Que gozo na bicicleta!
    Existir: seja como for.
    A fraterna entrega do pão.
    Amar: mesmo nas canções.
    De novo andar: as distâncias,
    as cores, posse das ruas.

    Tudo que à noite perdemos
    se nos confia outra vez.
    Obrigado, coisas fiéis!
    Saber que ainda há florestas,
    sinos, palavras; que a terra
    prossegue seu giro, e o tempo
    não murchou; não nos diluímos.
    Chupar o gosto do dia!
    Clara manhã, obrigado,
    o essencial é viver!

    Reunião. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p. 88.

    Carlos Drummond de Andrade

    Nasceu na pequena cidade de Itabira do Mato Dentro (MG), em 31 de outubro de 1902. Era o nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de sua mulher, Julieta Augusta Drummond de Andrade. Em 1910, iniciou o curso primário em Belo Horizonte, onde conheceu Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco.
    A partir de 1918, tornou-se aluno interno do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), onde recebeu prêmios em concursos literários. No ano seguinte, foi expulso da escola, sob a justificativa de “insubordinação mental”. Mudou-se com a família em 1920 para Belo Horizonte, onde publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas. Conheceu Milton Campos, Abgar Renault, Aníbal Machado, Pedro Nava e outros intelectuais.
    Em 1924, enviou carta a Manuel Bandeira, manifestando-lhe admiração. No mesmo ano, conheceu Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, que visitavam Belo Horizonte. Sua correspondência com Mário de Andrade, iniciada logo depois, duraria até o fim da vida do escritor paulista.

  • Nel mezzo del camin…

    Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
    E triste, e triste e fatigado eu vinha.
    Tinhas a alma de sonhos povoada,
    E a alma de sonhos povoada eu tinha…

    E paramos de súbito na estrada
    Da vida: longos anos, presa à minha
    A tua mão, a vista deslumbrada
    Tive da luz que teu olhar continha.

    Hoje, segues de novo… Na partida
    Nem o pranto os teus olhos umedece,
    Nem te comove a dor da despedida.

    E eu, solitário, volto a face, e tremo,
    Vendo o teu vulto que desaparece
    Na extrema curva do caminho extremo.

    Poesias, Sarças de fogo, 1888.

    Olavo Bilac

    Olavo Bilac (1865-1918) foi um poeta, contista e jornalista brasileiro. É o autor da letra do Hino à Bandeira. Foi um dos principais representantes do Movimento Parnasiano que valorizou o cuidado formal do poema, em busca de palavras raras, rimas ricas e rigidez das regras da composição poética. É membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

  • Vaso grego

    Esta de áureos relevos, trabalhada
    De divas mãos, brilhante copa, um dia,
    Já de aos deuses servir como cansada,
    Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

    Era o poeta de Teos que a suspendia
    Então, e, ora repleta ora esvazada,
    A taça amiga aos dedos seus tinia,
    Toda de roxas pétalas colmada.

    Depois … Mas o lavor da taça admira,
    Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
    Finas, hás de lhe ouvir, canora e doce,

    Ignota voz, qual se da antiga lira
    Fosse a encantada música das cordas,
    Qual se essa voz de Anacreonte fosse .

    OLIVEIRA, Alberto. Poesias: primeira série, edição melhorada. Rio de Janeiro: Garnier, 1912.

    Alberto de Oliveira

    Antônio Mariano Alberto de Oliveira (1857-1937) nasceu em Palrnital de Saquarema (RJ) e morreu em Niterói (RJ). Formado em Farmácia, é um expoente significativo do Parnasianismo brasileiro. Foi secretário estadual de educação, membro honorário da Academia de Ciências de Lisboa e fundador da Academia Brasileira de Letras. Adotou o nome literário Alberto de Oliveira no livro de estreia. Suas principais obras são: Canções românticas (1878), Meridionais ( 1884), Versos e rimas ( 1895), Poesias (em quatro séries, de 1900 a 1927) e Poesias escolhidas (1937).

  • As pombas

    Vai-se a primeira pomba despertada…
    Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
    De pombas vão-se dos pombais, apenas
    Raia sanguínea e fresca a madrugada…

    E à tarde, quando a rígida nortada
    Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
    Ruflando as asas, sacudindo as penas,
    Voltam todas em bando e em revoada…

    Também dos corações onde abotoam,
    Os sonhos, um por um, céleres voam,
    Como voam as pombas dos pombais;

    No azul da adolescência as asas soltam,
    Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
    E eles aos corações não voltam mais…

    In: Benjamim Abdala Jr., org. Antologia da poesia brasileira – Realismo e Parnasianismo. São Paulo: Ática, 1985. p. 35.

    Raimundo Correia

    Raimundo da Mota Azevedo Correia nasceu a bordo do vapor São Luís, na costa do Maranhão, em 1859, e faleceu em Paris em 1911, durante viagem para tratamento da saúde. Fez o curso secundário no colégio Pedro II e cursou Direito em São Paulo, ingressando na magistratura. Foi professor de Direito em Ouro Preto e diretor do Ginásio de Petrópolis. Secretariou a legação brasileira em Lisboa. Seu trabalho foi repetidamente publicado em antologias escolares, especialmente, o poema As Pombas.

  • Via Láctea – Soneto XIII

    “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
    Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
    Que, para ouvi-las, muita vez desperto
    E abro as janelas, pálido de espanto…

    E conversamos toda a noite, enquanto
    A via-láctea, como um pálio aberto,
    Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
    Inda as procuro pelo céu deserto.

    Direis agora: “Tresloucado amigo!
    Que conversas com elas? Que sentido
    Tem o que dizem, quando estão contigo?”

    E eu vos direi:”Amai para entende-las!
    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

    Melhores poemas de Olavo Bilac, cit., p. 44.

    Olavo Bilac

    Olavo Bilac (1865-1918) foi um poeta, contista e jornalista brasileiro. É o autor da letra do Hino à Bandeira. Foi um dos principais representantes do Movimento Parnasiano que valorizou o cuidado formal do poema, em busca de palavras raras, rimas ricas e rigidez das regras da composição poética. É membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

  • A ribeirinha

    ou Cantiga de guarvaia

    No mundo non me sei parelha,
    mentre me for’como me vai,
    ca já moiro por vós – e ai
    mia senhor branca e vermelha,
    queredes que vos retraia
    quando vos e u vi en saia!
    Mao dia me levantei,
    que vos enton non vi fea!

    E, mia senhor, dês quel di, ai!
    me foi a mi muin mal,
    e vós, filha de don Paai
    Moniz, e bem vos semelha
    d’aver eu por vós guarvaia,
    pois eu, mia senhor, d’alfaia
    nunca de vós houve nen ei
    valía d’ûa correa.

    TAVEIRÓS, Paio Soares de. A ribeirinha. ln: LINS, Álvaro; FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Roteiro literário de Portugal e do Brasil. Antologia da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. v. 1.