Leia, a seguir, um poema de Cruz e Sousa (1861-1898), expoente do Simbolismo brasileiro.
Siderações
Para as Estrelas de cristais gelados
as ânsias e os desejos vão subindo,
galgando azuis e siderais noivados,
de nuvens brancas a amplidão vestindo…
Num cortejo de cânticos alados
os arcanjos, as cítaras ferindo,
passam, das vestes nos troféus prateados,
as asas de ouro finamente abrindo…
Dos etéreos turíbulos de neve
claro incenso aromal, límpido e leve,
ondas nevoentas de Visões levanta…
E as ânsias e os desejos infinitos
vão com os arcanjos formulando ritos
da Eternidade que nos Astros canta…
SOUSA, Cruz e. Siderações. In: CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da literatura brasileira: história e antologia. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997. p. 396.
- galgando: percorrendo; andando por.
- siderais: relativos ao céu, celestes.
- cânticos: melodias ou hinos, geralmente de caráter espiritual.
- alados: dotados de asas, que voam.
- cítaras: instrumentos de cordas feitos de madeira.
- etéreos: celestiais, divinos.
- turíbulos: recipientes nos quais se queima incenso em cerimônias religiosas.
1. Os simbolistas, como os parnasianos, cultivaram o aprimoramento formal.
a) No poema em estudo, a métrica e a forma de composição poética podem ser associadas à estrutura de obras do Parnasianismo? Justifique sua resposta.
b) Hipérbato é o nome que se dá a construções em que a ordem direta das palavras em frases deixa de ser usada. No poema, esse recurso foi bastante utilizado. Passe para a ordem direta os versos da primeira e da terceira estrofes desse texto nos quais há hipérbato.
c) Os simbolistas utilizaram com frequência reticências e letras maiúsculas em substantivos comuns. Observe o emprego desses recursos estilísticos no poema em estudo e levante hipóteses: Que efeito o emprego desses recursos produz nos poemas em estudo?
2. Seguindo uma postura antimaterialista, os simbolistas evocavam nos poemas o misticismo, a religiosidade, a vida cósmica e a transcendência.
a) Como se manifesta a aspiração do eu lírico à transcendência? Justifique sua resposta com elementos do texto.
b) Que palavras ou expressões de caráter místico e religioso reforçam a atmosfera de transcendência?
c) Observe as palavras e expressões em destaque nestes versos extraídos do texto:
- Para as Estrelas de cristais gelados
- de nuvens brancas a amplidão vestindo…
- passam, das vestes nos troféus prateados,
- as asas de ouro finamente abrindo…
- Dos etéreos turíbulos de neve
- ondas nevoentas de Visões levanta…
- da Eternidade que nos Astros canta…
Nesses versos, em que consiste o cromatismo, recurso bastante explorado pelos poetas simbolistas resultante do emprego das palavras e expressões em destaque? Que efeito esse cromatismo produz no poema?
3. Na concepção de Baudelaire, poeta francês precursor do Simbolismo, os elementos que compõem o mundo natural e o mundo metafísico têm afinidades, se correspondem. Para os simbolistas, esse jogo de correspondências de elementos diferentes é percebido pelo poeta e traduzido por meio da sinestesia, recurso que consiste na fusão de duas ou mais sensações percebidas pelos órgãos dos sentidos (visão, olfato, paladar, audição e tato).
a) Dê pelo menos dois exemplos de trechos do poema que exploram a linguagem sinestésica.
b) Troque ideias com a turma e depois registre a resposta no caderno: De acordo com a sua reposta ao item anterior, quais são os órgãos sensoriais envolvidos nos trechos indicados?
4. No Simbolismo, o valor dos poemas não se concentra em processos descritivos ou narrativos, mas, sim, na sugestão; por isso, os poetas simbolistas se aproximaram da música, da melodia, explorando a sonoridade dos versos. No poema em estudo, é possível verificar figuras de linguagem que contribuem para a musicalidade do texto, como a aliteração (repetição de sons consonantais) e a assonância (repetição de sons vocálicos).
a) Identifique no poema um exemplo de cada um desses recursos, isto é, de aliteração e de assonância.
b) Discuta com os colegas e o professor: Na sua opinião, que papel esses recursos sonoros desempenham nesse poema de Cruz e Sousa?
O que é o impressionismo? O que há de comum entre a pintura impressionista e o poema simbolista? O que é o inconsciente? Para refletir sobre essas questões, leia os textos, a seguir:
Texto 1
O Simbolismo e a pintura impressionista
[…] Tal como o simbolismo, […] o impressionismo é um retorno à poesia pessoal, proscrita tanto por parnasianos como realistas. É um apelo apaixonado à liberdade e à vida, mas é o contrário de uma anarquia. Quer descobrir relações de ordem intuitiva, mas admite a necessidade do método e do valor das regras. […]
O simbolismo, com seu apetite de novidade e de emoção pura, recorre a processos que têm uma notória semelhança com os do impressionismo. Os seus efeitos devem-se essencialmente ao ritmo e à supressão das linhas e do tema, bem como a supressão das imagens clássicas e dos processos descritivos dá à nova arte uma fluidez até então desconhecida que lhe permite sugerir o movimento e o efêmero. Qualquer uma destas artes se recusa a precisar as imagens, embora sejam pródigas em sugestões visuais, que pretendem provocar não pela representação, mas pela analogia, através da emoção. O ritmo, forma livre tão diferente quanto possível da simetria, de que por vezes utiliza alguns métodos, tem um papel decisivo, embora oculto. É ele que faz que, diante das Nymphéas, tenhamos a ilusão de ver levantar-se um mundo de formas, asilo maravilhoso sonhado pelo poeta, que se recusa a impor a sua visão ao espectador, pretendendo unicamente provocar-lhe um estado de alma que lhe permita transformar-se ele mesmo num poeta, pelo encadeamento simultâneo de emoções de ordem óptica e sentimental. […]
FRANCASTEL, Pierre. O impressionismo. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 123-124.
Texto 2
A mente cotidiana
É fácil presumir a realidade do consciente e ingenuamente acreditar que pensamentos, sentimentos, lembranças e experiências constituem a totalidade da mente humana. Segundo Freud, porém, o estado ativo da consciência – isto é, a mente operacional da qual estamos diretamente cientes durante a experiência cotidiana – é apenas uma fração total de forças atuantes em nossa realidade psicológica. O consciente existe em um nível superficial, ao qual temos acesso fácil e imediato. Sob o consciente estão as potentes dimensões de armazenagem do inconsciente que ditam os nossos estados cognitivos ativos e comportamentos. O consciente está à mercê do inconsciente. A mente consciente é apenas a superfície de um complexo reino psíquico. O inconsciente abrange tudo, afirmou Freud, e contém dentro dele os domínios do consciente e de uma área denominada “pré-consciente”. Tudo o que é consciente – aquilo sobre o qual temos um saber ativo – esteve em algum momento nas profundezas do inconsciente antes de emergir à consciência. Entretanto, nem tudo se torna conhecimento consciente; muito do que é inconsciente lá permanece. Lembranças que não estão na nossa memória cotidiana, mas que não foram reprimidas, habitam a parte da mente consciente denominada por Freud de pré-consciente. Somos capazes de trazer essas memórias para a consciência a qualquer momento. O inconsciente funciona como receptáculo de ideias e memórias poderosas ou dolorosas demais, ou que estão de alguma forma além da capacidade de processamento da mente consciente. Freud acreditava que, quando certas ideias ou memórias (e as emoções a elas associadas) ameaçam inundar a psique, elas são retiradas da memória acessível pela mente consciente e armazenadas no inconsciente.
GLOBO LIVROS. O livro da psicologia. São Paulo: Globo, 2012. p. 95-96. (As grandes ideias de todos os tempos).
5. O Impressionismo foi um movimento na pintura que ocorreu paralelamente ao movimento da poesia simbolista. Segundo o texto 1, há algumas semelhanças entre a arte dos pintores impressionistas e os poemas simbolistas. Quais são as principais semelhanças?
6. As áreas mais profundas da mente humana, alvo de interesse dos poetas simbolistas, foram abordadas por diferentes estudiosos no final do século XIX. O austríaco Sigmund Freud, criador da psicanálise, propôs um modelo de funcionamento do aparelho psíquico. De acordo com o texto “A mente cotidiana”, de que maneira se constitui esse modelo?
7. Como você pode observar no texto 2, segundo Freud, o que permanece no inconsciente dita nossos comportamentos e o funcionamento ativo de nossas habilidades mentais, como memória, atenção, raciocínio e resolução de problemas. Diante dessa hipótese, ele defendia que falar sobre pensamentos, sentimentos e lembranças aliviaria as angústias provocadas pelo que estava reprimido no inconsciente. Na época, essa perspectiva era algo novo, mas hoje é comum a percepção de que falar de questões aflitivas pode melhorar a saúde mental. Você já conhecia o conceito de inconsciente e as funções a ele atribuídas? De que maneira se pode cuidar da saúde mental nos dias de hoje? Compartilhe seus conhecimentos e sua opinião com a turma e também ouça o que seus colegas têm a dizer sobre esse assunto.
Leia, a seguir, um trecho do poema “Crianças negras”, de Cruz e Sousa, publicado postumamente na obra Últimos sonetos (1905). No início, o eu lírico faz como que um apelo à Poesia, pedindo-lhe que, com sua capacidade de expressar o mundo em sua grandeza, o ajude a olhar as crianças negras, pequeninas, mas pungentes em sua dor.
Crianças negras
[…]
[Eu quisera estar] Preso à cadeia das estrofes que amam,
que choram lágrimas de amor por tudo,
que, como estrelas, vagas derramam
num sentimento doloroso e mudo.
Preso à cadeia das estrofes quentes
como uma forja em labaredas acesa
para cantar as épicas frementes
tragédias colossais da Natureza.
Para cantar a angústia das crianças!
Não das crianças de cor de oiro e rosa,
mas dessas que o vergel das esperanças
viram secar, na idade luminosa.
Das crianças que vêm da negra noite,
dum leite de venenos e de treva,
dentre os dantescos círculos do açoite,
filhas malditas da desgraça de Eva.
E que ouvem pelos séculos afora
o carrilhão da morte que regela,
a ironia das aves rindo à aurora
e a boca aberta em uivos da procela.
Das crianças vergônteas dos escravos,
desamparadas, sobre o caos à toa
e a cujo pranto de mil peitos bravos,
a harpa das emoções palpita e soa.
Ó bronze feito carne e nervos, dentro
do peito, como em jaulas soberanas,
ó coração! És o supremo centro
das avalanches das paixões humanas.
Como um clarim as gargalhadas vibras,
vibras também eternamente o pranto
dentre o riso e o pranto te equilibras
de forma tal, que a tudo dás encanto.
És tu que à piedade vens descendo,
como quem desce do alto das estrelas
e a púrpura do amor vais estendendo
sobre as crianças, para protegê-las.
És tu que cresces como o oceano, e cresces
até encher as curvas dos espaços
e que lá, coração, lá resplandeces
e todo te abres em maternos braços.
Te abres em largos braços protetores,
em braços de carinho que as amparam,
e elas, crianças, tenebrosas flores,
tórridas urzes que petrificaram.
As pequeninas, tristes criaturas
ei-las, caminham por desertos vagos,
sob o aguilhão de todas as torturas,
na sede atroz de todos os afagos.
Vai, coração! Na imensa cordilheira
da Dor, florindo como um loiro fruto
partindo toda a horrível gargalheira
da chorosa falange cor de luto.
As crianças negras, vermes da matéria
colhidas do suplício à estranha rede,
arranca-as do presídio da miséria
e com teu sangue mata-lhes a sede!
SOUSA, Cruz e. Crianças negras. In: BERND, Zilá (org.). Antologia da poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2011. p. 50-52.
- forja: instrumento de metal.
- frementes: trêmulos, agitados.
- colossais: que têm grandes proporções.
- vergel: pomar.
- dantescos: que causam terror, sofrimento, tal como em cenas da obra A divina comédia, de Dante Alighieri.
- açoite: golpe, pancada, castigo.
- desgraça de Eva: referência a Eva, que, segundo a Bíblia, foi a primeira mulher criada por Deus. Ela comeu o fruto proibido e, por isso, foi expulsa do paraíso.
- carrilhão: conjunto de sinos que tocam ao mesmo tempo.
- regela: que se torna gelado; no poema, o mesmo que paralisa.
- procela: tormenta, temporal.
- vergônteas: proles, rebentos.
- bronze: no poema, o mesmo que sino.
- clarim: instrumento de sopro, feito de metal, cujo som é claro e estridente.
- urzes: pequenos arbustos com flores coloridas.
- aguilhão: ponta de ferro, perfurante, colocada na extremidade de uma vara.
- atroz: cruel, de enorme gravidade.
- gargalheira: espécie de coleira usada para sujeitar escravizados rebeldes, fugitivos.
- falange: multidão, legião.
8. Nas duas primeiras estrofes do trecho, o eu lírico sugere que, para cantar a angústia das crianças negras, seus versos terão de ser “quentes como uma forja em labaredas acesa”. Que sentimentos essa imagem expressa? Justifique sua resposta com elementos do texto.
9. Em seus versos, o eu lírico sugere a angústia das crianças negras por meio de elementos sensoriais (imagens, sons, texturas, etc.).
a) Que diferença de tratamento social há para com as crianças negras e para com as crianças brancas? Justifique sua resposta com elementos do texto.
b) Além da desigualdade em relação a crianças brancas, o poema evoca outras circunstâncias ameaçadoras para crianças negras, como a morte e o desamparo. Identifique no texto versos que indiquem tais circunstâncias.
c) Na quarta e na quinta estrofes do trecho, o eu lírico expressa sua dor diante do sofrimento das crianças negras. Identifique trechos que, por meio de elementos sensoriais, comprovam essa afirmação.
10. A partir da sétima estrofe do trecho, o eu lírico evoca o coração, o “bronze feito carne e nervos”.
a) Para descrevê-lo, ele emprega metáforas e comparações. Explique o sentido que essas figuras de linguagem sugerem no texto, utilizando exemplos de tais recursos estilísticos.
b) O eu lírico sugere que o coração lhe desperta determinados sentimentos e desejos. Quais são eles? Justifique sua resposta com elementos do texto.
c) Nas duas últimas estrofes do trecho lido, o eu lírico faz um apelo ao coração. O que ele lhe pede?
d) Em meio a esse diálogo com o coração, o eu lírico se volta para o mundo social, para as dores das crianças negras, afastando-se do mundo cósmico, sideral, pelo qual os simbolistas ansiavam. Discuta com os colegas e o professor e registre a resposta no caderno: Que versos do poema expressam o movimento do eu lírico em direção ao mundo social?
Bibliografia:
William, Cereja. Identidade Saraiva : Língua portuguesa.
