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A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom num a memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
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PESSOA, Fernando. Livro do desassossego por Bernardo Soares. Lisboa: Assírio Alvim, 2006.

Fernando Pessoa
Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Foi educado na África do Sul, em uma escola irlandesa, o que pode explicar sua grande familiaridade com a língua inglesa.
Além de Mensagem (1934), único livro em língua portuguesa que publicou em vida, produziu três obras literárias que foram escritas e publicadas em inglês.
Faleceu em sua cidade natal, Lisboa, em 1935, depois de ser internado com cólica hepática.

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