Literatura Contemporânea

  • O açúcar

    O branco açúcar que adoçará meu cafénesta manhã de Ipanemanão foi produzido por mimnem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puroe afável ao paladarcomo beijo de moça, águana pele, florque se dissolve na boca. Mas este açúcarnão foi feito por mim. Este açúcar veioda mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,dono da…

    O açúcar
  • Como não?!

    “Obrigado”, eu digo, recusando a xícara e, um pouco mais baixo, para evitar que a informação escape para além da minha mesa, alargando o diâmetro de minha infâmia, confesso: “eu não bebo café”. O nobre leitor (ou leitora) que, como 99% das pessoas civilizadas, creio, gasta um bom quinhão de seus momentos sobre a Terra…

    Como não?!
  • Um copo de cólera

    […] daí que propiciei a elas a mais gorda bebedeira, encharcando suas panelas subterrâneas com farto caldo de formicida, cuidando de não deixar ali qualquer sobra de vida, tapando de fecho, na prensa do calcanhar, a boca de cada olheiro, e eu já vinha voltando daquele terreno baldio, largando ainda vigorosas fagulhas pelo caminho, quando notei…

  • Sexa

    — Hmmm? — Como é o feminino de sexo? — O quê? — O feminino de sexo. — Não tem. — Sexo não tem feminino? — Não. — Só tem sexo masculino? — É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino. — E como é o feminino de sexo? — Não tem feminino.…

  • Naufrágio

    De dentro da noite a cidade expele automóveissirenes cães inquietosgalos prematurosmais longecheio de plantas que são pedras que são flores que são bichos MARQUES, Ana Martins. Da arte das armadilhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 66. [Fragmento] Ana Martins Marques Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte, é graduada em Letras na UFMG e tem…

  • Construção

    A construção metódica de ruínas:uma bomba. TAVAreS, Gonçalo M. 1. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. Gonçalo Tavares Gonçalo M. Tavares é um dos nomes mais prestigiados da literatura contemporânea. Nascido em Luanda, Angola, em 1970, mudou-se para Aveiro, Portugal, ainda na infância. Sua trajetória literária teve início oficial em 2001 e, desde então, ele…

  • Sob o feitiço dos livros

    Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo —ler um livro é simplesmente algo depravado”. É o que sinto ao andar pelas manhãs pelos maravilhosos caminhos da fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja…

    Sob o feitiço dos livros
  • O tesouro no quintal

    Era uma família grande, a nossa: pai, mãe, cinco filhos. Grande e pobre. Papai, pedreiro, mal conseguia nos sustentar. Mamãe ajudava como podia, fazendo faxinas e costurando para fora, mas mesmo assim a vida era bastante difícil. Papai vivia bolando formas de reforçar nosso orçamento doméstico ou de, pelo menos, diminuir as despesas. Foi assim…