O açúcar

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O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p. 227-228.

Ferreira Gullar

Ferreira Gullar é o pseudônimo de José Ribamar Ferreira (1930-2016). Nasceu em São Luís, no Maranhão. Além de poeta, foi contista, dramaturgo, crítico de arte, ensaísta, tradutor, autor de literatura infantil e trabalhou em vários jornais e revistas. Foi militante no Partido Comunista e, durante o regime militar, teve de se exilar: viveu no Chile, na Argentina e na União Soviética. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões de Literatura e, em 2011, o Prêmio Jabuti. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Foto de 2015.

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