Literatura Brasileira

  • Teoria do medalhão

    (diálogo)

    — Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…

    — Papai…

    — Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. (…) Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. (…)

    — Sim, senhor.

    — Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

    — Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

    — Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. (…)

    — Entendo.

    — Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente (…).

    — Mas quem lhe diz que eu…

    — Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as soframos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

    Machado de Assis. Teoria do medalhão. In: 50 contos escolhidos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 82-83 (com adaptações).

    Machado de Assis

    Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, em 1864. Ao longo da década de 1870, publicaria Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia. Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado em 1881. Papéis avulsos, de 1882, foi sua primeira coletânea de contos dessa fase realista. Em 1899, publicou Dom Casmurro. Escreveu mais de quatrocentas crônicas para o periódico Gazeta de Notícias. Em 1897, foi eleito presidente da Academia Brasileira de Letras, instituição que ajudara a fundar no ano anterior. Morreu em 1908.

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  • Quem sou eu?

    […] Se negro sou, ou sou bode
    Pouco importa. O que isto pode?
    Bodes há de toda a casta,
    Pois que a espécie é muito vasta…
    Há cinzentos, há rajados,
    Baios, pampas e malhados
    Bodes negros, bodes brancos,
    E, sejamos todos francos,
    Uns plebeus, e outros nobres,
    Bodes ricos, bodes pobres,
    Bodes sábios, importantes,
    E também alguns tratantes…
    Aqui, nesta boa terra,
    Marram todos, tudo berra;
    Nobres Condes e Duquesas,
    Ricas Damas e Marquesas,
    Deputados, senadores,
    Gentis-homens, veadores;
    Belas Damas emproadas,
    De nobreza empantufadas;
    Repimpados principotes,
    Orgulhosos fidalgotes,
    Frades, Bispos, Cardeais,
    Fanfarrões imperiais,
    Gentes pobres, nobres gentes
    Em todos há meus parentes.
    Entre a brava militança
    Fulge e brilha alta bodança;
    Guardas, cabos, furriéis,
    Brigadeiros, Coronéis,
    Destemidos Marechais,
    Rutilantes Generais,
    Capitães de mar-e-guerra,
    — Tudo marra, tudo berra —
    Na suprema eternidade,
    Onde habita a Divindade,
    Bodes há santificados,
    Que por nós são adorados.
    Entre o coro dos Anjinhos
    Também há muitos bodinhos. —
    O amante de Syiringa
    Tinha pelo e má catinga;
    O deus Mendes, pelas contas,
    Na cabeça tinha pontas;
    Jove quando foi menino,
    Chupitou leite caprino;
    E, segundo o antigo mito,
    Também Fauno foi cabrito.
    Nos domínios de Plutão,
    Guarda um bode o Alcorão;
    Nos ludus e nas modinhas
    São cantadas as bodinhas:
    Pois se todos têm rabicho,
    Para que tanto capricho?
    Haja paz, haja alegria,
    Folgue e brinque a bodaria;
    Cesse pois a matinada,
    Porque tudo é bodarrada!

    Luís Gama. Quem sou eu? In: Sílvio Romero. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Internet: www.brasiliana.usp.br (com adaptações).

    Glossário

    Siringa: belíssima ninfa da água na mitologia clássica.
    Midas: personagem da mitologia grega, rei da Frígia.
    Jove: ou Júpiter, ou Zeus, deus dos deuses e dos homens.
    Fauno: deus romano protetor dos pastores e rebanhos.
    Plutão: ou Hades, deus que possuía as chaves do reino dos mortos.

    Luís Gama

    Luís Gonzaga Pinto da Gama foi um advogado, abolicionista, orador, jornalista e escritor brasileiro e o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Nascido de mãe negra livre e pai branco, foi contudo feito escravo aos 10 anos, e permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado “o maior abolicionista do Brasil”. Apesar de considerado um dos expoentes do romantismo, obras como a “Apresentação da Poesia Brasileira”, de Manuel Bandeira, sequer mencionam seu nome. Teve uma vida tão ímpar que é difícil encontrar, entre seus biógrafos, algum que não se torne passional ao retratá-lo — sendo ele próprio também carregado de paixão, emotivo e ainda cativante. Neste sentido declara o historiador Boris Fausto que Gama era dono de uma “biografia de novela”.

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  • Direito à Literatura

    Em comparação a eras passadas, chegamos a um máximo de racionalidade técnica e de domínio sobre a natureza. Isso permite imaginar a possibilidade de resolver grande número de problemas materiais do homem. No entanto, a irracionalidade do comportamento é também máxima, servida frequentemente pelos meios que deveriam realizar os desígnios da racionalidade. Assim, com a energia atômica, podemos ao mesmo tempo gerar força criadora e destruir a vida pela guerra; com o incrível progresso industrial, aumentamos o conforto até alcançar níveis nunca sonhados, mas excluímos dele as grandes massas que condenamos à miséria. E aí entra o problema dos direitos humanos.

    Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo, a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação.

    Acabei de focalizar a relação da literatura com os direitos humanos de dois ângulos diferentes. Primeiro, a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque, pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão de mundo, ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade. Em segundo lugar, a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles. Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável.

    Antonio Candido. Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2011, p. 171 a 193 (com adaptações).

    Antonio Candido

    Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1918 – São Paulo, São Paulo, 2017). Escritor, crítico literário, sociólogo e professor. Expoente da crítica literária brasileira. Suas obras tornam-se base para debate da formação literária nacional, associadas aos estudos de nossa construção sociológica.

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  • Meu pai me vendeu

    São Paulo, 25 de julho de 1880.

    Meu caro Lúcio,

    Recebi o teu cartão com a data de 28 do pretérito.

    Não me posso negar ao teu pedido (…), aí tens os apontamentos que me pedes, e que sempre eu os trouxe de memória.

    Nasci na cidade de São Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na freguesia de Sant’Ana, a 21 de junho de 1830, pelas sete horas da manhã, e fui batizado, oito anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.

    Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação), de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.

    Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.

    Dava-se ao comércio — era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.

    (…) Nada mais pude alcançar a respeito dela. Nesse ano, 1861, voltando a São Paulo, e estando em comissão do governo, na vila de Caçapava, dediquei-lhe os versos que com esta carta envio-te.

    Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas neste país constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: era fidalgo; e pertencia a uma das principais famílias da Bahia de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.

    Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, armava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, em companhia de Luiz Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem, na cidade da Bahia, estabelecida em um sobrado de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho Saraiva.

    Sérgio Rodrigues. Meu pai me vendeu – de Luiz Gama para Lúcio de Mendonça. In: Cartas brasileiras: correspondências históricas, políticas, célebres, hilárias e inesquecíveis que marcaram o país. 1.ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

    Luís Gama

    Luís Gonzaga Pinto da Gama foi um advogado, abolicionista, orador, jornalista e escritor brasileiro e o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Nascido de mãe negra livre e pai branco, foi contudo feito escravo aos 10 anos, e permaneceu analfabeto até os 17 anos de idade. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos cativos, sendo já aos 29 anos autor consagrado e considerado “o maior abolicionista do Brasil”. Apesar de considerado um dos expoentes do romantismo, obras como a “Apresentação da Poesia Brasileira”, de Manuel Bandeira, sequer mencionam seu nome. Teve uma vida tão ímpar que é difícil encontrar, entre seus biógrafos, algum que não se torne passional ao retratá-lo — sendo ele próprio também carregado de paixão, emotivo e ainda cativante. Neste sentido declara o historiador Boris Fausto que Gama era dono de uma “biografia de novela”.

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  • Soneto do Amor Total

    Amo-te tanto, meu amor… não cante
    O humano coração com mais verdade…
    Amo-te como amigo e como amante
    Numa sempre diversa realidade.

    Amo-te enfim, de um calmo amor prestante,
    E te amo além, presente na saudade.
    Amo-te, enfim, com grande liberdade
    Dentro da eternidade e a cada instante.

    Amo-te como um bicho, simplesmente,
    De um amor sem mistério e sem virtude
    Com um desejo maciço e permanente.

    E de te amar assim muito e amiúde,
    É que um dia em teu corpo de repente
    Hei de morrer de amar mais do que pude.

    Vinícius de Moraes. Livro de sonetos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957, p. 73-74.

    Vinícius de Moraes

    Nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Consagrado como um dos principais poetas de língua portuguesa, foi também cronista, crítico de cinema, dramaturgo, compositor e diplomata. Com Tom Jobim, deu início a uma intensa e brilhante parceria, que se firmaria como a dupla precursora da bossa nova. Ao lado de uma vasta lista de amigos e músicos, Vinicius deixou sua marca incontornável no cancioneiro popular brasileiro. Morreu aos 66 anos, em 1980, no Rio.

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  • Meus oito anos

    Oh! Que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais!
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais!

    Como são belos os dias
    Do despontar da existência!
    – Respira a alma inocência
    Como perfumes a flor;
    O mar é – lago sereno,
    O céu – um manto azulado,
    O mundo – um sonho dourado,
    A vida – um hino d’amor!

    Que auroras, que sol, que vida,
    Que noites de melodia
    Naquela doce alegria,
    Naquele ingênuo folgar!
    O céu bordado d’estrelas,
    A terra de aromas cheia,
    As ondas beijando a areia
    E a lua beijando o mar!

    Oh! dias da minha infância!
    Oh! meu céu de primavera!
    Que doce a vida não era
    Nessa risonha manhã.
    Em vez das mágoas de agora,
    Eu tinha nessas delícias
    De minha mãe as carícias
    E beijos de minha irmã!

    Livre filho das montanhas,
    Eu ia bem satisfeito,
    De camisa aberto ao peito,
    – Pés descalços, braços nus –
    Correndo pelas campinas
    À roda das cachoeiras,
    Atrás das asas ligeiras
    Das borboletas azuis!

    Naqueles tempos ditosos
    Ia colher as pitangas,
    Trepava a tirar as mangas,
    Brincava à beira do mar;
    Rezava às Ave-Marias,
    Achava o céu sempre lindo,
    Adormecia sorrindo
    E despertava a cantar!

    Oh! Que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais!
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais!

    Poesias completas de Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d. p. 19.

    Casimiro de Abreu

    Casimiro de Abreu (Casimiro José Marques de Abreu), poeta, nasceu em Barra de São João (distrito da cidade que leva seu nome), RJ, em 4 de janeiro de 1839, e faleceu em Casimiro de Abreu, RJ, em 18 de outubro de 1860. Ele é o autor da obra Meus Oito Anos, um dos poemas mais populares da literatura brasileira que se destacou na Segunda Geração do Romantismo.
    Em 1853 foi para Lisboa. Foi nesse período que escreveu a maior parte dos poemas de seu único livro “Primaveras”. É patrono da cadeira n.º 6 da Academia Brasileira de Letras.
    Casimiro José Marques de Abreu nasceu na Barra de São João, Estado do Rio de Janeiro, no dia 4 de janeiro de 1839. Era filho do rico comerciante português, José Joaquim Marques de Abreu e da brasileira Luíza Joaquina das Neves.
    Casimiro passou sua infância na fazenda da Prata, no atual município de Silva Jardim, de onde saiu com nove anos para estudar Humanidades no Colégio Frese em Nova Friburgo.

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  • Grito negro

    Eu sou carvão!
    E tu arrancas-me brutalmente do chão
    e fazes-me tua mina, patrão.


    Eu sou carvão!
    e tu acendes-me, patrão
    para te servir eternamente como força motriz
    mas eternamente não, patrão.
    Eu sou carvão
    e tenho que arder, sim
    e queimar tudo com a força da minha combustão.
    Eu sou carvão
    tenho que arder na exploração
    arder até às cinzas da maldição
    arder vivo como alcatrão, meu irmão
    até não ser mais a tua mina, patrão.
    Eu sou carvão
    Tenho que arder
    queimar tudo com o fogo da minha combustão.
    Sim!
    Eu serei o teu carvão, patrão!

    In: Mário de Andrade, org. Antologia temática de poesia africana. 3. ed. Lisboa: Instituto Cabo-Verdeano do Livro, 1980. v. 1 p. 180.

    Mário de Andrade

    Mário de Andrade (1893-1945), paulista da capital, que cantou como nenhum outro, estreia com livro de poesia em 1917. Sua primeira obra modernista foi Paulicéia desvairada (1922). Foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, na qual palestrou e recebeu muitas vaias. Teórico do Modernismo, além da obra pessoal, consagrou-se à militância jornalística, institucional e epistolar. Com Macunaíma (1928), atingiu o apogeu da prosa modernista. Praticou uma poesia de andamentos dilatados e poemas extensos, voltada para a meditação. Principais livros: Paulicéia desvairada (1922), Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927), Remate de males (1930), Poesias (1941) e Poesias completas (1966).

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  • A literatura e a formação do homem

    Um certo tipo de função psicológica é talvez a primeira coisa que nos ocorre quando pensamos no papel da literatura. A produção e fruição desta se baseiam numa espécie de necessidade universal de ficção e de fantasia, que decerto é coextensiva ao homem, pois aparece invariavelmente em sua vida, como individuo e como grupo, ao lado da satisfação das necessidades mais elementares. E isto ocorre no primitivo e no civilizado, na criança e no adulto, no instruído e no analfabeto. A literatura propriamente dita é uma das modalidades que funcionam como resposta a essa necessidade universal, cujas formas mais humildes e espontâneas de satisfação talvez sejam coisas como a anedota, a adivinha, o trocadilho, o rifão. Em nível complexo surgem as narrativas populares, os cantos folclóricos, as lendas, os mitos. No nosso ciclo de civilização, tudo isto culminou de certo modo nas formas impressas, divulgadas pelo livro, o folheto, o jornal, a revista: poema, conto, romance, narrativa romanceada. Mais recentemente, ocorreu o boom das modalidades ligadas à comunicação pela imagem e à redefinição da comunicação oral, propiciada pela técnica: fita de cinema, […] história em quadrinhos, telenovela. Isto, sem falar no bombardeio incessante da publicidade, que nos assalta de manhã à noite, apoiada em elementos de ficção, de poesia e em geral da linguagem literária.

    Portanto, por via oral ou visual, sob formas curtas e elementares, ou sob complexas formas extensas, a necessidade de ficção se manifesta a cada instante; aliás, ninguém pode passar um dia sem consumi-la, ainda que sob a forma de palpite na loteria, devaneio, construção ideal ou anedota. E assim se justifica o interesse pela função dessas formas de sistematizar a fantasia, de que a literatura é uma das modalidades mais ricas.

    Antonio Candido. “A literatura e a formação do homem”. Revista Ciência e Cultura, set. 1972. p. 804.

    Antonio Candido

    Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1918 – São Paulo, São Paulo, 2017). Escritor, crítico literário, sociólogo e professor. Expoente da crítica literária brasileira. Suas obras tornam-se base para debate da formação literária nacional, associadas aos estudos de nossa construção sociológica.

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  • A mulher sem medo

    Ele não sabia o que o esperava quando, levado mais pela curiosidade do que pela paixão, começou a namorar a mulher sem medo. Na verdade havia aí também um elemento interesseiro; tinha um projeto secreto, que era o de escrever um livro chamado “A Vida com a Mulher sem Medo”, uma obra que, imaginava, poderia fazer enorme sucesso, trazendo-lhe fama e fortuna. Mas ele não tinha a menor ideia do que viria a acontecer.

    Dominador, o homem queria ser o rei da casa. Suas ordens deveriam ser rigorosamente obedecidas pela mulher. Mas como impor sua vontade? Como muitos ele recorria a ameaças: quero o café servido às nove horas da manhã, senão… E aí vinham as advertências: senão eu grito com você, senão eu bato em você, senão eu deixo você sem comida.

    Acontece que a mulher simplesmente não tomava conhecimento disso; ao contrário, ria às gargalhadas. Não temia gritos, não temia tapas, não temia qualquer tipo de castigo. E até dizia, gentil: “Bem que eu queria ficar assustada com suas ameaças, como prova de consideração e de afeto, mas você vê, não consigo.”

    Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado. Meter medo na mulher transformou-se para ele em questão de honra. Tinha de vê-la pálida, trêmula, gritando por socorro.

    Como fazê-lo? Pensou muito a respeito e chegou a uma conclusão: para amedrontá-la só barata ou rato. Resolveu optar pela barata, por uma questão de facilidade: perto de onde moravam havia um velho depósito abandonado, cheio de baratas. Foi até lá e conseguiu quatro exemplares, que guardou num vidro de boca larga.

    Voltou para casa e ficou esperando que a mulher chegasse, quando então soltaria as baratas. Já antegozava a cena: ela sem dúvida subiria numa cadeira, gritando histericamente. E ele enfim se sentiria o vencedor.

    Foi neste momento que o rato apareceu. Coisa surpreendente, porque ali não havia ratos, sobretudo um roedor como aquele, enorme, ameaçador, o Rei dos Ratos. Quando a mulher finalmente retornou encontrou-o de pé sobre uma cadeira, agarrado ao vidro com as baratas, gritando histericamente.

    Fazendo jus à fama ela não demonstrou o menor temor; ao contrário, ria às gargalhadas. Foi buscar uma vassoura, caçou o rato pela sala, conseguiu encurralá-lo e liquidou-o sem maiores problemas. Feito que ajudou o homem, ainda trêmulo, a descer da cadeira. E aí viu que ele segurava o vidro com as quatro baratas. O que deixou-a assombrada: o que pretendia ele fazer com os pobres insetos? Ou aquilo era um novo tipo de perversão?

    Àquela altura ele já nem sabia o que dizer. Confessar que se tratava do derradeiro truque para assustá-la seria um vexame, mesmo porque, como ele agora o constatava, ela não tinha medo de baratas, assim como não tivera medo do rato. O jeito era aceitar a situação. E admitir que viver com uma mulher sem medo era uma coisa no mínimo amedrontadora.

    Moacyr Scliar. Folha de S. Paulo, 17/1/2011.

    Moacyr Scliar

    Médico e escritor, Moacyr Jaime Scliar (1937-2011) nasceu em Porto Alegre (RS). Publicou mais de 60 livros, que abrangem vários gêneros e pelos quais recebeu numerosos prêmios. Tem livros traduzidos em vários idiomas. Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação da tradição judaico-cristã. Escrevia crônicas para os jornais Zero Hora e Folha de S.Paulo. Entre seus livros, destacam-se O carnaval dos animais, Histórias da terra trêmula, Os leopardos de Kafka, Manual da paixão solitária, O tio que flutuava, Navio das cores (infantojuvenis); Um país chamado infância, Dicionário do viajante insólito, O imaginário cotidiano (crônicas).

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  • O Guarani

    Mas o inimigo caiu no meio deles, subitamente, sem que pudessem saber se tinha surgido do seio da terra, ou se tinha descido das nuvens.

    Era Peri.

    Altivo, nobre, radiante da coragem invencível e do sublime heroísmo de que já dera tantos exemplos, o índio se apresentava só em face de duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança.

    […]

    Passado o primeiro espanto, os selvagens bramindo atiraram-se todos como uma só mole, como uma tromba do oceano, contra o índio que ousava atacá-los a peito descoberto.

    Houve uma confusão, um turbilhão horrível de homens que se repeliam, tombavam e se estorciam; de cabeças que se levantavam e outras que desapareciam; de braços e dorsos que se agitavam e se contraiam, como se tudo isto fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro desconhecido debatendo-se em convulsões.

    […]

    O velho cacique dos Aimorés se avançava para ele sopesando a sua imensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de fera; alavanca terrível que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da flecha.

    Os olhos de Peri brilharam; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem esse olhar seguro e certeiro, que não o enganava nunca.

    O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento de rotação, ia descarregá-la sobre Peri e abatê-lo; não havia espada nem montante que pudesse resistir àquele choque.

    O que passou-se então foi tão rápido, que não é possível descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atirá-la, o montante de Peri lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e clava foram rojar pelo chão.

    […]

    Peri, vencedor do cacique, volveu um olhar em torno dele, e vendo O estrago que tinha feito, os cadáveres dos Aimóres amontoados uns sobre os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lamina. Tomou depois os dois fragmentos e atirou-os ao rio.

    Então passou-se nele uma luta silenciosa, mas terrível para quem pudesse compreendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria mais combater; e decidira que era tempo de suplicar a vida ao inimigo.

    Mas quando chegou o momento de realizar essa súplica, conheceu que exigia de si mesmo uma coisa sobre-humana, uma coisa superior às suas forças.

    Ele, Peri, o guerreiro invencível, ele, o selvagem livre, o senhor das florestas, o rei dessa terra virgem, o chefe da mais valente nação dos Guaranis, suplicar a vida ao inimigo! Era impossível.

    Três vezes quis ajoelhar, e três vezes as curvas de suas pernas distendendo-se como duas molas de aço o obrigaram a erguer-se.

    Finalmente a lembrança de Cecília foi mais forte do que a sua vontade.

    Ajoelhou.

    José de Alencar. O Guarani. São Paulo: Ática, 1992. p. 220-222.

    Vocabulário:
    Mole: imenso volume ou massa.
    Montante: espada grande manejada com ambas as mãos para golpear o adversário pelo alto.
    Rojar: deslizar, arrastar, lançar longe.
    Sopesar: calcular o peso.

    José de Alencar

    José de Alencar foi um dos maiores representantes do romantismo no Brasil e um dos principais nomes da literatura nacional. O autor ficou marcado por investir em uma literatura nacional, menos influenciada pelos colonizadores portugueses. Como resultado, as obras de Alencar apresentam a cultura do povo, a história e as regiões brasileiras com uma linguagem inovadora para a época.

    1. Rian Alves
    2. Lucas