Todo um ecossistema ameaçado

Desde a industrialização, os corais vêm sofrendo as consequências das ações humanas em nível global e local. A resposta desses seres vivos ao estresse que lhes é imposto é seu branqueamento, o que pode causar mortalidade em massa e a sua extinção. A boa notícia é que a recuperação pode ser viável, se os impactos a que os corais são submetidos forem controlados e fortemente reduzidos. Mas, para isso, é preciso começar agora.

Simples e sofisticados

Os corais são seres vivos exclusivamente marinhos, parentes das águas-vivas e anêmonas. Vivem principalmente em regiões tropicais do mundo onde a água é quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. Ao mesmo tempo em que estão entre os animais mais simples do planeta, por apresentarem apenas uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio, são também bastante sofisticados e, muitas vezes, sensíveis a mudanças ambientais.

Uma das sofisticações mais interessantes dos corais é seu modo de alimentação. Alguns corais podem obter energia a partir do consumo de pequenos animais que vivem na coluna d´água, conhecidos como plâncton, mas também por meio de uma associação de benefício mútuo com microalgas que vivem em seus tecidos. Essa associação é conhecida como simbiose: enquanto a microalga ganha abrigo nos tecidos do coral e recebe as condições necessárias para fazer a fotossíntese, ela provê ao coral hospedeiro açúcares produzidos durante a fotossíntese.

Estresse e branqueamento

Mudanças ambientais podem desencadear respostas de estresse, em que os corais expulsam essas microalgas dos seus tecidos. Como a cor dos corais muitas vezes depende dos pigmentos dessas algas, ao expulsá-las, o coral perde a cor, e seu esqueleto branco abaixo do seu tecido transparente torna-se visível. Por isso, essa resposta ao estresse é conhecida como branqueamento de corais, processo que deixa os animais mais susceptíveis a doenças, podendo, inclusive, causar a sua morte.

A hipótese fisiológica para explicar esse fenômeno é baseada no estresse oxidativo. O aumento de temperatura estimula a reprodução das algas, que se tornam mais numerosas nos tecidos dos corais, e a alta incidência de luz aumenta a taxa de fotossíntese. Como um dos produtos da fotossíntese é o oxigênio, ocorre uma maior liberação dessa molécula nos tecidos dos corais, o que lhes causa irritação, e o excesso de oxigênio funciona como um gatilho para a expulsão das microalgas. Além disso, a competição com outros organismos, como macroalgas, eventos de soterramento, salinidade reduzida e infecções por organismos que causam doenças (patógenos), também podem resultar em branqueamento.

Ameaças e consequências

Com mais de 7 bilhões de pessoas vivendo no planeta, a atividade humana tem causado fenômenos de branqueamento de corais com uma frequência e intensidade jamais vistas. Em 2016, por exemplo, o branqueamento chegou a atingir 80% dos corais na Austrália, trazendo consequências que vão muito além da morte desses organismos. Recifes de coral inteiros branquearam em poucos meses e morreram em menos de um ano.

[…]

Desde a industrialização, passamos a emitir enormes quantidades de gases que aumentam a intensidade do efeito estufa na atmosfera, provocando o aquecimento da terra e dos oceanos. É como se esses gases formassem um enorme cobertor sobre o planeta que retém o calor, processo popularmente conhecido como aquecimento global.

Um dos principais gases causadores desse fenômeno é o dióxido de carbono, que, além de aumentar o efeito estufa, se dissolve na água do mar, tornando-a mais ácida. Esse processo, conhecido como acidificação dos oceanos, prejudica o crescimento dos corais, devido ao seu esqueleto de carbonato de cálcio, e pode ter efeitos negativos também sobre outros animais, como os moluscos que fazem conchas.

[…]

Qualquer um pode ajudar

Todos os dias, milhares de pessoas estão em contato com o mar e observam corais ao longo de toda a costa brasileira. Já imaginou quanta informação seria gerada se essas pessoas pudessem compartilhar o que viram com cientistas? Pois hoje elas podem! Basta compartilhar as fotos ou vídeos dos corais nas redes sociais, indicando a data e localização da foto e marcando #DeOlhoNosCorais.

[…] Esses registros passam a fazer parte de um banco de dados que nos permite avaliar a saúde dos corais em toda a costa brasileira e, praticamente, em tempo real!

[…] Agora, além do branqueamento, o projeto #DeOlhoNosCorais está focado também em encontrar e registrar histórias de recuperação da saúde dos corais.

LONGO, Guilherme Ortigara. Disponível em: http://cienciahoje.org.br/. Acesso em: 03 out. 2021. [Fragmento]

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