Quinhentismo

Literatura de informação, representações visuais e produção jesuítica no Brasil colonial

Nem crônicas, nem memórias, pois não resultavam de nenhuma intenção literária: os escritos dos cronistas e viajantes eram uma tentativa de descrever e catalogar a terra e o povo recém-descobertos. Entretanto, permeava-os a fantasia de seus autores, exploradores europeus que filtravam fatos e dados, acrescentando-lhes elementos mágicos e características muitas vezes fantásticas.


Carlos Vogt e José Augusto G. Lemos*
In: Cronistas e viajantes. São Paulo: Abril Educação, 1982. 4 capa. Literatura Comentada.

Em julho de 1969, milhões de pessoas acompanharam pela televisão a chegada do astronauta norte-americano Neil Armstrong à Lua. Antes de pisar o solo lunar, ele pronunciou uma frase que se tornaria histórica: “Um pequeno passo para o homem e um gigantesco salto para a humanidade”. O espanto provocado por esse acontecimento ajuda a imaginar, guardadas as diferenças, a surpresa dos europeus diante do continente americano e, particularmente, dos portugueses que chegaram ao território brasileiro em 1500. Eles encontraram povos cuja língua, aparência e costumes lhes eram desconhecidos, além de animais, plantas, frutos e paisagens que não faziam parte de sua experiência. A expectativa de riquezas, os mistérios da terra e a novidade do contato humano despertaram encantamento, medo, curiosidade e assombro. Os primeiros textos escritos sobre o Brasil nasceram nesse ambiente de descoberta e de conquista.

1. Contexto histórico e cultural

1.1 A Europa do século XVI

O Quinhentismo está ligado às transformações que marcaram a Europa no final da Idade Média e no início da Idade Moderna. A sociedade feudal começou a perder força, enquanto os centros urbanos cresceram e atraíram parte da população do campo. O desenvolvimento do comércio favoreceu o surgimento de uma burguesia mercantil, interessada em ampliar mercados, obter produtos e financiar viagens marítimas. Ao mesmo tempo, invenções, avanços científicos e novos conhecimentos náuticos modificavam a visão europeia do mundo.

Nesse cenário, as Grandes Navegações foram impulsionadas pela procura de novas rotas comerciais, de regiões produtoras e de novos consumidores. Portugal reuniu condições favoráveis para participar desse processo: centralizou cedo o poder político na figura do rei, possuía uma posição geográfica estratégica, desenvolveu uma burguesia ligada ao comércio e acumulou conhecimentos de navegação associados à Escola de Sagres. Como as cidades italianas dominavam o comércio mediterrânico com o Oriente, os portugueses buscaram caminhos marítimos alternativos. A expansão iniciada com a tomada de Ceuta, em 1415, alcançou territórios da África e da Ásia e, mais tarde, o Brasil.

A crise do feudalismo também se relacionou à Reforma Protestante, que conquistou a adesão de setores da burguesia. Em resposta, a Igreja Católica organizou a Contrarreforma e contou com a atuação da Companhia de Jesus. Assim, duas grandes forças históricas ajudam a explicar a produção escrita do século XVI no Brasil: as Grandes Navegações, associadas à conquista material, e a Contrarreforma, voltada à reconquista espiritual.

1.2 A ocupação portuguesa do território

A chegada da armada de Pedro Álvares Cabral, em 1500, não foi seguida por uma colonização imediata e intensa. Portugal ainda concentrava muitos de seus esforços no ouro africano e no comércio oriental de especiarias, tecidos de seda e pedras preciosas. Nos primeiros anos, a Coroa arrendou trechos da costa a comerciantes interessados principalmente no pau-brasil. Esse sistema, porém, não era suficiente para impedir a presença e os ataques de estrangeiros.

Em 1530, já pressionado pelos custos das viagens ao Oriente e pela necessidade de assegurar a posse da terra, o governo português enviou a expedição de Martim Afonso de Sousa, dando início a uma política mais efetiva de exploração e povoamento. Em 1534, foram criadas as capitanias hereditárias. Em 1549, chegaram à Bahia Tomé de Sousa, primeiro governador-geral, e os jesuítas, que passaram a catequizar os povos indígenas e a fundar os primeiros colégios.

Os principais acontecimentos do período colonial podem ser vistos em uma sequência mais ampla. No século XVI, Portugal procurou consolidar o domínio da terra, organizou as capitanias, intensificou a ocupação, trouxe africanos escravizados e enviou religiosos europeus para converter os indígenas. No século XVII, Salvador, na Bahia, tornou-se um importante centro político e do comércio açucareiro, reunindo portugueses, indígenas, africanos e pessoas mestiças. No século XVIII, a região de Minas Gerais passou a concentrar a exploração do ouro e algumas das primeiras revoltas contra a dominação portuguesa, entre elas a Inconfidência Mineira, em 1789.

A colonização submeteu o território aos interesses da metrópole. Como os povos originários não participavam do comércio europeu como compradores ou vendedores, a expansão portuguesa assumiu sobretudo a forma de exploração econômica da terra e de aculturação violenta da população nativa. O projeto colonial combinava, portanto, duas frentes — a Fé e o Império — e duas estratégias principais: apropriar-se dos recursos materiais e promover a catequese.

1.3 As dificuldades para a formação de uma literatura nacional

É difícil definir o momento exato em que a literatura produzida no Brasil deixou de ser apenas uma extensão da cultura portuguesa. Durante grande parte do período colonial, faltavam várias condições necessárias à formação de uma vida literária autônoma: cidades numerosas, público leitor ativo, grupos permanentes de escritores, circulação cultural intensa, sentimento consolidado de nacionalidade, liberdade de expressão, imprensa e oficinas gráficas. As distâncias entre as capitanias aprofundavam o isolamento cultural, e a maior parte da população estava vinculada à agricultura e à estrutura social formada por senhores e escravizados. Obras de autores nascidos no Brasil eram impressas em Portugal e depois enviadas à Colônia.

Outro aspecto mencionado nos estudos tradicionais é que os povos nativos não possuíam uma tradição literária escrita semelhante à europeia. Por isso, a produção textual instalada pelos colonizadores resultou do transplante de formas, gêneros e modelos usados em Portugal. O século XVI brasileiro não se caracterizou pelo aparecimento de romances ou de uma poesia secular ampla. Predominaram documentos sobre a nova terra e textos religiosos destinados à catequese.

Por essas razões, alguns historiadores preferem chamar os escritos produzidos até o final do século XVII de manifestações literárias ou ecos da literatura no Brasil colonial. Segundo essa interpretação, condições um pouco mais favoráveis só se formariam no século XVIII, quando o crescimento das cidades e dos centros comerciais ligados à mineração criou grupos de autores e leitores. Isso não impediu, contudo, que a Bahia do século XVII revelasse Gregório de Matos, uma das figuras centrais da literatura brasileira, nem que o mesmo século apresentasse a prosa de Antônio Vieira.

O problema das origens da nossa Literatura não pode formular-se em termos de Europa, onde foi a maturação das grandes nações modernas que condicionou toda a história cultural, mas nos mesmos termos de outras literaturas americanas, isto é, a partir da afirmação de um complexo colonial de vida e de pensamento.

Fonte: BOSI, Alfredo. História da literatura brasileira. 51. ed. São Paulo: Cultrix, 2017. p. 11.

A produção colonial, mesmo dependente de Portugal, ajudou a reunir temas e formas que mais tarde participariam da construção de uma literatura voltada para o espaço, o ser humano e a língua do país. Esse processo amadureceu especialmente no século XIX, depois da Independência, em 1822.


2. O que foi o Quinhentismo

O nome Quinhentismo designa, de maneira geral, as primeiras produções escritas por europeus sobre os territórios alcançados pela expansão marítima do século XVI. No Brasil, costuma abranger o período iniciado em 1500 e estendido, em algumas classificações, até 1601. Trata-se de um movimento de caráter mais documental e histórico do que propriamente literário, relacionado de modo específico à experiência colonial brasileira.

As primeiras manifestações foram elaboradas por portugueses e por outros viajantes europeus, mas tiveram o Brasil como lugar de produção ou como assunto. Por isso, a origem de nossa literatura é marcada por uma contradição: os textos inaugurais falam do território brasileiro, embora sejam escritos a partir do olhar, dos valores e dos interesses do colonizador.

A produção quinhentista organizou-se em duas tendências principais. A literatura informativa, também chamada literatura de viagem, de expansão ou de informação, registrou a terra, seus habitantes e seus recursos. A literatura jesuítica, ou de catequese, procurou converter os indígenas ao catolicismo e orientar moral e espiritualmente os colonos. A primeira corresponde à conquista material; a segunda, à conquista religiosa. Informar sobre o território e submeter culturalmente os povos nativos foram, assim, diretrizes centrais da escrita europeia sobre o Novo Mundo.

A literatura do século XVI foi, sobretudo, uma literatura sobre o Brasil, e não ainda uma literatura brasileira plenamente independente. Ela refletiu o espírito de aventura das navegações, a atração pelo exótico, o expansionismo geográfico, os ideais renascentistas e a propagação da fé cristã promovida pela Contrarreforma.

“A crônica histórica e informativa que se intensifica em Portugal no momento das grandes navegações, conquistas e descobertas ultramarinas testemunhando a aventura geográfica dos portugueses, os seus ideais de expansão da cristandade, assume um sentido épico e humanístico que se estende ao Brasil e logo adquire entre nós algumas características peculiares; à curiosidade geográfica e humana e ao desejo de conquista e domínio correspondem, inicialmente, o deslumbramento perante a paisagem exótica e exuberante, testemunhado pelos cronistas portugueses que escreveram sobre o Brasil – Pero Vaz de Caminha, Pero de Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Souza -, assim, como os ideais de catequese atestados pela literatura informativa e pedagógica dos jesuítas, como o padre Manuel da Nóbrega e sobretudo o padre José de Anchieta, caso à parte, singular no nosso século XVI”.


3. A literatura informativa ou de viagem

3.1 Finalidades e características

A literatura informativa reúne cartas, diários de navegação, crônicas de viagem, tratados descritivos e outros registros em prosa. Esses textos narravam as viagens, descreviam o território e relatavam os primeiros contatos com os povos indígenas. Sua finalidade principal era fornecer aos governantes portugueses dados úteis para a exploração e a ocupação da terra.

Havia duas preocupações recorrentes: identificar as riquezas naturais que poderiam ser aproveitadas e avaliar as condições de domínio do território, inclusive a possível resistência de seus habitantes. Por isso, era comum que as expedições levassem um cronista encarregado de registrar paisagens, pessoas e acontecimentos. A linguagem tornou-se detalhada, visual e comparativa, pois o autor precisava transformar o que via em “imagens” compreensíveis para leitores que estavam na Europa.

Alguns documentos permaneciam sob controle da Coroa; outros circulavam pelas cortes em forma de panfletos. A escrita pretendia ser verossímil e informativa, mas não era neutra. Os viajantes observavam a realidade por meio de valores europeus, acrescentavam interpretações religiosas, elementos fantásticos e, por vezes, imagens mágicas. Assim, os relatos misturavam catalogação, admiração, preconceito, interesse econômico e fantasia.

Embora muitos desses escritos não tenham sido produzidos com intenção estética, possuem grande valor histórico. Eles testemunham a expansão marítima e comercial dos séculos XV e XVI, registram o encontro desigual entre colonizadores e colonizados e permitem compreender o modo como o europeu construiu uma imagem da América. Os autores, em geral, não demonstravam vínculo afetivo com a terra, vista como prolongamento da metrópole, uma espécie de “Portugal nos trópicos”. Ainda assim, deixaram temas que seriam retomados mais tarde: os povos indígenas, a natureza, a origem histórica do país e a exuberância da paisagem.

O entusiasmo com os aspectos pitorescos e abundantes da terra recebe o nome de ufanismo. Frutas desconhecidas na Europa, como o abacaxi, podiam ser apresentadas com admiração. Em outros momentos, os mínimos sinais naturais eram entendidos como mensagens de Deus aos conquistadores. Esse olhar combinava curiosidade geográfica, desejo de domínio, deslumbramento e interpretação religiosa.

3.2 O olhar europeu sobre os povos indígenas

Os relatos frequentemente apresentavam os indígenas como inferiores, desprovidos de civilidade, lei ou organização. Ao ignorar ou desvalorizar as formas sociais existentes, os cronistas ajudavam a justificar a implantação de uma nova ordem colonial. A diferença cultural era transformada em falta: aquilo que não seguia o modelo europeu era descrito como ausência, desordem ou barbárie.

Um exemplo desse procedimento aparece nas cartas de Américo Vespúcio, navegador italiano que divulgou algumas das primeiras representações europeias do Novo Mundo:

Vivem ao mesmo tempo sem rei e sem comando, e cada um é seu senhor de si mesmo. […]. Quantas vezes querem, desfazem os casamentos, nos quais não observam nenhuma ordem. Além do mais, não têm nenhum templo, não têm nenhuma lei, nem são idólatras. Que mais direi? Vivem segundo a natureza e podem ser considerados antes epicuristas do que estoicos. Entre eles não há mercadores nem comércio das coisas. Os povos geram guerras entre si sem arte nem ordem. Os mais velhos, com certos discursos, dobram os jovens para aquilo que querem e incitam para as guerras, nas quais matam cruelmente e mutuamente. E, aqueles que conduzem cativos de guerra, conservam não por causa da vida deles, mas para matá-los por causa de sua alimentação. Com efeito, uns aos outros, os vencedores comem os vencidos.

VESPÚCIO, Américo. Novo Mundo: as cartas que batizaram a América. Apresentação e notas de Eduardo Bueno. São Paulo: Planeta, 2003. p. 42-43. [Fragmento]

Ao aproximar os indígenas dos epicuristas e afastá-los dos estoicos, o texto mobiliza duas correntes da filosofia grega. Em uma simplificação corrente no período, os estoicos eram associados à razão e ao domínio de si, enquanto os epicuristas eram relacionados à busca do prazer. A comparação reforça a ideia renascentista de superioridade da cultura europeia, considerada mais racional, diante de uma população representada como guiada por impulsos “primitivos”.

O cristianismo também orienta a condenação dos costumes matrimoniais e das práticas religiosas. A antropofagia e os rituais de guerra são descritos de maneira a causar horror. O detalhamento mórbido e a censura moral contribuíam para demonizar os habitantes da terra e para apresentar a colonização como tarefa de civilização e de expansão da fé católica.

3.3 A origem do nome Brasil

Uma explicação muito difundida afirma que o nome Brasil nasceu diretamente do pau-brasil, madeira retirada do litoral e usada na produção de uma tinta avermelhada para tecidos. O material apresenta, porém, outra tradição. Em mapas medievais, o mundo conhecido era cercado por ilhas imaginárias. Uma delas, situada a oeste da Irlanda e registrada em um mapa de 1324, chamava-se Ilha Brasil ou “Hy Brazil”. Segundo a lenda, afastava-se no horizonte sempre que os navegantes tentavam alcançá-la.

A palavra seria ligada à raiz celta bress, com sentidos como “feliz”, “encantado” ou “sortudo”. A Ilha Brasil representaria, desse modo, uma ilha de felicidade e um paraíso. O pau-brasil já era conhecido por italianos que o importavam do Oriente durante a Idade Média, e seu nome científico, Lignum brasile rubrum, teria relação com a ilha mitológica, considerada a possível origem principal da madeira. Com o tempo, a denominação Brasil prevaleceu sobre outros nomes dados à terra e tornou-se oficial.


4. A Carta de Pero Vaz de Caminha

4.1 Um documento fundador

Carta a el-rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil, escrita por Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Cabral, é considerada o primeiro texto produzido no território e, por isso, costuma ser chamada de “certidão de nascimento” do país. Datada de 1º de maio de 1500, permaneceu esquecida por séculos e só foi publicada pela primeira vez em 1817.

A narrativa acompanha os acontecimentos desde a partida da expedição de Portugal, em 9 de março de 1500, até o envio de uma embarcação de volta ao reino, em 1º de maio, levando ao rei as notícias da nova terra. Ao mesmo tempo, funciona como diário de bordo, crônica de viagem e documento oficial.

No período de Caminha, a palavra crônica designava uma narrativa ligada ao registro de acontecimentos históricos. Esse uso era comum na Idade Média e no Renascimento. A partir do século XVIII, a palavra começou a ceder espaço a História, entendida como área que registra e interpreta os fatos. O sentido moderno de crônica como gênero literário breve só ganharia força em Portugal e no Brasil no século XIX.

“A feição deles é serem pardos, quase avermelhados, de rostos regulares e narizes bem feitos; andam nus sem nenhuma cobertura; nem se importam de cobrir nenhuma coisa, nem de mostrar suas vergonhas. E sobre isto são tão inocentes, como em mostrar o rosto.”

4.2 Organização do relato

A Carta pode ser dividida em três grandes momentos. A primeira parte resume a travessia marítima e revela a amplitude das rotas portuguesas. É relativamente breve. A segunda começa com os sinais de terra e passa a registrar minuciosamente a paisagem, os encontros e os habitantes, encerrando-se com a imagem paradisíaca das indígenas nuas. A terceira mostra os primeiros esforços portugueses para integrar a terra ao sistema comercial, religioso e simbólico das navegações. Os conflitos mais intensos ocorreriam posteriormente.

A terra é vista quase sempre a partir do mar ou durante visitas curtas à praia. O ângulo do narrador fica limitado à amurada do navio e aos contatos iniciais com a população. Caminha se demora mais nas pessoas do que na natureza. Mesmo ligado a uma das culturas em confronto, ele permite que gestos e reações dos indígenas apareçam no texto com certa vivacidade.

A reunião na nau Capitania, quando dois indígenas são levados pela primeira vez ao navio, evidencia diferenças de comportamento e de códigos sociais:

O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem-vestido, com um colar de ouro bem grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele, vamos sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram (os dois indígenas). Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém.

Fonte: GUERREIRO, M. Viegas. In: CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a el-rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1974. p. 40.

A ausência de um choque explícito na narrativa não significa que a relação tenha sido harmoniosa. O acesso ao acontecimento ocorre por meio de um documento português e, portanto, de um ponto de vista unilateral. O próprio Caminha reconhece essa assimetria ao afirmar que os indígenas eram muito mais amigos dos portugueses do que os portugueses deles.

4.3 Visualismo, linguagem e literariedade

Embora tivesse uma obrigação burocrática, Caminha dominava os recursos da escrita. Por isso, pode ser visto como um escrivão-escritor. Seu estilo possui forte visualismo: as cenas são organizadas de modo a aparecer diante dos olhos do leitor, com cores, movimentos, gestos e pormenores. Essa habilidade relaciona-se à tradição de cronistas como Fernão Lopes.

A Carta vai além de um relatório administrativo. A riqueza das imagens, a escolha expressiva das palavras, as sugestões de cor e de movimento e a capacidade de envolver o leitor conferem ao texto uma dimensão literária. Em certos momentos, o destinatário oficial, D. Manuel, parece ceder lugar a um público mais amplo, que é levado a acompanhar as cenas.

Um fragmento extenso mostra o detalhamento da descrição física e a interpretação portuguesa dos gestos indígenas:

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas.[…] Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata. Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provavam, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhes dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar.

Fonte: CASTRO, Sílvio. A Carta de Pero Vaz de Caminha: o descobrimento do Brasil. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 79-80. [Fragmento]

A frase final é especialmente reveladora: os portugueses interpretam os sinais conforme o próprio desejo de encontrar ouro. O texto, portanto, não apenas registra um encontro; também mostra como uma cultura tenta traduzir a outra por meio de suas expectativas.

4.4 Natureza, riqueza e catequese

A Carta reúne os dois objetivos que orientaram as navegações: a busca de bens materiais e a expansão do cristianismo. Caminha observa a possibilidade de metais, a fertilidade da terra e a abundância de águas, mas conclui que a principal tarefa seria “salvar” os habitantes por meio da conversão.


De ponta a ponta é toda praia rasa, muito plana e bem formosa. Pelo sertão, pareceu-nos do mar muito grande, porque a estender a vista não podíamos ver senão terra e arvoredos, parecendo-nos terra muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro; nem as vimos. Mas, a terra em si é muito boa de ares, tão frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho, porque, neste tempo de agora, assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas e infindas. De tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Mas o melhor fruto que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente; e esta deve ser a principal semente que Vossa alteza nela deve lançar.

A nudez dos indígenas é interpretada como sinal de inocência e de uma harmonia ainda não rompida entre ser humano e natureza. Desse modo, Caminha ajuda a formar uma das primeiras imagens do bom selvagem, mito que seria desenvolvido de maneira mais ampla por Jean-Jacques Rousseau no século XVIII: o ser humano seria naturalmente bom, mas a vida social o corromperia.

Também aparece o mito do Eldorado, ou da idade do ouro, originado na cultura greco-latina e presente em textos dos séculos XV, XVI e XVII. A expectativa de riquezas e a exaltação do espaço conferem um tom ufanista ao relato.

4.5 A permanência da Carta na cultura brasileira

A notoriedade da Carta aumentou no século XIX, quando a Independência favoreceu a busca de imagens para representar a origem da nação. Escritores e pintores românticos passaram a valorizar o documento e a figura idealizada do indígena como bom selvagem. A pintura Primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles, realizada cerca de 360 anos depois do acontecimento, exemplifica como o Romantismo transformou o relato de Caminha em uma cena fundadora e ufanista.

No século XX, o Modernismo voltou aos documentos coloniais para mapear e reinterpretar a tradição cultural do país. Oswald de Andrade, no movimento da Poesia Pau-Brasil, apropriou-se do Brasil descrito pelos viajantes e transformou trechos antigos em matéria poética:

“a descobertaSeguimos nosso caminho por este mar de longoAté a oitava da PáscoaTopamos avesE houvemos vista de terra”

(Pau Brasil. 2. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 107.)


5. Outros cronistas, viajantes e tratados

A literatura informativa não se limita a Caminha. Entre as obras dos séculos XVI e XVII, destacam-se:

  • Carta, de Pero Vaz de Caminha, de 1500;
  • Diário de navegação, de Pero Lopes de Sousa, de 1530;
  • Duas viagens ao Brasil, de Hans Staden, de 1557;
  • Tratado da terra do Brasil e História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pero de Magalhães Gândavo, publicados na década de 1570, sendo a segunda obra impressa em 1576;
  • Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry, de 1578;
  • Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, de 1587;
  • Narrativa epistolar e os Tratados da terra e da gente do Brasil, de Fernão Cardim;
  • Diálogo sobre a Conversão dos Gentios, do padre Manuel da Nóbrega;
  • Diálogos das grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão, de 1618;
  • História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, de 1627;
  • as cartas dos missionários jesuítas produzidas durante os primeiros séculos da catequese.

Esses textos possuem forte caráter descritivo e foram vistos, em diferentes épocas, como registros “científicos” e historiográficos. A partir do Modernismo, muitos deles passaram a ser estudados de maneira mais sistemática como parte da formação da tradição literária brasileira.

5.1 Pero de Magalhães Gândavo

Gândavo, português de origem flamenga e amigo de Camões, escreveu o Tratado da Terra do Brasil, por volta de 1570, e a História da Província de Santa Cruz, impressa em 1576. Suas obras descrevem os habitantes, o clima e os recursos da Colônia. Um de seus objetivos era convencer portugueses pobres a se transferirem para o Brasil, apresentado como espaço fértil e capaz de oferecer melhores condições de vida.

Minha tenção não foi outra, neste sumário, senão denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil, para que (com) esta fama venha a notícia de muitas pessoas que nestes reinos vivem com pobreza, e não duvidem escolhê-la para seu remédio.

Fonte: GÂNDAVO, Pero Magalhães. Tratado da Terra do Brasil e História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1980. p. 22.

Além das riquezas, Gândavo se interessa pelo comportamento sexual, pelos rituais de antropofagia e pelos costumes indígenas, sempre submetidos ao julgamento de uma sociedade que não reconhece plenamente a alteridade dos povos observados. A menção a indígenas “forros”, isto é, livres, permite perceber a existência de indígenas escravizados.

Em uma passagem conhecida, o autor transforma características da língua em argumento moral e político. A ausência de determinados sons é usada para afirmar, de maneira preconceituosa, que os povos locais não teriam fé, lei nem rei:

A língua deste gentio toda pela costa é uma: carece de três letras, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente.

Fonte: GÂNDAVO, Pero Magalhães. Tratado da Terra do Brasil e História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1980. p. 52.

Outra versão do fragmento, acompanhada da observação sobre a nudez, apresenta a mesma perspectiva:

A língua deste gentio toda pela Costa é, uma: carece de três letras – scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.Estes índios andam nus sem cobertura alguma, assim machos como fêmeas; não cobrem parte nenhuma de seu corpo, e trazem descoberto quanto a natureza lhes deu.

Fonte: GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980. p. 52. [Fragmento]

5.2 Gabriel Soares de Sousa, Hans Staden, Jean de Léry e outros autores

Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, é apresentado como uma das fontes mais ricas sobre o século XVI. A obra realiza um inventário da fauna e da flora da Bahia e alerta o rei sobre a necessidade de povoar e fortificar áreas ameaçadas pela presença estrangeira.

Hans Staden, alemão que esteve no Brasil no início do período colonial, publicou em 1557 uma narrativa de viagem conhecida como Duas viagens ao Brasil ou Viagem ao Brasil. Sua experiência como prisioneiro dos Tupinambás tornou-se referência para descrições e gravuras posteriores sobre a antropofagia.

Jean de Léry, protestante, viveu entre os Tupinambás na região da Baía de Guanabara, então ocupada pela colônia francesa chamada França Antártica. Em Viagem à terra do Brasil, descreve o corpo, os adornos e os costumes dos indígenas:

Se quiserdes agora figurar um índio, bastará imaginardes um homem nu, bem conformado e proporcionado de membros, inteiramente depilado, de cabelos tosquiados como já expliquei, com lábios e faces fendidos e enfeitados de ossos e pedras verdes, com orelhas perfuradas e igualmente adornadas, de corpo pintado, coxas e pernas riscadas de preto com o suco de jenipapo, e com colares de fragmentos de conchas pendurados ao pescoço. Colocai-lhe na mão seu arco e suas flechas e o vereis retratado bem garboso ao vosso lado. Em verdade, para completar o quadro, devereis colocar junto a esses tupinambás uma de suas mulheres, com o filho preso a uma cinta de algodão e abraçando-lhe as ilhargas com as pernas.

Fonte: LÉRY, J. D. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1980. p. 118.


6. A literatura jesuítica ou de catequese

A segunda grande vertente do Quinhentismo reúne textos escritos por membros do clero com a finalidade de converter os indígenas ao cristianismo e orientar moralmente os colonos. Os jesuítas chegaram à Bahia em 1549, acompanhando Tomé de Sousa, e foram liderados por Manuel da Nóbrega. Criaram escolas, ensinaram, escreveram cartas aos superiores da Companhia de Jesus e produziram sermões, poemas, crônicas, tratados e peças teatrais.

Sua missão combinava três dimensões: a atividade pedagógica, que incluía o ensino do latim; a ação missionária, voltada à cristianização; e a função moralizante, relacionada, entre outros temas, à regulamentação dos casamentos. Por meio das escolas, procuravam estabelecer um modelo teocrático de civilização, no qual o indígena era visto como matéria-prima de uma nova sociedade cristã.

Essa atuação nem sempre coincidia com os interesses dos proprietários rurais. Os jesuítas entraram em conflito com o patriarcalismo agrícola leigo, que frequentemente considerava o nativo apenas como mão de obra escravizada. Ainda assim, a catequese também integrou o processo de dominação cultural: os religiosos tentavam substituir crenças, línguas e costumes por valores católicos e europeus.

Os principais representantes da literatura jesuítica foram Manuel da Nóbrega, Fernão Cardim e José de Anchieta. Entre eles, Anchieta alcançou maior destaque pela variedade e pelas qualidades literárias de sua produção.


7. José de Anchieta: vida e obra

José de Anchieta nasceu em 1534, nas Ilhas Canárias, território espanhol, e morreu em 1597, em Reritiba, localidade hoje chamada Anchieta, no Espírito Santo. Chegou ao Brasil em 1553, durante o governo de Duarte da Costa, para trabalhar com Manuel da Nóbrega. Participou da fundação de São Paulo e do Rio de Janeiro e exerceu grande liderança espiritual, recebendo o título de “Apóstolo do Brasil”. Foi beatificado em 1997 pelo papa João Paulo II e passou por processo de canonização.

Sua importância decorre tanto da atuação missionária quanto da amplitude da obra. Foi sermonista, poeta, dramaturgo, cronista e estudioso da língua tupi. Escreveu em português, latim, castelhano e tupi, também chamado de língua geral. Produziu cartas semelhantes às crônicas do período, nas quais descreveu costumes indígenas; escreveu poesia religiosa e poesia épica, inclusive em louvor às ações do governador-geral Mem de Sá; compôs sermões e crônicas históricas; e elaborou a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, apresentada como a primeira gramática do tupi.

A intenção pedagógica explica a linguagem acessível, as imagens claras e as estruturas fáceis de memorizar. Anchieta utilizou modelos medievais, formas da poesia palaciana e o teatro de Gil Vicente. Entre seus poemas, destaca-se De Beata Virgine Dei Matre Maria — “Poema à Virgem”. Parte de sua produção atendia diretamente à missão de alcançar indígenas, soldados e colonos; outra parte correspondia à devoção pessoal, como sermões e poemas em latim.


8. A poesia lírica de Anchieta

A poesia de Anchieta conserva a medida velha, especialmente as redondilhas menores e maiores, versos curtos de cinco ou sete sílabas poéticas. Essas formas medievais eram adequadas ao canto e à memorização em cerimônias religiosas. As rimas, mesmo sem um esquema rígido, criavam ritmo e facilitavam o aprendizado das mensagens católicas. O uso dessas estruturas mostra que sua poesia permaneceu ligada a modelos anteriores, sem aderir plenamente às novidades renascentistas que circulavam na Europa.

8.1 “Em Deus, meu criador”

O poema a seguir apresenta o mundo terreno como instável e passageiro. A segurança, o amor e a esperança são encontrados somente em Deus, e a alma deseja abandonar a vida transitória para alcançar a eternidade.

“Em Deus, meu criadorNão há cousa segura.Tudo quanto se vêse vai passando.A vida não tem dura.O bem se vai gastando.Toda criaturapassa voando.Em Deus, meu criador,está todo meu beme esperançameu gosto e meu amore bem-aventurança.Quem serve a tal Senhornão faz mudança.Contente assim, minha alma,do doce amor de Deustoda ferida,o mundo deixa em calma,buscando a outra vida,na qual deseja sertoda absorvida.Do pé do sacro montemeus olhos levantandoao alto cume,vi estar aberta a fontedo verdadeiro lume,que as trevas do meu peitotodas consume.Correm doces licoresdas grandes aberturasdo penedo.Levantam-se os errores,levanta-se o degredoe tira-se a amargurado fruto azedo!

(In: Eduardo Portela, org. José de Anchieta – Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p. 34-5.)

8.2 “A Santa Inês”

As redondilhas dedicadas a Santa Inês apresentam imagens de luz, alimento e gratuidade da fé. O “trigo novo” e o “pão de vida” transformam elementos da doutrina cristã em imagens concretas, acessíveis ao público.

Cordeirinha linda,Como folga o povoPorque vossa vindaLhe dá lume novo[…]Morro porque vejoQue este nosso povoNão anda famintoDeste trigo novo.[…]Não se vende em praçaEste pão de vida,Porque é comidaQue se dá de graça.

Fonte: ANCHIETA, José de. A Santa Inês. In: FAUSTINO, Mário (org.). Evolução da poesia brasileira. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993. p. 18.

Outra seleção do mesmo poema evidencia as redondilhas menores, a repetição e o refrão, recursos que reforçam a musicalidade e a função pedagógica:

Cordeirinha linda,como folga o povoporque vossa vindalhe dá lume novo!Cordeirinha santa,de Jesus querida,vossa santa vidao diabo espanta.Por isso vos cantacom prazer, o povo,porque vossa vindalhe dá lume novo.

8.3 “Do Santíssimo Sacramento”

A visão teocêntrica e catequética aparece com clareza em “Do Santíssimo Sacramento”. O poema possui tom de oração e compara o sacrifício de Cristo a um alimento que fortalece os fiéis. A “fogaça” torna-se manjar de lutadores e prêmio de vencedores. Aqueles que abandonam os prazeres passageiros encontrariam a vida imortal e teriam saciadas as fomes espiritual e terrena.

O que pão, o que comida,o que divino manjarse nos dá no santo altarcada dia!Filho da Virgem Mariaque Deus-Pai cá mandoue por nós na cruz passoucrua morte,

e para que nos confortese deixou no sacramentopara dar-nos, com aumento,sua graça,esta divina fogaçaé manjar de lutadores,galardão de vencedoresesforçados,

deleite de namorados,que, co’o gosto deste pãodeixam a deleitaçãotransitória.Quem quiser haver vitóriado falso contentamento,goste deste sacramentodivinal.

Este da vida imortal,este mata toda fome,porque nele Deus e homemse contém.

E é fonte de todo bem,da qual quem bem se embebedanão tenha medo da quedado pecado.

Fonte: ANCHIETA, José de. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954.


9. O teatro catequético

O teatro foi o instrumento com que Anchieta realizou de maneira mais completa sua missão catequética. Em datas religiosas, ele escrevia e encenava autos, peças de origem medieval, que apresentavam a doutrina de forma mais agradável do que longos sermões. A representação buscava atingir diretamente as emoções, evitando raciocínios abstratos.

O público era formado por indígenas, soldados, colonos, marinheiros e comerciantes. Para alcançar grupos diferentes, Anchieta escreveu autos polilíngues. O alvo principal, contudo, eram os indígenas, sobretudo as crianças. Ao perceber o interesse dos povos nativos por festas, músicas, danças e representações, o jesuíta incorporou esses elementos a pequenos jogos dramáticos que transmitiam a moral e os dogmas católicos. Enquanto o público se divertia, a catequese avançava.

As peças utilizavam figuras alegóricas, isto é, personagens que transformavam ideias abstratas em seres concretos. A morte, os pecados, os anjos e os demônios podiam entrar em cena. O medo dos castigos e a oposição entre salvação e perdição contribuíam para a aceitação das verdades católicas. O teatro era, portanto, uma arte didática e religiosa, marcada pelo maniqueísmo, pela persuasão e pelos princípios da Contrarreforma.

Anchieta combinava palavras em tupi com vocábulos portugueses e introduzia entidades indígenas no universo cristão. Nos diálogos, Tupã e Anhangá passavam a conviver com Deus, a Virgem Maria e os santos. Esse procedimento facilitava a compreensão, mas também conduzia o público a representar e interiorizar a fé que os missionários queriam impor.

9.1 O Auto de São Lourenço

O Auto de São Lourenço, também referido como Na festa de São Lourenço, foi representado em 10 de agosto de 1583, em Niterói, e escrito em tupi, espanhol e português. A peça apresenta personagens alegóricas de tradição medieval, como Amor de Deus e Temor de Deus. As forças da salvação são representadas por São Sebastião, São Lourenço e o Anjo; as forças da perdição aparecem em Guaixará, rei dos diabos, e em seus servidores Aimbirê e Saravaia.

A divisão rígida entre bem e mal favorece a doutrinação. Uma estratégia para afirmar a superioridade do colonizador consiste em atribuir ao Anjo a língua portuguesa e ao demônio a língua tupi. No segundo ato, Guaixará, Aimbirê e Saravaia associam práticas indígenas ao pecado:

Que bom costume é bailar!Adornar-se, andar pintado,tingir pernas, empenadofumar e curandeirar,andar de negro pintado.Andar matando de fúria,amancebar-se, comerum ao outro, e ainda serespião, prender Tapuia,desonesto a honra perder.Para isso com os índios convivi.Vêm os tais padres agoracom regras fora de horapra que duvidem de mim.Lei de Deus que não vigora.

Fonte: ANCHIETA, José de. O Auto de São Lourenço. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 48.

A resposta cristã aparece na fala de São Lourenço, que apresenta a confissão e a comunhão como remédios para o pecado:

Mas existe a confissão,bem remédio para a cura.Na comunhão se depurada mais funda perdiçãoa alma que o bem procura.Se depois de arrependidosos índios vão confessardizendo: “Quero trilharo caminho dos remidos”- o padre os vai abençoar.

Fonte: ANCHIETA, José de. O Auto de São Lourenço. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 66.

Os autos representam o esforço jesuítico para incorporar os povos indígenas à civilização cristã e aproximá-los da sociedade colonial portuguesa. Por isso, devem ser compreendidos ao mesmo tempo como primeiras manifestações teatrais no território, instrumentos pedagógicos e formas de dominação religiosa e cultural.


10. As representações visuais do Quinhentismo e do Brasil colonial

O olhar europeu não se limitou à escrita. Gravuras, pinturas de paisagem, naturezas-mortas e retratos etnográficos ajudaram a formar a imagem do Novo Mundo. Desde meados do século XVI, há registros de artistas no Brasil. Alguns eram viajantes; outros haviam sido enviados por monarcas para tornar as novas terras conhecidas na Europa; havia também naturalistas e pessoas que fugiam de perseguições religiosas.

As imagens não são simples reproduções neutras da realidade. Assim como as crônicas, resultam de escolhas, convenções artísticas e julgamentos culturais. Compará-las aos textos permite compreender de maneira mais ampla os fenômenos estéticos e ideológicos do período.

10.1 Jean de Léry e o modelo clássico

A xilogravura Família de tupinambás, associada à obra de Jean de Léry, acompanha a descrição dos nativos. O estudioso Chicangana-Bayona chama a atenção para dois aspectos. Primeiro, a caracterização etnográfica concentra-se sobretudo na indumentária e nos acessórios. As diferenças de estatura, estrutura corporal, nariz, boca e olhos são pouco significativas, de modo que os indígenas aparecem fisicamente semelhantes aos europeus. Segundo, os corpos são rígidos, fortes e proporcionais, seguindo ideais greco-latinos de beleza e força adotados pelo Renascimento.

A aproximação torna-se evidente quando o guerreiro tupinambá da gravura é comparado ao Davi, de Michelangelo, escultura realizada entre 1501 e 1504. A representação do outro é, assim, moldada por padrões visuais já conhecidos na Europa.

10.2 Theodore de Bry e a antropofagia

As gravuras da terceira parte de Grandes viagens, publicada em 1592 por Theodore de Bry, foram produzidas em parte com base nos relatos de Hans Staden. Na cena de antropofagia tupinambá, os corpos indígenas também se aproximam dos modelos europeus e clássicos, sobretudo nas figuras femininas. O próprio Hans Staden, barbado e representado ao fundo, não possui um corpo muito diferente dos demais personagens.

As distinções aparecem na tonalidade da pele, mais parda e avermelhada entre os nativos, na barba ruiva do alemão e nos gestos. De Bry intensifica a dramaticidade por meio de movimentos ritualizados e exagerados, o que pode tornar a cena caricatural. O destaque mórbido dado às partes do corpo, ao exotismo e ao caráter macabro sugere um julgamento moral. O ritual, pouco compreendido pelo europeu, é apresentado como prova de barbárie e ajuda a justificar o domínio colonial em nome da civilização.

10.3 Frans Post e Albert Eckhout

Pouco mais de um século depois da chegada portuguesa, os holandeses Frans Post e Albert Eckhout vieram ao Brasil, em 1637, a convite de Maurício de Nassau. Embora suas obras pertençam ao século XVII, dialogam diretamente com os relatos quinhentistas e possuem grande valor documental.

Post registrou paisagens, fauna e flora tropicais. Em Rio São Francisco, de 1638, e A cachoeira de Paulo Afonso, de 1649, a abundância de águas mencionada por Caminha ganha forma visual. A vegetação e os animais locais aparecem em primeiro plano, mas são tratados com sobriedade, como elementos de uma paisagem, e não apenas como curiosidades exóticas. Essa atitude afasta o pintor de representações sensacionalistas do Novo Mundo.

Eckhout também se destaca pela precisão. Pintou frutos em naturezas-mortas e representou diferentes grupos indígenas. Em Mulher tapuia, de 1641, a figura não apresenta os maneirismos europeizantes comuns em gravuras do século XVI. A referência à antropofagia surge nas partes humanas que a personagem segura e carrega no cesto, mas sua postura espontânea contrasta com os gestos violentos e exagerados das mulheres de De Bry. A cena parece evitar o julgamento moral explícito.

A atenção de Eckhout permite diferenciar grupos. Os Tapuias, nome dado aos indígenas que não pertenciam ao tronco tupi-guarani, viviam em regiões mais interiores; a palavra podia significar “bárbaro”, “inimigo” ou “estrangeiro”. No quadro, a simplicidade do cesto e dos acessórios associa-se a uma vida mais ligada aos costumes originários. Já em Índia tupi, também de 1641, aparecem mais adornos, um cesto melhor elaborado, uma peça de cerâmica, uma habitação ao fundo e uma bananeira. Como os povos tupis-guaranis viviam mais próximos do litoral e da ocupação europeia, a pintura indica uma organização social vista como mais complexa.

A naturalidade e a precisão de Post e, sobretudo, de Eckhout levaram alguns críticos a considerá-los artistas que se aproximaram de uma representação mais verossímil do Novo Mundo. Suas obras, ao lado dos relatos de viagem, foram decisivas para a construção dos trópicos no imaginário europeu.

10.4 Pintura histórica e memória nacional

No século XIX, Primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles, retomou a narrativa da Carta de Caminha e a transformou em imagem oficial da origem nacional. A obra, concluída em 1860, pertence ao projeto romântico de construir uma memória coletiva por meio da exaltação da paisagem, do indígena idealizado e de episódios considerados fundadores.

Outras imagens associadas ao tema incluem Anchieta escrevendo na areia, de Benedito Calixto, que representa o jesuíta em uma cena lendária de devoção e escrita, e pinturas de Frans Post sobre engenhos, que registram a paisagem e a economia açucareira do período colonial.


11. O legado do Quinhentismo

O Quinhentismo não formou uma literatura nacional independente, mas inaugurou a escrita europeia sobre o Brasil e reuniu documentos indispensáveis para o estudo do período colonial. Seus textos registram paisagens, recursos, línguas, costumes e encontros culturais, ao mesmo tempo que revelam os interesses econômicos, religiosos e políticos da colonização.

A literatura informativa transformou a terra e seus habitantes em objeto de conhecimento e de domínio. Seu valor documental é inseparável das limitações do olhar colonial: os povos indígenas são frequentemente descritos segundo padrões europeus, e suas diferenças são convertidas em sinais de inferioridade. Ainda assim, a riqueza descritiva de autores como Caminha conferiu a alguns textos uma permanência literária que ultrapassou a função burocrática original.

A literatura jesuítica introduziu a poesia religiosa e o teatro pedagógico, principalmente por meio de José de Anchieta. Seus versos, sermões e autos mostram como a arte foi utilizada para ensinar, emocionar e converter. São atribuídas a Anchieta algumas das primeiras expressões líricas e as manifestações inaugurais do teatro em terras brasileiras.

No século XVII, a produção colonial se ampliou com autores como Antônio Vieira e Gregório de Matos. No século XVIII, cidades e centros comerciais ligados à mineração favoreceram uma vida cultural mais estruturada. No século XIX, após a Independência, o Romantismo retomou a Carta de Caminha, a paisagem e o indígena para construir símbolos nacionais. No século XX, o Modernismo revisitou os cronistas e viajantes para reinterpretar criticamente as origens do país.

Assim, o legado quinhentista não está apenas no início cronológico da literatura brasileira. Ele permanece nos temas que atravessam nossa cultura — a natureza, os povos originários, a colonização, a identidade nacional — e nas imagens, conflitos e discursos que continuam sendo retomados pela literatura e pelas artes.