Literatura

  • O Homem Trocado

    O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

    — Tudo perfeito — diz a enfermeira, sorrindo.

    — Eu estava com medo desta operação…

    — Por quê? Não havia risco nenhum.

    — Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos…

    E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

    — E o meu nome? Outro engano.

    — Seu nome não é Lírio?

    — Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e…

    Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

    — Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

    — O senhor não faz chamadas interurbanas?

    — Eu não tenho telefone!

    Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

    — Por quê?

    — Ela me enganava.

    Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:

    — O senhor está desenganado.

    Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

    — Se você diz que a operação foi bem…

    A enfermeira parou de sorrir.

    — Apendicite? — perguntou, hesitante.

    — É. A operação era para tirar o apêndice.

    — Não era para trocar de sexo?

    VERÍSSIMO, Luís Fernando. Comédias para se ler na escola. Objetiva, 2001.

    Luis Fernando Verissimo

    Nasceu em 1936, em Porto Alegre. É autor de best-sellers como Comédias para se ler na escola, As mentiras que os homens contam e O clube dos anjos, e criador de tipos marcantes como a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, O Analista de Bagé e As Cobras. Filho do romancista Erico Verissimo, escreveu diariamente para vários jornais por décadas e tem livros publicados em mais de quinze países. Faleceu em agosto de 2025.

  • Senhora minha, desde que vos vi

    Senhora minha, desde que vos vi,
    lutei para ocultar esta paixão
    que me tomou o coração;
    mas não o posso mais e decidi
    que saibam todos o meu grande amor,
    a tristeza que tenho, a imensa dor
    que sofro desde o dia em que vos vi.

    Quando souberem que por vós sofri
    tamanha pena, pesa-me, senhora,
    que por vossa crueza padeci,
    eu que sempre vos quis mais que ninguém,
    e nunca me quisestes fazer bem,
    nem ao menos saber o que eu sofri.
    E quando eu vir, senhora, que o pesar
    que me causais me vai levar a morte,
    direi, chorando minha triste sorte:
    “Senhor, por que me vão assim matar?”
    E, vendo-me tão triste e sem prazer,
    todos, senhora, irão compreender
    que só de vós me vem este pesar.

    Já que assim é, eu venho vós rogar
    que queiras pelo menos consentir
    que passe a minha vida a vos servir,
    e que possa dizer em meu cantar
    que está mulher, que em seu poder me tem,
    sois vós, senhora minha, vós, meu bem;
    graça maior não ousarei rogar.

    Afonso Fernandes. Apud C. Berardinelli, Cantigas de trovadores medievais em português moderno. Rio de Janeiro: Simões, s.d.:l9

  • A gente combinamos de não morrer

    A morte brinca com balas nos dedos gatilhos dos meninos. Dorvi se lembrou do combinado, o juramento feito em voz uníssona, gritado sob o pipocar dos tiros:

    — A gente combinamos de não morrer!

    Limpou os olhos. Lágrimas apontavam diversos sentimentos. A fumaça que subia do monturo de lixo ao lado, justificava qualquer gota ou rio-mar que surgisse e rolasse pela face abaixo. Era a fumaça, desculpou-se consigo mesmo e cantarolou mordiscando a dor, a canção do Seixas: “Quem não tem colírio usa óculos escuros.”

    A morte incendeia a vida, como se essa estopa fosse. Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não é. Na televisão deu:

    — Mataram a mulher, puseram o corpo na lixeira e atearam fogo!

    Dorvi respirou e aspirou fundo. Mas que merda, pó contaminado, até parece talco para pôr na bunda de neném. Pois é, meu filho nasceu. Um pingo de gente. Quando Bica me mostrou nem tive coragem de olhar direito. Pequeno, tão pequeno! Deveria ter ficado na barriga da mulher, ou melhor, incubado como semente dentro do meu caralho. Quis cutucar o putinho com a ponta de minha escopeta. Bica se afastou como se o filho fosse só dela. Não sei para que o medo.

    Não sei porque o medo, pensou Bica. Se ao menos o medo me fizesse recuar, pelo contrário, avanço mais e mais na mesma proporção desse medo. É como se o medo fosse uma coragem ao contrário. Medo, coragem, medo, coragemedo, coragemedo de dor e pânico. A festa está se dando. Balas enfeitam o coração da noite. Não gosto de filmes da tevê. Morre e mata de mentira. Aqui, não. Às vezes a morte é leve como a poeira. E a vida se confunde com um pó branco qualquer. Às vezes é uma fumaça adocicada enchendo o pulmão da gente. Um tapa, dois tapas, três tiros… Minha mãe brincava assim com a gente: “Um elefante amola a genteamolaDois elefantes amola a genteamola, amolaTrês elefantes amola a genteamolaamolaamolaquatro elefantes”…

    A vida é tanta amolação. A minha mãe ia e ia. Seguia amolando a gente com aquela cantiga besta, mas que me fazia feliz. Idago, meu irmão, não. Ele ficava puto e mandava a velha calar a boca. Puta ficava a mãe. Era mesmo o final dos tempos! Onde já se viu, filho mandar a mãe calar? Ela não calava, cantava mais alto ainda. Um dia, com tanta raiva, cantou tão alto, que quando parou estava rouca e soluçando. Idago olhou para ela de soslaio, pediu a benção e saiu. Nem desceu o morro. Vacilou, dançou. Minha mãe recebeu a notícia que ela já esperava. Foi lá, acendeu uma vela perto do corpo. Uma fumacinha-menina dançava ao pé de Idago. Só ela, a fumacinha, a mãe e eu ali velamos o corpo de meu irmão. Um tapa, dois tapas, elefantes, patas pisam na gente. Escopetas, como facas afiadas, brincam tatuagens, cravam fendas na nossa tão esburacada vida. Balas cortam e recortam o corpo da noite. Mais um corpo tombou. Penso em Dorvi. Apalpo o meu. Peito, barriga, pernas… Estou de pé. Meu neném dorme. Ainda me resto e arrasto aquilo que sou.

    Saraivadas de balas, de instantes em instantes, retumbam no interior da casa, ameaçando a diversão da mãe de Bica e de Idago. Dona Esterlinda levanta irritada e muda de canal de televisão. Lá fora, balas e balas, independente do desejo da mulher, executam continuadamente a mesma e seca sonata. Uma programação mais amena vai entorpecendo os sentidos da mulher.

    O que mais gosto na televisão é de novela. Acho a maior bobeira futebol, política, carnaval e show. Bobagem também reportagem, campanha contra a fome, contra o verde, contra a vida, contra-contra. Contra ou a favor? Sei lá, confundi tudo. Acho que é contra mesmo. Contra e não. Contra-mão. Ando sentindo dores nas pernas. Também! “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria”. Sobe o morro, desce o morro e se cansa dessa dança. Filhos? Não sou boba, só dois. Cuspi fora uns quatro ou cinco. Provoquei. “Eu confessorme confesso a Deusmeu zeloso guardadorbendito sois vósque olhe por mim” Na novela das oito, Lidiane era babá do menino Carlos Rodrigues Magnânimo. Ela ensinou a criança a rezar. Tudo era grande na casa dos Rodrigues Magnânimo. A casa, o carro, a mesa, o guarda-roupa, o tapete, tudo. O vestido de noiva da tia de Carlos Rodrigues vestia todo o caminho do altar. Atravessava de ponta a ponta o corredor de uma grande igreja. É tão bom ver novela. Não gosto de ver os crimes, roubos e nem noticiários de guerra. Novela me alivia, é a minha cachaça. Hoje, me lembro que exatamente hoje, há cinco anos, meu filho desceu o morro e caiu. Idago era tão bonito! Podia trabalhar na televisão, feito aquele negro que é ator. Podia ser cantor também. Tinha o dom. Cantava e assobiava tão bem quando era menino. Foi crescendo e ficando cada vez mais calado, irritado, brigando sempre comigo e com a irmã Bica. Tudo amolava Idago. Lembrei da musiquinha que aprendi com a minha mãe e acho que ela aprendeu com a mãe dela. Um dia Idago cantou assim para mim: “uma mãe amola a genteuma irmã amola a genteum inimigo amola a genteum policial amola a gente” e foi dizendo uma porção de coisa que amolava a vida dele. Acho que para Idago, o mundo era só amolação.

    EuBica, sei um pouco do segredo. Um pouco do saber basta. O saber compromete, penso eu. Idago sabia, falou, dançou. Morreu. Feriu o código de honra, a palavra dada. A palavra que não se escreve, pois escrita está na palma e na alma de cada um. É preciso trazer sempre a mão aberta. O jogo é limpo. Traiu, caiu. Idago mereceu. Aliás, era traidor desde menino. Um bundão, safado. Na escola, era todo mundo, ou quase todos a destelhar a cantina para pegar a merenda armazenada. Uns subiam, outros vigiavam. Só queríamos os biscoitos, comer com antecedência, o que era nosso. Premiar a nossa fome anterior, a do momento e a posterior. Sei lá se era um jogo inocente ou maldoso. No outro dia debochávamos da cara dos professores. A diretora se descabelava toda. Ela sabia que era armação dos alunos. Sabia também que alguns tinham outras artimanhas. Traziam a coisa escondida por dentro do sapato, lá no cantinho da meia. E depois tudo transitava de mãos em mãos feito aquela brincadeira inocente de passa anel. Um dia Idago brigou com um da turma. Aí melou. Deu com a língua nos dentes. Vomitou tudo. Falou do telhado, dos biscoitos, do incenso proibido que, lá no fundo da escola ou até nos banheiros, adocicava o ar e também do talco mágico nos pés de alguns. Os grandes ficaram putos com ele. Mandaram dizer para mãe, que cuidasse da boca traidora do filho dela. Língua cortada não fala. Logo depois chegaram e pediram para que a mãe chamasse o peste. Um menino maior, que mancava devido a uma bala perdida, segurava com as mãos a boca de Idago. E outro derramou um vidro de pimenta pela goela adentro daquele que cultivava a língua venenosamente solta. Pimenta nos olhos dos outros não arde. Aquela ardeu nos olhos de mãe e até nos meus. Ela e Idago choravam. Eu quase. Pimenta talvez. Afinal meu irmão já não era tão inocente. Estava com onze anos; eu tinha doze. Ele já sabia o alcance de suas palavras. Sabia do alcance de falas como aquelas. As palavras, às vezes, feriam segredos e escorregavam pela ladeira abaixo parando lá na delegacia.

    Alguém cantou a pedra e o segredo foi rompido. A desgraça vaza dos poros da terra. O mundo explode. Seres de mil mãos agarram tudo. Nada escapa. Tudo se torna objetos agarráveis: gente, coisa, bicho… Às vezes me pego assustado diante da tevê. O mundo explode é aqui mesmo. Quem derramou o pó há de juntar toda a poeira. Faca amolada corta e pode ser um jogo lento, ótima tortura. Arranco os bagos do filho da puta que me traiu. Acerto as contas, as minhas. Levo o concluído e entrego ao bacana. Nunca falhei. Ele retira o que é dele e devolve o que é meu. Hoje não terá devolução alguma. Devo. Falta. A dívida do outro é minha dívida. É? O apartamento da chefia é bonito. Olhando para baixo vê o mar. Quero a morte lenta e calma. Quero boiar no profundo fundo do mar. Quero o fundo do mar-amor, onde deve reinar calmaria. É lá no profundo fundo que vou construir um castelo para a morada de meu filho. Bica, predileta minha, vai também. Ela sabe que da ponta da escopeta também sai carinho. No fundo do mar, mundo algum explode. Bica, dileta minha, a vida explode. Explode, ode, ode, ode… Mar-amor. O meu desejo é um castelo de areia? Nem sei… Um dia, copo de uísque na mão, de lá de cima olhei o mar. Eu era grande, no alto de tudo. O mar lá embaixo abrindo todo, todo. Grande é o mar. Quando não estou com minha arma por perto, me borro de medo. Tenho vontade de chorar. Olhando o mar lá de cima, vi que pequeno sou eu. O outro, o que me fornece, estava na sala com os amigos e me chamou para dentro. É um pessoalzinho meio besta. Não tenho ilusão. O que temos em comum é o pó do qual somos feitos. É o pó que nos faz, mais nada. Mas o meu pó corre mais perigo. Meu pó vira cinza rápido. Quem incendeia? Pode ser a polícia, pode ser qualquer um de nós mesmo, grupos rivais. Quero o fundo do mar. Quero a predileta minha e o meu putinho que nasceu. Um dia vou ser navegante. Vou comprar um barco-estrela com três lugares. Tou doido, viagem legal. A terra vai explodir no mundo-canal da televisão. Aqui fora já explode, malandro! A primeira vez eu não sabia aspirar tudo. Os desejos, os sonhos, a viagem, tudo se atracou na minha garganta. Nem falar eu podia. Um dia vou ser navegante. Quero fazer uma viagem profunda, pro fundo do mar-amor. Predileta minha, o putinho meu e eu, os três… A viagem funda que afunda. A vida vale? A dívida é minha? Com quem dividir essa dívida? Essa dúvida? Dileta minha, putinho meu…

    A babá Lidiane, da novela das oito, acabou sozinha. Não gostei do final. Assisti outra novela em que a babá casou com o filho do patrão. Bonito, tudo muito bonito. Chorei de emoção. Quando choro diante de novela, choro também por outras coisas e pela vida ser tão diferente. Choro por coisas que não gosto nem de pensar. Dorvi é companheiro de Bica, minha filha. Fizeram um filho, meu primeiro netinho. Acho que não terei tantos. Não vou deixar Bica virar mulher parideira. Isso de ter muitos filhos era do meu tempo. Nem eu virei. Que Deus me perdoe! Será que minha alma vai padecer no fogo do inferno? Outro dia me contaram que Dorvi está complicado. Eu pensei outro futuro para os meus filhos. Idago, pois é, acabaram com o garoto. Bica é tão inteligente. Na escola sempre se saiu bem, conseguiu estudar até a oitava série. Gosta de televisão, mas tem a mania de implicar com as minhas novelas. Diz que eu vivo no mundo da lua. Engano dela. Eu sei que Dorvi está complicado. Não tem culpa. Ou tem? Conseguiu estabelecer um ponto, arriscou a pele e mantém o próprio negócio, mas confiou na pessoa errada. E agora o pessoal do Baependi, o tal fornecedor, quer a paga. Disseram que, se Dorvi levou um banho, eles é que não vão se banhar na mesma água. Eu sempre gostei de Dorvi, menino que eu vi crescer. Regula idade com Bica, mas não é o companheiro que eu queria para ela. E acho que nem ela. Eu tenho esperanças de que Bica, a minha menina, não sei quando e como, terá outro destino. Desde pequena era atenta a tudo. Já teve outros namorados, inclusive um rapazinho crente. Bom menino, mas Bica não gostou dele. Dizia que ele era um banana. Eu não entendia por que. Um menino tão bom e ainda com a garantia de estar longe das drogas. Foi aí que ela encrespou. Bica disse que ele era drogado sim. Drogado pela Bíblia, pelo pastor, pela igreja, enfim. Que nem vontade própria tinha. Não entendi nada, mas passei a observar o menino. Ele realmente parece uma pessoa sem sustância, sem a coragem de Dorvi. Essa diferença eu noto, mas não sei explicar. Acho que se Dorvi fosse crente, ele daria um bom cristão. Peço a vida para dar um bom tempo para ele. Dorvi está preso por um fio. Puxo o assunto com minha filha. Bica é escorregadia feito baba de quiabo.

    Porrao cara me deu um banho e eu estou escorregando na água dele, com sabão de lavar cachorro. O prazo dele está terminando e o meu também. Busco aquele puto no inferno, pois sei que os homens de Baependi vão me buscar também. Eles me catarão debaixo da saia da minha mãe, se preciso for. E a gente combinamos de não morrer. Que merda, selamos agora a própria morte. E o meu putinho e a dileta minha, onde estão? Bica é menina esperta. É mulher de muita visão. Penso no risco que estou correndo. Risco não, tudo já é certo. A solução está definida. O destino traçado.Não há recuo. Não estou aflito. Não estou desesperado. Não estou calmo. Não estou inocente ou culpado. Apenas estou sabendo que daqui a pouco, questão de um dia e meio, não estarei mais. Nem eu, nem ele. Acabo com ele, mas isto não resolve. Outros acabarão comigo. Nosso trato de vida virou às avessas. Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer. A morte às vezes tem um gosto de gozo? Ou o gozo tem um gosto de morte? Não esqueço o gozo vivido no perigo de meu primeiro mortal trabalho, na minha primeira vez. Um dia os homens subiram o morro. O combinado era o enfrentamento. Até então eu só tinha feito trabalho pequeno. Vigiar, passar o bagulho, empunhar armas nos becos, garantindo a proteção dos pontos na calada da noite. Naquele dia mandaram que eu fosse enfrentar também. Eu tinha treze anos. No meio do tiroteio, esporrei, gozei. E juro que não era de medo, foi de prazer. Uma alegria tomava conta de meu corpo inteiro. Senti quando o meu pau cresceu ereto, firme, duro feito a arma que eu segurava nas mãos. Atirei, gozei, atirei, gozei, gozei… Gozei dor e alegria, feito outro momento de gozo que me aconteceu na infância. Eu estava com seis para sete anos e arranquei com as minhas próprias mãos, um dentinho de leite que dançava em minha boca. Minha mãe me chamou de homem. Cuspi sangue. Limpei a baba com as costas da mão, ainda tremendo um pouco, mas correspondi ao elogio. Eu era um homem. Tive um prazer intenso que brincou no meu corpo todo. Tive até um princípio de ereção. Hoje outro prazer ou desprazer formiga o meu corpo por dentro e por fora. Vou matar, vou morrer. É lá no mar que vou ser morrente. Mar-amor, mar-amar, mar-morrente. É no profundo do fundo, que guardarei para sempre as lembranças de meu putinho e da dileta minha.

    A casa de Neo caiu. Aprontou, dançou! Mais um, que não será o último, outros virão. Ele, Dorvi, Idago, Crispim, Antônia, Cleuza, Bernadete, Lidinha, Biunda, Neide, Adão e eu temos ou tínhamos (alguns já se foram) a mesma idade. Um ano e às vezes só meses variavam o tempo entre a data de nascimento de um e de outro. Alguns morreram também em datas bem próximas. Apalpo o meu corpo, aqui estou eu. Entre as mulheres quase todas ficaram menstruadas juntas, pela primeira vez. Brincávamos que íamos misturar as nossas regras e selarmos a nossa irmandade com o nosso íntimo sangue. Os meninos não sei que juras fraternas fizeram. Ah, sei! Dorvi repetia sempre que entre eles havia o pacto de não morrer. Entretanto Dorvi sumiu e Neo também. De Neo já temos notícia. Dançou ao som da música da escopeta de Dorvi. E Dorvi? Nem a mãe dele sabe, nem eu que sou sua mulher, só adivinho só. O que dizer para o nosso filho à medida que ele crescer. Quero outro futuro para ele. Será que ainda há dor por vir? E Dorvi? Não sei. E só faço escrever, desde pequena. Adoro inventar uma escrita. Um dia na escola, com meus sete ou oito anos, a professora passou um exercício. Era o de dividir as palavras em sílabas e a partir daí formar novas palavras. Eu já estava de saco cheio (força de expressão que menina não tem saco). Para desconsertar a moça, pedi para ir ao quadro escrever as que eu tinha formado. E escrevi pó, zoeira, maconha. E fui escrevendo mais e mais. Craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde também. Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde… A professora olhava querendo ser natural, a turma ria e eu escrevia. Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida. Outro dia, tarde da noite, ouvi um escritor dizer que ficava perplexo diante da fome do mundo. Perplexo! Eu pedi para ele ter a bondade, a caridade cristã e que incluísse ali todos os tipos de fome, inclusive a minha, que pode ser diferente da fome dos meus. Falei, mas pelo menos naquele momento, me pareceu que ele fazia ouvidos moucos.

    Quem sabe os nossos Orixás que são Humanos e Deuses descrevam para esse escritor outras e outras fomes, aumentando assim, mais ainda, a perplexidade dele. Penso em Dorvi a todo o momento. Ele é para mim um presente incompleto e um futuro vazio. Provavelmente Dorvi não virá mais. Ele que tinha um trato de viver fincado nessa fala desejo:

    — A gente combinamos de não morrer.

    — Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel. Vivo implicando com as novelas de minha mãe. Entretanto, sei que ela separa e separa com violência os dois mundos. Ela sabe que a verdade da telinha é a da ficção. Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. Lidinha e Biunda tiveram filhos também, meninas. Biunda tem o leite escasso, Lidinha trabalha o dia inteiro. Elas trazem as menininhas para eu alimentar. Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…

    EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Pallas Editora, 2016.

    Conceição Evaristo

    Conceição Evaristo é uma escritora, ficcionista e ensaísta mineira, com sólida formação acadêmica em Letras e Literatura. Iniciou sua carreira literária em 1990 na série Cadernos Negros. Com sete livros publicados, muitos deles traduzidos para diversos idiomas, destacou-se com Olhos d’água, vencedor do Prêmio Jabuti (2015). Teve obras lançadas internacionalmente e recebeu diversos prêmios importantes, como o Prêmio Nicolás Guillén e o Troféu Juca Pato. Foi homenageada em instituições como o Itaú Cultural e a USP, além de assumir, em 2024, a cadeira 40 da Academia Mineira de Letras. É mãe de Ainá e natural de Belo Horizonte.

  • O direito à literatura

    Antonio Candido

    […]

    Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

    Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independentemente da nossa vontade. E durante a vigília a criação ficcional ou poética, que é a mola da literatura em todos os seus níveis e modalidade, está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito, como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco. Ela se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance.

    Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.

    Alterando um conceito de Otto Ranke sobre o mito, podemos dizer que a literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente. Neste sentido, ela pode ter importância equivalente à das formas conscientes de inculcamento intencional, como a educação familiar, grupal ou escolar. Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles.

    Por isso é que nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita; a que os poderes sugerem e a que nasce dos movimentos de negação do estado de coisas predominante.

    A respeito destes dois lados da literatura, convém lembrar que ela não é uma experiência inofensiva, mas uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, como acontece com a própria vida, da qual é imagem e transfiguração. Isto significa que ela tem papel formador da personalidade, mas não segundo as convenções; seria antes segundo a força indiscriminada e poderosa da própria realidade. Por isso, nas mãos do leitor o livro pode ser fator de perturbação e mesmo de risco. Daí a ambivalência da sociedade em face dele, suscitando por vezes condenações violentas quando ele veicula noções ou oferece sugestões que a visão convencional gostaria de proscrever. No âmbito da instrução escolar o livro chega a gerar conflitos, porque o seu efeito transcende as normas estabelecidas.

    Numa palestra feita há mais de quinze anos em reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência sobre o papel da literatura na formação do homem, chamei a atenção entre outras coisas para os aspectos paradoxais desse papel, na medida em que os educadores ao mesmo tempo preconizam e temem o efeito dos textos literários. De fato (dizia eu), há “conflito entre a ideia convencional de uma literatura que eleva e edifica (segundo os padrões oficiais) e a sua poderosa força indiscriminada de iniciação na vida, com uma variada complexidade nem sempre desejada pelos educadores. Ela não corrompe nem edifica, portanto; mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

    CANDIDO, Antonio et al. O direito à literatura. Vários escritos, v. 3, p. 235-263, 1995.

  • Capítulo 4

    (onde se devassam truques, máscaras e maquiagem dos bastidores do que se chama de literatura)

    Um dia apareceremos leitor nas estatísticas catalogados em ocorrência policial.1

    Com o bloco nas ruas, vamos estabelecer que literatura não tem uma definição. Ela não pode ser definida como podem ser definidos – com certa unanimidade – um composto químico, um acidente geográfico, um órgão do corpo humano.

    Pode-se definir, sem muito sangue na arena, águacordilheiraaparelho respiratório. Mas a poeira é muita quando se tenta definir literatura, liberdade… e não é só porque ambas começam pela letra L! Arte e cultura não têm a mesma inicial, começam por A e por C, respectivamente, e também é complicadíssimo defini-las!

    Nesse campo, as perguntas são muitas e as respostas mais numerosas ainda. Há tanta gente pensando no assunto (aliás, sempre houve) e tantas e tão diferentes são as respostas sugeridas que não dá para eleger uma delas como verdadeira e jogar fora todas as outras. Aliás, até que dá, para os ingênuos e os simples, que lêem um livrinho ou outro e saem por aí achando que literatura é isso ou aquilo, que arte é aquilo ou isso.

    Já nosotros, nem simples nem ingênuos, mas galhardos sócios do Clube dos Leitores Anônimos, achamos que literatura é isso, aquilo e mais aquiloutro, não é mesmo?

    O que é literatura? é uma pergunta complicada justamente porque tem várias respostas. E não se trata de respostas que vão se aproximando cada vez mais de uma grande verdade, da verdade-verdadeira. Cada tempo e, dentro de cada tempo, cada grupo social tem sua resposta, sua definição. Respostas e definições – vê-se logo – para uso interno.

    Ao longo dos dois mil e tantos anos que nos separam de – digamos – Platão, vários têm sido os critérios pelos quais se tenta identificar o que torna um texto literário ou não-literário: o tipo de linguagem empregada, as intenções do escritor, os temas e assuntos de que trata a obra, o efeito produzido pela sua leitura… tudo isso já esteve ou ainda está em pauta quando se quer definir literatura. Cada um desses critérios produziu definições consideradas corretas. Para uso interno daquele grupo ou daquele tempo, correspondendo as respostas ao que foi (ou é) possível pensar de literatura num determinado contexto.

    Já observou a arguta leitora como as definições sempre funcionam para quem as produz? E por que não funcionariam? Afinal, pensadores, escritores, artistas e demais envolvidos em teorias e práticas de literatura discutem, escrevem, polemizam (antigamente às vezes até duelavam!) e modulam conceitos de literatura que correspondem ao contexto de produção de seu tempo, aos horizontes dos leitores, às práticas de leitura em vigor. Por isso parecem explicar de forma convincente o que é literatura.

    Mas só temporariamente.

    Quando surgem novos tipos de poemas, de romances e de contos e outras multidões de leitores entram em cena, aquela livralhada toda passa a ser lida de forma diferente. Os novos leitores piscam os olhos e limpam os óculos, engatam novas discussões, formulam novas teorias, propõem novos conceitos até que a poeira assenta para, de novo, levantar-se em nuvem tempos depois.

    Ou seja, há relação profunda entre as obras escritas num período – e que, portanto, são a literatura desse período – e a resposta que esse período dá à questão o que é literatura?

    Há uma espécie de solidariedade entre práticas e teorias da literatura: Em outras palavras, e com perdão da obviedade: os conceitos de literatura (isto é, certos conceitos, por exemplo, os de tradição filosótica) são inspirados pela leitura das obras literárias. Isto é, de certas obras, de livre trânsito em certos meios… Reciprocamente, as obras literárias de um certo tempo incorporam tais formulações, validando-as e validando-se como literatura aos olhos de seus formuladores.

    Teorias e práticas literárias, então, parecem condenadas a se repetirem umas às outras. Se fossem mero eco recíproco, o texto literário e suas teorias chegariam ao impasse do silêncio. Mas não é o que ocorre.

    Na criação, a ruptura é o momento da vanguarda e, no campo teórico, é o momento do novo paradigma. Vanguarda e novos paradigmas teóricos, assim, patrocinam a subversão do que se dizia e se fazia em nome da literatura.

    Engendram-se aí novas respostas à velha indagação: o que é literatura?

    E recomeça o diálogo, não só do texto literário com sua teoria, mas da produção literária de um dado período com o conjunto de obras que a precedeu. Para nomear esse ininterrupto dialogo de uma obra com as muitas outras que a precederam ou lhe são contemporâneas, os estudos literários cunharam a expressão intertextualidade. Que o leitor palavroso me permita este palavrão de oito sílabas […]!

    Também pela intertextualidade rompe-se o círculo de teorias e de práticas que constituem um espelho no qual mutuamente se contemplam ambas. Na releitura do passado, mantém-se a idéia de uma linhagem de autores e de textos que constituem a grande família da literatura, como num álbum. Mas as fotos no álbum mudam de posição, ganham novas legendas, algumas se perdem (como os oradores estudados em antigos cursos de literatura brasileira), outras se acrescentam (como foi o caso de Shakespeare, na Inglaterra).

    É a vida que continua.

    Com a imagem de um álbum de retratos fica a idéia de que as definições propostas para literatura importam menos do que o caminho percorrido para chegar a elas. Ou, dizendo com Fernando Pessoa, o que importa mesmo é esperar D. Sebastião, quer venha ou não.

    Acompanhar, então, como a literatura foi concebida, praticada, interpretada e avaliada em diferentes momentos é um caminho sugestivo que pode multiplicar nossos finalmentes ou, pelo menos, fragilizar finalmentes alheios. No tempo devido lá iremos, e nessa vereda teremos multidões de companheiros e companheiras, que essa trilha é a mais batida dos estudos literários.

    Mas, antes, em foco a íntima e delicada relação da literatura com a linguagem.

    1 Paixão, Fernando. “Retrato”, in 25 azulejos. São Paulo, Iluminuras, 1999, p. 35.

    LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores & leitura. Editora Moderna, 2001.

  • Repelindo o carteiro

    Tenho, sim, um cão feroz que ameaça o carteiro; na verdade, eu o comprei com essa finalidade.

    Correios lançam campanha para preservar os carteiros dos ataques de cães.

    “SENHOR CHEFE DOS CORREIOS: dirijo-me a V.S. por causa do aviso que recebi de V.S., intimando-me a tomar medidas para evitar que o meu cão pitbull ameace o carteiro que atende a minha rua. Reconheço que a advertência é procedente.

    Eu poderia, senhor chefe dos Correios, inventar uma desculpa: por exemplo, que o cão é inofensivo, e que as supostas ameaças correm por conta da paranoia do seu funcionário. Mas sinto-me na obrigação de falar a verdade. Tenho, sim, um cão feroz. E ele ameaça o carteiro.

    Na verdade, eu o comprei exatamente com essa finalidade, ameaçar o carteiro. Posso explicar. Nunca fiz muita questão de receber correspondência. É só propaganda ou então, pior, são contas a pagar: luz, aluguel, telefone. Coisa no mínimo desagradável. Mas eu não iria brigar com o carteiro por causa disso; até comentava com ele, numa boa, a quantidade de dinheiro que tinha de gastar a cada mês.

    Foi então que começaram a chegar as cartas anônimas. E aí a coisa mudou. Sou um homem de certa idade, um cinquentão. Casei-me tarde, com uma moça bem mais jovem do que eu e muito bonita. Casamos por amor, e nesses três anos temos sido muito felizes. Até a chegada das cartas.

    Ah, que cartas são essas, senhor chefe dos Correios, que cartas. São escritas por alguém, um homem que garante ter um caso com a minha mulher. E esse alguém sabe tudo sobre nós. Sabe que viajo muito, a serviço da empresa para a qual trabalho, e diz que cada viagem minha é, para ele, um banquete do sexo. Garante que minha mulher na cama é um demônio e descreve minuciosamente as relações que tem com ela. Nunca desconfiei de minha esposa, senhor chefe dos Correios.

    Para mim, ela é rigorosamente fiel. Mas as cartas eram tão convincentes que fiquei abalado e acabei falando-lhe a respeito. A coitada ficou desesperada, teve uma verdadeira crise de nervos. Jurou que aquilo era mentira, e que as cartas só podiam ser obra de um louco ou de algum inimigo que, sem saber, tínhamos arranjado.

    Eu acredito nela, senhor chefe dos Correios. Tenho todos os motivos para acreditar nela. Mas cada vez que chegava uma carta, as suspeitas voltavam a me assaltar. Decidi falar com o carteiro. Expliquei o que estava acontecendo e pedi que destruísse as tais cartas, aliás facilmente identificáveis, porque os envelopes eram decorados com o desenho de uma cabeça com cornos.

    O carteiro mostrou-se muito compreensivo e gentil; disse, porém, que tinha de cumprir com sua obrigação, que é a de entregar a correspondência. Sugeriu que eu próprio rasgasse as cartas sem ler. Mas isso seria inútil, senhor chefe dos Correios. Só de olhar o envelope já fico doente de fúria. Tomei então duas providências.

    Em primeiro lugar, todas as minhas despesas são agora debitadas na conta bancária, de modo que já não preciso receber as contas de luz e as outras. E comprei o pitbull. Exatamente para que o carteiro não entregue mais as tais cartas. Agora, o senhor quer que eu contenha o cão.

    O cão eu posso conter, senhor chefe dos Correios. Mas como conter o ciúme e a raiva? Hein, senhor chefe dos Correios? Por favor, me responda. Mas não por carta. Use o telefone.”

    Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0809200802.htm>. Acesso em: 20 out. 2015.

    Moacyr Scliar

    Médico e escritor, Moacyr Jaime Scliar (1937-2011) nasceu em Porto Alegre (RS). Publicou mais de 60 livros, que abrangem vários gêneros e pelos quais recebeu numerosos prêmios. Tem livros traduzidos em vários idiomas. Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação da tradição judaico-cristã. Escrevia crônicas para os jornais Zero Hora e Folha de S.Paulo. Entre seus livros, destacam-se O carnaval dos animais, Histórias da terra trêmula, Os leopardos de Kafka, Manual da paixão solitária, O tio que flutuava, Navio das cores (infantojuvenis); Um país chamado infância, Dicionário do viajante insólito, O imaginário cotidiano (crônicas).

  • Se eu não a tenho, ela me tem


    Arnaut Daniel (tradução-recriação de Augusto de Campos)

    Se eu não a tenho, ela me tem
    o tempo todo preso, Amor,
    e tolo e sábio, alegre e triste,
    eu sofro e não dou o troco.
    É indefeso quem ama.
    Amor comanda
    à escravidão mais branda
    e assim me rendo,
    sofrendo,
    à dura lida
    que me é deferida.

    Se calo, é porque mais convém
    calar, em mim, o meu calor.
    A língua hesita, o corpo existe
    e, doendo, acha pouco,
    sofre mas não reclama.
    A sombra vã da
    memória me demanda
    e eu me surpreendo
    mexendo
    nesta ferida
    sempre revolvida.

    CAMPOS, Augusto de. Mais provençais – Amaut Doniel/Raimbaut D’Aurenga. São Paulo: Companhia das letras. 1987. p.79.

    Arnaut Daniel


    Arnaut Daniel de Ribérac nasceu em Périgord, na atual França, por volta de 1150 ou 1160. Foi um dos principais representantes do estilo de poesia trovadoresca trobar clus. Foram conservadas 18 composições suas, duas delas com música, tratando quase sempre de temas amorosos. É considerado o criador da sextina, uma canção com estrofes de seis versos. No século XX, o interesse por sua obra foi retomado, o que repercutiu no Brasil por meio dos ensaios e das traduções de Augusto de Campos.

    Augusto de Campos



    Augusto Luís Browne de Campos, poeta, tradutor e ensaísta nascido em São Paulo em 1931, é um dos criadores do movimento concretista no Brasil, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Em 1952, eles lançaram a revista Noigandres, palavra retirada de uma cantiga de Arnaut Daniel que significa “perfume para afugentar o tédio” É autor de estudos e traduções da poesia provençal no Brasil. Sua obra crítica é composta de Teoria da poesia concreta, O anticrítico e outros. Traduziu autores importantes corno Mallarmé, Joyce, Maiakóvski, Raimbaut D’Aurenga e Arnaut Daniel.

  • Ribeirinha reivi

    No mundo, disso não há semelhança:
    enquanto vou vivendo de esperança,
    por ela vou morrendo – e… ai!

    Minha senhora clara e rosada,
    como queria descrevê-la, e tanto
    só eu sei quando a vi sem manto!

    Infeliz do dia em que me levantei
    e a vi assim tão bela, tão corada!

    Minha senhora, desde aquele dia, ai,
    me senti bem mal, comigo ausente.

    Ela, filha de Dom Paio
    Moniz, bem parecida
    por seus modos, de luxo assim vestida.

    E eu, minha senhora, um presente
    de si nunca poderei ter, nem dar:
    a não ser alguma coisa reles,
    sem valor, insignificante!
    Ay!


    BARRETO, Atônito. Disponível em: <www.primeiroprograma.com.br>. Acesso em: 9 set. 2015.

  • Violões que choram…

    Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
    Soluços ao luar, choros ao vento…
    Tristes perfis, os mais vagos contornos,
    Bocas murmurejantes de lamento.

    Noites de além, remotas, que eu recordo,
    Noites da solidão, noites remotas
    Que nos azuis da Fantasia bordo,
    Vou constelando de visões ignotas.

    Sutis palpitações à luz da lua,
    Anseio dos momentos mais saudosos,
    Quando lá choram na deserta rua
    As cordas vivas dos violões chorosos.

    Quando os sons dos violões vão soluçando,
    Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
    E vão dilacerando e deliciando,
    Rasgando as almas que nas sombras tremem.

    Harmonias que pungem, que laceram,
    Dedos nervosos e ágeis que percorrem
    Cordas e um mundo de dolências geram
    Gemidos, prantos, que no espaço morrem…

    E sons soturnos, suspiradas mágoas,
    Mágoas amargas e melancolias,
    No sussurro monótono das águas,
    Noturnamente, entre ramagens frias.

    Vozes veladas, veludosas vozes,
    Volúpias dos violões, vozes veladas,
    Vagam nos velhos vórtices velozes
    Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

    Tudo nas cordas dos violões ecoa
    E vibra e se contorce no ar, convulso…
    Tudo na noite, tudo clama e voa
    Sob a febril agitação de um pulso.

    Que esses violões nevoentos e tristonhos
    São ilhas de degredo atroz, funéreo,
    Para onde vão, fatigadas do sonho,
    Almas que se abismaram no mistério. […]

    Cruz e Sousa. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p. 50-1.

    Vocabulário

    dolência: mágoa, dor.
    ignoto: ignorado, desconhecido.
    lacerar: dilacerar, cortar em pedaços.
    plangente: lastimoso, que chora.
    pungir: ferir, causar dor.

    Cruz e Sousa

    Cruz e Souza foi um poeta simbolista brasileiro. Ele foi o precursor do movimento simbolista no Brasil com a publicação de suas obras “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia) em 1893. É patrono da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15. Ao lado de Alphonsus de Guimaraens, ele é um dos mais importantes poetas do movimento no país.

  • Passagem da noite

    É noite. Sinto que é noite
    não porque a sombra descesse
    (bem me importa a face negra)
    mas porque dentro de mim,
    no fundo de mim, o grito
    se calou, fez-se desânimo.
    Sinto que nós somos noite,
    que palpitamos no escuro
    e em noite nos dissolvemos.
    Sinto que é noite no vento,
    noite nas águas, na pedra.

    E que adianta uma lâmpada?
    E que adianta uma voz?
    É noite no meu amigo.
    É noite no submarino.
    É noite na roça grande.
    É noite, não é morte, é noite
    de sono espesso e sem praia.
    Não é dor, nem paz, é noite,
    é perfeitamente a noite.

    Mas salve, olhar de alegria!
    E salve, dia que surge!
    Os corpos saltam do sono,
    o mundo se recompõe.
    Que gozo na bicicleta!
    Existir: seja como for.
    A fraterna entrega do pão.
    Amar: mesmo nas canções.
    De novo andar: as distâncias,
    as cores, posse das ruas.

    Tudo que à noite perdemos
    se nos confia outra vez.
    Obrigado, coisas fiéis!
    Saber que ainda há florestas,
    sinos, palavras; que a terra
    prossegue seu giro, e o tempo
    não murchou; não nos diluímos.
    Chupar o gosto do dia!
    Clara manhã, obrigado,
    o essencial é viver!

    Reunião. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p. 88.

    Carlos Drummond de Andrade

    Nasceu na pequena cidade de Itabira do Mato Dentro (MG), em 31 de outubro de 1902. Era o nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de sua mulher, Julieta Augusta Drummond de Andrade. Em 1910, iniciou o curso primário em Belo Horizonte, onde conheceu Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco.
    A partir de 1918, tornou-se aluno interno do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), onde recebeu prêmios em concursos literários. No ano seguinte, foi expulso da escola, sob a justificativa de “insubordinação mental”. Mudou-se com a família em 1920 para Belo Horizonte, onde publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas. Conheceu Milton Campos, Abgar Renault, Aníbal Machado, Pedro Nava e outros intelectuais.
    Em 1924, enviou carta a Manuel Bandeira, manifestando-lhe admiração. No mesmo ano, conheceu Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, que visitavam Belo Horizonte. Sua correspondência com Mário de Andrade, iniciada logo depois, duraria até o fim da vida do escritor paulista.