Texto Jornalístico

  • Nova tradução de Machado de Assis nos Estados Unidos esgota em um dia

    Maurício Meireles
    São Paulo

    A nova tradução em inglês de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, publicada nos Estados Unidos nesta terça (2), pelo selo Penguin Classics, esgotou em um dia. Quem tenta comprar a versão em brochura na Amazon vê uma mensagem dizendo “temporariamente sem estoque” —o mesmo acontece na Barnes & Noble.

    Assinada por Flora Thomson-DeVeaux, a versão tem prefácio do escritor americano David Eggers —o texto que acompanha a edição foi publicado nesta quarta (3) no site da revista The New Yorker, o que pode ter contribuído para as vendas.

    No texto, Eggers diz ser um dos livros “mais espirituosos já escritos” e que quase não foi lido por falantes da língua inglesa no século 21. Vale lembrar que, entre os fãs de Machado no exterior, estão nomes como Woody Allen, Susan Sontag e Philip Roth..

    O romance de Machado está como o mais vendido da Amazon na categoria de literatura caribenha e latino-americana. A obra também aparece em quinto na categoria de realismo mágico.

    Embora o livro seja narrado por um morto, essa classificação não costuma ser aplicada a Machado no Brasil, mas, entre o público dos Estados Unidos, vez ou outra o escritor recebe essa etiqueta —talvez pelo sucesso que autores como Gabriel Garcia Márquez tiveram no país.

    O lançamento faz parte de uma série de novas traduções de Machado de Assis nos Estados Unidos. Em 2018, uma reunião de seus contos já havia sido publicada no país, com repercussão entre a crítica literária local.

    “Memórias Póstumas” já havia recebido outras traduções americanas, como a de William L. Grossman, nos anos 1950 —cuja atual edição, aliás, conta com prefácio de Susan Sontag.

    Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/06/nova-traducao-de-machado-de-assis-nos-eua-esgota-em-um-dia.shtml>. Acesso em: 20 jan 2025.

  • Correios lançam campanha para evitar ataques de cães a carteiros

    Os Correios lançaram uma campanha neste mês de setembro para diminuir o ataque de cães a carteiros nos Estados com a maior frequência desses acidentes: Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, São Paulo e Paraná, além do Distrito Federal.

    As residências com cachorros terão de adaptar as caixas de correios para poder continuar a receber as correspondências. Isto porque, embora os ataques de cães a carteiros venham diminuindo nos últimos anos (de 2005 a 2007 o número de ocorrências reduziu cerca de 13%), esse tipo de acidente está em terceiro lugar no ranking de acidentes de trabalho nos Correios, segundo a empresa.

    De acordo com os Correios, uma das principais causas do ataque dos cachorros é a falta ou a instalação inadequada de caixas de correspondências. Com essa situação, o carteiro é obrigado a entrar nas áreas das residências para fazer a entrega.

    Os locais de risco estão sendo mapeados pelos próprios carteiros. As casas sem caixa e correspondências ou com o recipiente mal posicionado serão orientados a corrigir o problema para evitar a exposição do carteiro ao risco de um ataque do cachorro. Os moradores terão um prazo para se adequar, segundo os Correios.

    A caixa pode ser de qualquer material, mas tem de atender os requisitos mínimos para preservar a integridade das correspondências. Além de proteger as cartas da chuva e evitar que elas sejam destruídas pelo cão, a caixa facilita a entrega pelo carteiro.

    Segundo os Correios, as caixas terão de ter as seguintes medidas: 36 centímetros de profundidade, 27 centímetros de largura, 16 centímetros de altura e abertura de 25 centímetros de largura por dois centímetros de altura. A caixa deve ser instalada entre 1,20 metro e 1,60 metro do piso, com a abertura voltada para a rua. As medidas visam também fazer caber revistas e jornais.

    Em caso de dúvida, o morador deve procurar a unidade dos Correios mais próxima. A campanha se estende até janeiro de 2009.

    Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2008/09/441485-correios-lancam-campanha-para-evitar-ataques-de-caes-a-carteiros.shtml>. Acesso em: 13 nov. 2024.

  • O poder das palavras

    As palavras têm um poder tremendo. Repito com assertividade: as palavras têm um poder tremendo. Há palavras que edificam, outras que destroem; umas trazem bênção, outras, maldição. E é entre estas duas balizas que a comunicação vai moldando a nossa vida.

    Há palavras que deviam ser escondidas num baú fechado a sete chaves. Porque não edificam, porque magoam, porque destroem…

    Há uns tempos fui fazer um exame médico. Após o questionário clínico habitual, a médica prosseguiu: “Agora, vou fazer-lhe umas maldades”. Nesse instante, o meu corpo sucumbiu e o desmaio tornou-se iminente. Ora, a palavra maldade magoou-me mais do que o próprio exame. Teria sido muito sensato ter escondido tal palavra num quarto escuro. Não teria magoado tanto.

    Mas voltemos às palavras amigas, as que mimam, as que confortam, as que aquecem o coração.

    Sabiam que podem mudar o dia de alguém com uma calorosa saudação? “Bom dia, como está?” Experimentem, sempre que comunicam, escolher palavras com carga afetiva positiva! Por exemplo, se substituírem a palavra “problema” por “situação”, o problema parece tornar-se mais pequeno, não parece? Ou então acrescentar adjetivos robustos quando agradecem a alguém: “Obrigada pela sua preciosa, valiosa ajuda”.

    Se queremos relações pessoais e profissionais mais saudáveis e felizes, usemos e abusemos das palavras positivas na nossa vida. E não nos cansemos de elogiar. Palavras de louvor e honra trazem felicidade não só a quem as recebe, mas também, e sobretudo, a quem as oferece.

    Sandra Duarte Tavares. O poder das palavras. In: Visão, ed. 1298, 2017. Internet: <visao.sapo.pt> (com adaptações).

  • O idioma que você fala altera sua percepção do tempo

    Sim, o tempo é relativo. E um novo estudo indica que ele pode depender, inclusive, da língua que você fala

    A língua que falamos molda a forma como enxergamos as coisas. Cada idioma tem seus recursos e expressões, e isso tudo pode contribuir para que uma mesma situação ganhe interpretações diferentes. Ao comentar sobre o pouco tempo que tem de almoço, por exemplo, uma pessoa que fala inglês ou sueco provavelmente utilizaria o termo “pausa curta”. Para hispanohablantes e gregos, porém, o momento seria descrito como uma “pequena pausa”.

    Essas variações na linguagem, segundo um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology, podem influenciar na percepção que cada pessoa tem sobre o tempo. E o caso mais interessante vem daqueles que falam mais de um idioma. Quem é bilíngue tem uma “chavinha” no cérebro, alterada de acordo com a linguagem que será utilizada.

    Para determinar essa relação, os pesquisadores analisaram um grupo de 80 voluntários, composto metade por espanhóis e metade por suecos, que foram submetidos a alguns experimentos psicológicos.

    No primeiro, eles tinham de assistir a uma animação de computador que mostrava duas linhas, que cresciam a partir de um ponto. Uma delas levava três segundos para atingir o tamanho de quatro polegadas. A outra crescia até atingir seis polegadas, no mesmo tempo. Após acompanharem as cenas, os voluntários eram orientados a falar suas impressões, estimando quanto tempo as linhas levaram para atingir seus tamanhos finais.

    Os pesquisadores esperavam que os suecos tivessem mais dificuldade em acertar esse tempo. E foi exatamente o que aconteceu: para eles, a linha maior teria demorado mais que a outra para chegar nas seis polegadas. Enquanto isso, espanhóis indicaram a duração do experimento com mais precisão – independentemente do tamanho de cada linha.

    De acordo com os cientistas, o observado tem relação direta com a maneira como ambas as culturas quantificam o tempo.

    O que tudo isso sugere é que, sob certas condições, a linguagem pode ter um peso maior que a rapidez de pensamento. Isso quer dizer que somente o fato de seus pensamentos serem em certo idioma já pode ser responsável por uma desvantagem em determinada tarefa.

    A boa notícia é que aprender novas línguas significa quebrar essa barreira, nos tornando capazes de perceber nuances que não conseguiríamos antes.

    Internet: <www.super.abril.com.br> (com adaptações).

  • O masculino genérico

    A discussão sobre um gênero neutro na linguagem deriva do uso do gênero gramatical masculino para denotar homens e mulheres (“‘todos’ nessa sala de aula precisam entregar o trabalho”) e do feminino específico (“[Clarice Lispector] é incluída pela crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século 20”).

    Na gramática, o uso do masculino genérico é visto como “gênero não marcado”, ou seja, usá-lo não dá a entender que todos os sujeitos sejam homens ou mulheres — ele é inespecífico. Por ser algo cotidiano, é difícil pensar nas implicações políticas de empregar o masculino genérico, mas o tema foi amplamente discutido por especialistas como uma forma de marcar a hierarquização de gêneros na sociedade, priorizando o homem e invisibilizando mulheres. O masculino genérico é chamado, inclusive, de “falso neutro”.

    Entretanto, essa abordagem não é unânime no campo da Linguística. Para muitos estudiosos, a atribuição sexista ao masculino genérico ignora as origens latinas da língua portuguesa.

    No latim havia três designações: feminina, masculina e neutra. As formas neutras de adjetivos e substantivos no latim acabaram sendo absorvidas ora por palavras de gênero masculino. A única marcação de gênero no português é o feminino. O neutro estaria, portanto, junto ao masculino.

    O Brasil não é o único país onde a linguagem neutra é discutida. Alguns setores acadêmicos, instituições de ensino e ativistas dos EUA já consideram usar pronome neutro para se referir a todos, em vez de recorrer à demarcação de gênero binário.

    Especialistas avaliam que a modificação gramatical em línguas latinas pode ser muito mais complexa e custosa do que no inglês ou no alemão, onde já está em uso o gênero neutro, porque a língua em si já oferece essa opção.

    Segundo especialistas, esse tipo de inovação é mais fácil de ocorrer no inglês, em que, com exceção daquelas palavras herdadas do latim, como actor (ator) e actress (atriz), a flexão de gênero não altera os substantivos e adjetivos. No caso do português, essa transformação não depende apenas da alteração de um pronome, porque a flexão de gênero afeta todo o sintagma nominal. Assim, a flexão de gênero é demarcada pela vogal temática a ou o (como em pesquisadoras brasileiras) e(ou) por meio do artigo a ou o (como em a intérprete).

    Mesmo com os desafios morfológicos, linguistas afirmam que não é impossível pensar em proposições mais inclusivas, e que isso não necessariamente significa que haja uma tentativa de destruição do português. Segundo explicam esses especialistas, a história de uma língua sempre conta muito sobre a história de seus falantes, de modo que as coisas que falamos hoje em dia não brotaram da terra nem vieram prontas, mas dependem da nossa história como humanidade. Nesse sentido, as propostas já existentes seriam os primeiros passos nesse movimento, e não uma forma final a ser imposta a todos os falantes.

    Internet: <https://tab.uol.com.br/>. (com adaptações).

  • Barbra Streisand clonou seu cão – o que é meio errado e completamente sem sentido

    Clonar pets, além de causar sofrimento a animais que já estão vivos, não adianta nada: genes iguais não garantem personalidades iguais.

    Eu reconheço um episódio de Black Mirror quando vejo um. Por isso tomei um susto desgraçado quando li, na última sexta, que a cantora Barbra Streisand havia encomendado um clone de seu cachorro morto por 50 mil dólares. Dei um belo beliscão no braço para ver se eu estava mesmo no escritório, e não no sofá de casa, assistindo à quinta temporada numa pré-estreia exclusivíssima. Depois, dei um rolê rápido no Twitter e descobri que quase todo mundo achou a ideia ótima. Fofa.

    Antes de começar o textão, uma ressalva básica: eu, infelizmente, nunca saí na rua para lutar pelos direitos dos animais. E, apesar de achar o vegetarianismo uma ótima ideia – não só do ponto de vista ideológico como do científico também -, me falta força de vontade para segui-lo. Não vou tentar arranjar desculpas para essa preguiça. Eu concordo plenamente que pessoas vão longe demais nessa história de confundir animais com objetos inanimados. E é esse ponto de vista que vou defender aqui.

    Para começo de conversa, produzir clones usando o método da ovelha Dolly só é simples na teoria. Vamos revisar: você pega o núcleo de uma célula, que contém o DNA do animal que será copiado, e o insere no óvulo de uma fêmea qualquer. Depois, pega esse óvulo e o implanta no útero de uma segunda fêmea, que levará a gestação adiante.

    A chance de o processo descrito acima dar errado é muito grande. Quando Dolly foi clonada, foi a única que vingou entre 29 embriões, implantados em 13 úteros. Snuppy, o primeiro cachorro clonado da História, é o único sobrevivente entre outras 94 potenciais cópias, que não sobreviveram à gestação. É óbvio que, duas décadas depois, a técnica já é bem mais eficiente. Em 2014, a China já estava clonando porcos para fins industriais com taxas de sucesso entre 70% e 80%. Mas ainda há uma margem de erro razoável aí, que precisa ser compensada por meio da criação de mais de um óvulo e da inseminação de mais de uma fêmea.

    Em outras palavras, empresas como a que Streisand contratou para xerocar seu pet se aproveitam de cadelas anônimas, que fornecem úteros e óvulos (cuja extração envolve estimulação hormonal e intervenção cirúrgica). Há uma entrevista detalhada sobre isso na Scientific American, e esta reportagem relata a rotina de uma empresa sul-coreana especializada no ramo. É no mínimo sacanagem usar e abusar de dezenas de Canis lupus familiaris para gerar um único exemplar de um animal da mesma espécie, só por causa de sua aparência física. A única diferença entre o coton du tulear de Streisand e o vira-lata do boteco é que um nasceu em berço de ouro, com pedigree, e o outro na esquina. Cachorro para adotar é o que não falta nesse mundo.

    […]

    Disponível em: https://super.abril.com.br/blog/supernovas/barbra-streisand-clonou-seu-cao-o-que-e-meio-errado-e-completamente-sem-sentido/. Acesso em: 16 set. 2020. [Fragmento]

  • A viralização do senso comum

    Quem já recebeu alguma mensagem via WhastApp informando que o governo vai confiscar a caderneta de poupança ou que o Congresso vai votar um projeto que acaba com o 13º salário? Outro conteúdo falso que “viralizou” no Facebook nos últimos tempos se refere ao auxílio-reclusão, que seria pago diretamente ao criminoso, ou, ainda, que o benefício se multiplicava conforme o número de filhos do preso ou da presa.

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  • Em defesa do voto obrigatório

    Existe, no senso comum, um mal-estar em relação ao voto obrigatório. Toda obrigação incomoda. Este fato, indiscutível, favorece os defensores do voto facultativo, que, ademais, apresentam sua proposta como expressão da postura libertária e como fator de desmonte de algumas distorções que, de fato, existem em nosso sistema eleitoral.

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  • “Tá com dó do refugiado? Leva pra casa!”

    “Tá com dó? Leva para casa!” é uma daquelas frases icônicas, através das quais consegue-se avaliar se o interlocutor merece respeito ou um abraço forte e solidário. É utilizada por pessoas com síndrome de pombo-enxadrista (faz sujeira no tabuleiro, joga ignorando regras mínimas de sociabilidade e sai voando, cantando vitória), normalmente diante do clamor para políticas voltadas àquela gente pobre, parda, perdida ou violada que habita as frestas das grandes cidades.

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