Literatura

  • A Jade

    A Jade merece uma explicação, porque a chatice dela é eterna. A Jade, como a minha tia Ucha costuma dizer, é um capítulo à parte. Ela é magra e bem baixinha. Tem cara de ratinho assustado, tipo aqueles personagens que têm uma única fala no filme, aparecem na cena correndo de um lado para o outro, falam alguma coisa sem muito sentido e depois somem. Talvez ela saiba disso. Muito provavelmente percebeu a semelhança entre ela e o ratinho e, pra compensar, resolveu aparecer de verdade. A Jade é muito inteligente. Consegue ser a menina mais barulhenta da classe e tirar as melhores notas em tudo, sempre. Ninguém entende, mas eu sei que é porque ela é megaesperta, arrogante e eterna. Ela não tem problemas com ninguém em especial, mas vive um caso de amor e ódio com tudo e todos ao mesmo tempo. Acho que até com ela mesma, ou pelo menos é o que a minha mãe diz. Minha mãe não conhece a Jade direito e o pouco que sabe da garota é pelas coisas que eu falo. E eu não falo muito, especialmente sobre a minha vida na escola e a Jade. É que a minha mãe tem a mania de querer saber tudo e tudo vira uma conversa. É como se tocasse uma trombeta dessas de filmes antigos, anunciando que o príncipe regente vai chegar. Tutururururu, agora é hora de conversar. E tudo vira a tal da conversa. Sobre coisas esquisitas e adultas, que eu não tenho a menor vontade de falar ou saber. A Jade virou conversa. Mesmo sem eu dizer nada, ela soube por uma outra mãe da escola o episódio do lanche. Minha mãe disse que ela era carente, devia ter pouca atenção em casa. Problemas na família. Para a minha mãe, todo mundo tem problemas na família. Mas vou deixar ela de lado, porque a minha mãe também merece um capítulo à parte. Voltando para a Jade: além de ser baixinha, ratinha de voz assustada, barulhenta e boa aluna ao mesmo tempo, ela usa a unha pinta da e comprida e sempre fala umas palavras difíceis que ninguém entende. Fala não, grita. “Eterno”, eu aprendi com a Jade. “Bacanosa ‘ também, no dia em que ela me disse: “Sabe, Mia, apesar dessa sua cara supernormal e totalmente sem graça, tenho certeza que um dia você ainda vai mostrar para o mundo que é uma garota bacanosa”.

    (mais…)
  • História comum

    … Caí na copa do chapéu de um homem que passava… Perdoe-me este começo; é um modo de ser épico. Entro em plena ação. Já o leitor sabe que caí, e caí na copa do chapéu de um homem que passava; resta dizer donde caí e por que caí.

    Quanto à minha qualidade de alfinete, não é preciso insistir nela. Sou um simples alfinete vilão, modesto, não alfinete de adorno, mas de uso, desses com que as mulheres do povo pregam os lenços de chita, e as damas de sociedade os fichus, ou as flores, ou isto, ou aquilo. Aparentemente vale pouco um alfinete; mas, na realidade, pode exceder ao próprio vestido. Não exemplifico; o papel é pouco, não há senão o espaço de contar a minha aventura.

    (mais…)
  • O Cavalo e o Burro

    O cavalo e o burro seguiam juntos para a cidade. O cavalo contente da vida, folgando com uma carga de quatro arrobas apenas, e o burro — coitado! Gemendo sob o peso de oito. Em certo ponto, o burro parou e disse:

    — Não posso mais! Esta carga excede às minhas forças e o remédio é repartirmos o peso irmãmente, seis arrobas para cada um.

    O cavalo deu um pinote e relinchou uma gargalhada.

    (mais…)
  • Romeu e Julieta

    Naquela noite, Romeu não conseguia pegar no sono. Guiado pelo profundo amor que já sentia por Julieta, entrou escondido no jardim dos Capuleto e, morrendo de saudade, ficou olhando para a janela de Julieta. De repente, a porta da varanda se abriu e ela surgiu. Sem perceber a presença dele no jardim, Julieta disse, suspirando, para a lua:

    — Oh! Por que Romeu é um Montecchio? Mas que diferença faz? Montecchio ou Capuleto são apenas nomes. Só o seu nome é meu inimigo! A você, meu amor, ofereço o meu coração!

    Então Romeu saiu das sombras dos arbustos e, iluminado pela intensa luz do luar, disse a ela:

    (mais…)
  • Catadores de tralhas e sonhos

    Copyright© by Cenpec e Itaú Social

    São centenas, talvez milhares os catadores de papel nessa megalópole. Puxam ou empurram carroças e catam objetos no lixo ou nas calçadas. É um museu de tralhas variadas: restos de materiais para construção, papel, caixas de papelão, embalagens de inúmeros produtos, e até mesmo objetos decorativos, alguns belos e antigos, desprezados por algum herdeiro.

    Há carroças exóticas, pintadas com desenhos de figuras pop, seres mitológicos, nuvens, pássaros e vampiros. Em Santana, vi uma carroça que lembrava um jinriquixá, só que maior do que o veículo asiático.

    (mais…)
  • Pavão

    Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

    (mais…)
  • Peladas

    Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.

    E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “Eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe”. Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

    (mais…)
  • Ser brotinho

    Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

    Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

    (mais…)
  • Manifesto Antropófago

    Leitura de Maria Elisa no podcast Filosofia Pop #031.

    Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

    Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

    Tupi, or not tupi that is the question.

    Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

    (mais…)