Barroco: a arte da indisciplina

1. Introdução e a Origem do Termo

O termo “Barroco” tem suas raízes etimológicas associadas a uma palavra de origem portuguesa utilizada para descrever uma pérola de formato irregular, tosco e desigual. Originalmente, a palavra foi adotada pela crítica com um sentido pejorativo e desfavorável para classificar as produções culturais e artísticas do século XVII (Seiscentismo), sendo frequentemente rotulada por detratores por meio de adjetivos como “grotesca”, “extravagante”, “irregular” e “estapafúrdia”. Essa aversão inicial decorria da forma como os artistas subvertiam e modificavam o uso das estruturas clássicas herdadas do período anterior.

Em vez de se sintonizar com a clareza, a simetria e o racionalismo característicos das composições gregas e romanas, o estilo barroco optou por privilegiar os contrastes intensos e as emoções profundas. Com o passar do tempo, o movimento perdeu seu estigma negativo e passou a ser compreendido historicamente como uma legítima orientação artística comprometida com o drama humano.

“Barroco”, uma palavra portuguesa que significava “pérola irregular, com altibaixos”, passou bem mais tarde a ser utilizada como termo desfavorável para designar certas tendências da arte seiscentista. Hoje, entende-se por estilo barroco uma orientação artística que surgiu em Roma na virada para o século XVII, constituindo até certo ponto uma reação ao artificialismo maneirista do século anterior. O novo estilo estava comprometido com a emoção genuína e, ao mesmo tempo, com a ornamentação vivaz. O drama humano tornou-se elemento básico na pintura barroca e era em geral encenado com gestos teatrais muitíssimo expressivos, sendo iluminado por um extraordinário claro-escuro e caracterizado por fortes combinações cromáticas.

(Wendy Beckett. História da pintura. São Paulo: Ática, 1987. p. 173.)

2. O Contexto Histórico e a Filosofia do Homem Dividido

A transição do século XVI para o século XVII foi marcada por uma profunda transformação nas estruturas políticas, sociais e espirituais da cultura ocidental. Durante o Renascimento, o pensamento humanista havia colocado o homem no papel de senhor absoluto do mundo, valorizando o antropocentrismo, o intelecto, a ciência e a crença de que a razão humana a tudo podia alcançar. Havia uma percepção de harmonia e equilíbrio entre a ordem divina e a humana, sem oposições drásticas entre o corpo e a alma ou entre a fé e a natureza. Invenções e eventos como a imprensa, a pólvora e as grandes navegações impulsionaram uma era de autoconfiança e questionamento intelectual.

No entanto, o século XVII rompeu essa estabilidade, mergulhando o homem em uma severa crise espiritual. Em 1517, as 95 teses de Martinho Lutero denunciaram os abusos da Igreja Católica e desencadearam a Reforma Protestante, que se expandiu sob lideranças como a de João Calvino. Como contrarreação, a Igreja de Roma organizou a Contrarreforma e convocou o Concílio de Trento (1545–1563).

Essa resposta institucional reabilitou o teocentrismo e o espiritualismo medievais por meio de medidas rigorosas: a reativação do vigilante Tribunal do Santo Ofício da Inquisição (que impôs severa censura a livros e manifestações artísticas), a conversão forçada de minorias e o avanço missionário conduzido pela Companhia de Jesus. Politicamente, a Europa enfrentou o fortalecimento dos Estados absolutistas e conflitos devastadores como a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), sepultando as chances de reunificação cristã.

Esse cenário belicoso e dogmático esmagou a soberania conquistada pelo homem renascentista. Colocado entre dois polos opostos — o humanismo mundano e o espiritualismo antiterreno —, o indivíduo passou a se enxergar como um ser miserável, incoerente e cindido. O Barroco surgiu justamente como a expressão artística desse dualismo, registrando o estado de angústia, conflito e extrema tensão gerado pela tentativa de conciliar forças intrinsecamente contraditórias.

De maneira geral, o Barroco é um estilo identificado com uma ideologia, e sua unidade resulta de atributos morfológicos a traduzir um conteúdo espiritual, uma ideologia.

A ideologia barroca foi fornecida pela Contrarreforma e pelo Concílio de Trento, a que se deve o colorido peculiar da época, em arte, pensamento, religião, concepções sociais e políticas. Se encararmos a Renascença como um movimento de rebelião na arte, filosofia, ciências, literatura — contra os ideais da civilização medieval, ao lado de uma revalorização da Antiguidade clássica, […] —, podemos compreender o Barroco como uma contrarreação a essas tendências sob a direção da Contrarreforma católica, numa tentativa de reencontrar o fio perdido da tradição cristã, procurando exprimi-la sob novos moldes intelectuais e artísticos. Esse duelo entre o elemento cristão legado da Idade Média, e o elemento pagão, racionalista e humanista, instaurado pelo renascimento sob o influxo da Antiguidade, enche a Era Moderna, até que no final do século XVIII, por meio do Filosofismo, do Iluminismo e da Revolução Francesa, a corrente racionalista logrou a supremacia. […] São, por isso, o dualismo, a oposição ou as oposições, contrastes e contradições, o estado de conflito e tensão, oriundos do duelo entre o espírito cristão, antiterreno, teocêntrico, e o espírito secular, racionalista, mundano, que caracterizam a essência do barroco.

(Afrânio Coutinho. Introdução à literatura no Brasil. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p. 98-9.)

3. A Literatura Barroca e a Propagação da Fé Católica

Na Península Ibérica, que permaneceu relativamente imune à expansão protestante devido à forte aliança entre as monarquias locais e a Igreja Católica, o Barroco assumiu contornos marcadamente dogmáticos. Durante os sessenta anos de União Ibérica (1580–1640), sob o domínio da Coroa espanhola, a produção cultural ibérica unificou-se sob a influência de autores do Século de Ouro espanhol, como Luis de Góngora e Francisco de Quevedo.

A Contrarreforma utilizou ativamente a arte como uma estratégia de persuasão e propaganda, transformando os cultos litúrgicos em verdadeiros espetáculos sensoriais para impressionar e guiar as emoções dos fiéis. Para obter aceitação social e escapar das severas punições ou censuras da Inquisição, a literatura da época precisou demonstrar adequação aos propósitos pedagógicos de afirmação da fé e combate às heresias, reproduzindo no plano estético a doutrina oficial da Igreja.

Se o século XVI, ainda renascentista, conseguiu combinar na literatura a visão de mundo cristã, o humanismo da época e o paganismo da literatura greco-romana, o século XVII distinguir-se-á do anterior e do seguinte, na Península Ibérica, por uma visão eminentemente católica. Não mais cristã, simplesmente, mas católica, a partir de uma visão bastante dogmática do cristianismo.

O Concílio de Trento, que durou de 1545 a 1563, ligou ainda mais estreitamente a Igreja católica e as monarquias ibéricas, imbricando Igreja e Estado de tal forma que os interesses e funções de ambos muitas vezes se confundiam. Esse casamento durou todo o século XVII, só estremecendo no século XVIII. Como Espanha e Portugal tinham ficado fora das reformas protestantes, foi neles que se concentrou a reação católica. Tratava-se de combater toda e qualquer manifestação que lembrasse algum traço dos movimentos protestantes e, ao mesmo tempo, de formular e difundir uma doutrina oficial católica. Além disso, impunha-se participar da expansão ultramarina ibérica, com a finalidade de expandir também o catolicismo. Desse modo, o empenho doutrinador e a vigilância contra as heresias protestantes, que o clero e as ordens religiosas exerciam nas duas nações ibéricas, estendiam-se aos seus mundos coloniais no Oriente e no Ocidente.

[…] Com isso, mais que agradar e concorrer para aperfeiçoar as relações dos homens entre si, a literatura deveria participar dessa disputa ou dessa guerra [entre catolicismo e protestantismo], afirmando e reproduzindo no plano do sensível tudo aquilo que a Igreja pregava no plano do inteligível. O que não quer dizer que a literatura se tenha reduzido a isso. Mas para sua aceitação e difusão — já que todo livro ou publicação deveria receber a aprovação e licença da Mesa do Santo Ofício da Inquisição para não ser censurado — deveria passar por isso, demonstrar de alguma forma sua adequação às funções de afirmação e propagação da fé católica.

(Luiz Roncari. Literatura brasileira — Dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp/FDE, 1995. p. 94, 96-7.)

4. Características Estéticas do Barroco

A estética barroca é essencialmente marcada pela exuberância, pelo rebuscamento ornamental e pela dramaticidadeNas artes visuais e na arquitetura suntuosa, o movimento manifestou-se por meio de fachadas escalonadas, colunas helicoidais, assimetria intencional e dinamismo físico, com pinturas estruturadas sobre o violento contraste de luz e sombra (claro-escuro) — técnica celebrizada por pintores como Caravaggio e Artemisia Gentileschi. Na música, a complexidade instrumental, o desenvolvimento harmônico dos acordes e a ópera ganharam centralidade com compositores como Vivaldi, Monteverdi, Bach, Händel, Telemann e Scarlatti.

No âmbito literário, os principais pilares estruturais e temáticos que dão corpo ao Barroco são:

  • Contraste e Dualismo: Justaposição sistemática de motivos antitéticos para evidenciar as contradições do homem da época, opondo a vida material à espiritual, o pecado ao perdão, o sagrado ao profano, o corpo à alma e o teocentrismo ao antropocentrismo.
  • Efemeridade do Tempo e Pessimismo: Percepção melancólica de que todas as coisas do mundo são transitórias e passageiras, gerando uma fixação na fragilidade da beleza física, no desconcerto da realidade e na onipresença da morte.
  • Sensualismo e Religiosidade: Ao mesmo tempo em que a arte explora os apelos táteis, sonoros e visuais da natureza e do corpo humano, manifesta-se um profundo sentimento de culpa cristã e temor ao castigo divino.
  • Verbalismo e Rebuscamento Formal: Emprego exagerado de ornamentos literários, construções complexas, inversões sintáticas raras e figuras de linguagem abundantes para simular na palavra a grandiosidade e a suntuosidade das catedrais da época.
  • A Estética do Feio: Afastando-se da harmonia clássica idealizada, o artista barroco frequentemente se volta para o macabro, o grotesco e o bizarro. Por meio do realismo satírico e da caricatura, explora situações indecorosas, vícios sociais, deformidades e a decadência da carne humana.

5. Síntese Comparativa: Classicismo vs. Barroco

Para consolidar as diferenças estruturais e filosóficas entre os dois períodos, o quadro abaixo confronta os eixos centrais do Classicismo renascentista com os do Barroco seiscentista:

Categoria Temática e Formal Classicismo (Século XVI) Barroco (Século XVII)
Foco Ideológico Antropocentrismo absoluto. Conflito tenso entre Antropocentrismo e Teocentrismo.
Concepção da Existência Busca do equilíbrio, simetria e ordem objetiva. Visão trágica da vida; mundo material em choque constante com o espiritual.
Eixo Intelectual Racionalismo e universalismo. Interesse por raciocínios complexos; forte dilema entre a fé e a razão.
Matriz Cultural Paganismo e resgate da cultura clássica greco-latina. Cristianismo dogmático e forte influência institucional da Igreja Católica.
Expressão Amorosa Idealização platônica; contenção do lirismo e sobriedade sensual. Dualismo amoroso (carne versus espírito) associado a um forte sentimento de culpa cristã.
Perspectiva Temporal Busca da perenidade dos bens e estabilidade formal. Consciência dolorosa da transitoriedade e da inconstância terrena (culto ao Carpe diem).
Recursos de Linguagem Busca de clareza, rigor formal, uso de sonetos e versos decassílabos. Linguagem rebuscada e trabalhada; uso frequente de antíteses, paradoxos e hipérboles.

6. As Duas Tendências Estilísticas: Cultismo e Conceptismo

A produção literária do Barroco manifestou-se por meio de duas vertentes de estilo fundamentais. Embora comumente associadas à dicotomia entre verso e prosa, ambas as tendências não se excluem e costumam coexistir e se mesclar no interior de um mesmo texto ou na obra de um mesmo escritor:

  • Cultismo (ou Gongorismo): Representa o gosto pelo rebuscamento formal excessivo. Caracteriza-se pelo uso abusivo de metáforas ousadas, hipérboles extravagantes, paradoxos e inversões na ordem direta da frase (hipérbatos). Explora os jogos de palavras e prioriza os efeitos sensoriais — como a cor, o som, o volume e as imagens violentas —, apelando mais aos sentidos do que à lógica racional. Essa tendência foi profundamente influenciada pelo estilo do poeta espanhol Luís de Gôngora, manifestando-se com maior intensidade na poesia.
  • Conceptismo (ou Quevedismo): Representa o gosto pelo rebuscamento do conteúdo e pelo jogo de ideias. É constituído pelas sutilezas do raciocínio lógico, pela articulação rigorosa do pensamento formal e pelo emprego refinado de recursos como analogias, metáforas intelectuais, histórias ilustrativas, sofismas e silogismos. O objetivo primordial dessa vertente é convencer e persuadir o interlocutor por meio da inteligência argumentativa. Teve como principal inspiração o escritor espanhol Francisco de Quevedo e desenvolveu-se sobretudo na prosa.
Critério de Comparação Cultismo (ou Gongorismo) Conceptismo (ou Quevedismo)
Definição e Foco É o jogo de palavras e o rebuscamento da forma. Preocupa-se com a ornamentação verbal e a estética textual. É o jogo de ideias e o rebuscamento do conteúdo. Preocupa-se com a exposição de conceitos e teses.
Alvo Cognitivo Busca atingir os sentidos e a emoção do receptor, predominando sobre a lógica. Busca atingir a razão, o intelecto e o pensamento lógico do receptor.
Principais Recursos Vocabulário sofisticado, grande número de figuras de linguagem (metáforas, hipérboles, antíteses) e inversões sintáticas. Exploração de efeitos sensoriais (cor, som, forma). Sutilezas de raciocínio, analogias complexas, histórias ilustrativas, paradoxos lógicos, sofismas e silogismos.
Meio de Expressão Manifesta-se predominantemente na poesia. Manifesta-se predominantemente na prosa (como nos sermões).
Influência Espanhola Inspirado no estilo do poeta espanhol Luis de Gôngora. Inspirado no estilo do escritor espanhol Francisco de Quevedo.
Principal Exponente Gregório de Matos utiliza-o amplamente em sua poesia lírica e sacra. Padre Antônio Vieira é o mestre dessa vertente, usando-a para persuadir seus auditórios.

7. O Barroco no Brasil: Condicionantes Coloniais e Meios de Circulação

Diferentemente do modelo europeu, que floresceu estimulado pelo luxo, pela pompa e pelo refinamento de um público consumidor aristocrático, o Barroco brasileiro nasceu sob condições econômicas e sociais bastante rústicas. Cronologicamente, o período compreende as obras produzidas entre 1601 (ano da publicação de Prosopopeia) e 1768 (ano da publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, que marca o início do Arcadismo).

Nesse intervalo, o Brasil colônia vivia o ciclo econômico da cana-de-açúcar, tendo a região Nordeste — com destaque para Salvador (então capital da colônia) e Pernambuco — como o grande polo político, comercial e cultural. Essa realidade era pautada por dinâmicas de violência explícita, marcadas pela escravização de populações africanas trazidas pelo tráfico ultramarino e pela perseguição e aculturação dos povos indígenas.

A imensa maioria da população colonial era analfabeta. Contudo, formou-se progressivamente nos centros urbanos uma elite intelectual composta por advogados, religiosos e burocratas — em geral filhos de comerciantes ricos e senhores de engenho —, cuja instrução formal se dava na metrópole, em universidades como a de Coimbra. Esse grupo foi responsável por importar os modelos literários lusitanos e espanhóis para o ambiente colonial.

A vida cultural da colônia era acanhada e enfrentava severos obstáculos, como a proibição da instalação de tipografias e da circulação livre de impressos, além da vigilância ideológica da Mesa do Santo Ofício. Por essa razão, a literatura seiscentista brasileira não contou com um mercado consumidor ativo ou um público leitor intercomunicante, sendo fruto de esforços puramente individuais e isolados.

Apenas no século XVIII, com a fundação das academias literárias — como a Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) e a Academia Brasílica dos Renascidos (1759), sediadas na Bahia —, registrou-se o início de uma consciência grupal e de uma socialização literária fora do monopólio estrito da Igreja. Essas associações promoveram pesquisas históricas (como a História da América Portuguesa, escrita por Sebastião da Rocha Pita, sob o pseudônimo de Vago) e intensificaram o sentimento nativista. Nas artes plásticas e na arquitetura, o desenvolvimento barroco pleno ocorreu de forma tardia, alcançando seu apogeu no século XVIII por força da descoberta do ouro em Minas Gerais, eternizado nas igrejas suntuosas de Ouro Preto e Congonhas, nas esculturas de Aleijadinho e nas pinturas de Mestre Ataíde.

Devido à ausência de imprensa, a poesia barroca circulava predominantemente por meio da transmissão oral e de cópias manuscritas (apógrafos), recitada tanto em comemorações informais quanto em solenidades cívicas. Nesse contexto, a Igreja ocupava o papel de única instituição de informação e reflexão da colônia, transformando os púlpitos das igrejas no principal veículo de difusão de ideias políticas, morais e religiosas para as massas analfabetas e letradas, funcionando de modo análogo aos modernos meios de comunicação.

8. Os Principais Autores do Barroco no Brasil

Bento Teixeira (1561–1618)

O escritor jesuíta é tradicionalmente apontado como o marco inicial do Barroco literário brasileiro ao publicar, no ano de 1601, o poema épico Prosopopeia. A obra constitui uma imitação direta da estrutura épica de Os Lusíadas, de Luís de Camões, e foi elaborada com o objetivo central de render louvores e lisonjas a Jorge d’Albuquerque Coelho, então donatário da capitania de Pernambuco.

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Bento Teixeira: como a Inquisição perseguiu e matou o primeiro poeta brasileiro

Ele escreveu o poema que fundou o Barroco no Brasil. Mas foi preso pela heresia de “judaizar”.

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Gregório de Matos Guerra (1633?-1696) — “O Boca do Inferno”

Nascido em Salvador no seio de uma família aristocrática e abastada, estudou no Colégio dos Jesuítas local e graduou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Em Portugal, exerceu cargos na magistratura, mas retornou ao Brasil em 1681. Recusando-se a seguir os costumes e vestimentas do clero exigidos para os postos eclesiásticos que assumiu, passou a adotar uma conduta boêmia, satírica e desregrada. Suas violentas investidas poéticas contra as autoridades coloniais e a moralidade hipócrita da sociedade baiana renderam-lhe perseguições políticas e o apelido de “Boca do Inferno” ou “Boca de Brasa”. Foi degredado para Angola, de onde retornou já doente sob a condição de não fixar residência na Bahia e de cessar a produção de suas sátiras, vindo a falecer no Recife.

Gregório de Matos não publicou nenhuma de suas obras em vida. Seus versos foram preservados oralmente e copiados por amanuenses até serem reunidos em livro no século XIX por Varnhagen, o que gera frequentes debates filológicos acerca da autoria definitiva e das variantes textuais de seus poemas. Embora acusado por críticos posteriores de plágio por traduzir e adaptar livremente estruturas formais de Gôngora, Quevedo e Camões, os especialistas ressaltam que, no século XVII, o conceito de propriedade intelectual não existia nos moldes modernos, sendo a imitação criativa um procedimento metodológico padrão para a absorção e o aperfeiçoamento técnico de um artista.

Sua produção literária é multifacetada e abrange as seguintes vertentes temáticas:

  • Poesia Satírica: Considerada a parte mais original e nativista de sua obra, pois se desvia dos padrões cortesãos europeus para retratar a cruda e caótica realidade cotidiana da Salvador do século XVII. Com tom agressivo, contundente e sem poupar o uso de termos de baixo calão, gírias locais e vocábulos das línguas indígenas e africanas, o poeta atacou severamente governantes incompetentes, a corrupção de juízes, a usura dos mercados, a falsa santidade do clero e a decadência social da colônia. Em suas sátiras, revelam-se também os preconceitos aristocráticos e raciais da época, criticando a ascensão social de indivíduos negros, indígenas e mestiços.
  • Poesia Lírico-Amorosa: Estruturada a partir do dualismo entre a carne e o espírito. A figura feminina oscila entre a idealização espiritual de uma mulher-anjo e a atração pecaminosa de uma mulher-demônio, despertando no eu lírico um profundo sentimento de culpa religiosa e degradação moral. Manifesta-se também uma vertente materialista e puramente erótica (por vezes francamente pornográfica e licenciosa), despida de qualquer sublimação idealista. Formalmente, o autor utiliza o soneto de matriz petrarquista e recursos como a hipérbole e o carpe diem para exprimir a oposição entre a juventude da mulher e a ação destrutiva do tempo.
  • Poesia Filosófica: Desenvolve reflexões profundas acerca da instabilidade absoluta dos bens terrenos, das frustrações da existência e da transitoriedade irremediável da vida humana, dialogando diretamente com a tradição camoniana do “desconcerto do mundo”.
  • Poesia Religiosa (Sacra): Alinhada aos preceitos teológicos da Contrarreforma, tematiza o arrependimento sincero, o peso esmagador do pecado e o clamor desesperado pelo perdão de Deus. Notabiliza-se pelo fenômeno do fusionismo (a quebra de limites hierárquicos e a aproximação íntima entre a criatura pecadora e o Criador), valendo-se de uma argumentação audaciosa e capciosa: o poeta argumenta logicamente com a divindade que, quanto maior for a gravidade de suas faltas terrenas, mais empenhada estará a clemência do Pastor divino, elevando a glória de Deus no ato de perdoá-lo.

Padre Antônio Vieira (1608–1697) — O Mestre da Prosa Sacra

Nascido em Lisboa, mudou-se com a família para o Brasil aos sete anos de idade, fixando-se na Bahia, onde realizou seus estudos sob a tutela dos jesuítas e ingressou de forma precoce na Companhia de Jesus. Orador brilhante e dotado de fina agudeza política, retornou a Portugal após a Restauração da Independência (1640), tornando-se confessor, embaixador e conselheiro pessoal do rei Dom João IV, defendendo os interesses diplomáticos e comerciais da Coroa em diversas cortes europeias.

Caracterizado modernamente como um escritor engajado e um homem de ação, colocou sua vasta oratória a serviço das causas sociais, jurídicas e geopolíticas de seu tempo, o que lhe rendeu inúmeros desafetos. No Maranhão e no Grão-Pará, combateu a escravização dos povos indígenas pelos colonos luso-brasileiros, atuando na catequese e na defesa jurídica de sua liberdade, o que resultou na revolta e consequente expulsão de sua ordem jesuítica da região.

Em contrapartida, em relação aos escravos de origem africana, seus sermões mantiveram uma postura conservadora e conformista, limitando-se a descrever os sofrimentos físicos dos cativeiros e a apontar-lhes a resignação espiritual na perspectiva de recompensas eternas em uma vida pós-morte. Defendeu também a entrada e a proteção econômica dos cristãos-novos (judeus convertidos) em solo português como estratégia para reestruturar o comércio do reino, o que motivou sua perseguição por parte do Tribunal da Inquisição, culminando em sua prisão e cassação temporária do direito de pregar. No final de sua vida, abraçou teses místicas e proféticas de caráter sebastianista, prevendo a ressurreição de Dom João IV e o advento de um glorioso império espiritual português (Quinto Império) em obras como História do FuturoEsperanças de Portugal e Clavis Prophetarum. Faleceu na Bahia em 1697.

A produção textual de Vieira é vasta e divide-se em mais de quinhentas cartas diplomáticas, tratados proféticos e cerca de duzentos sermões elaborados sob rígido controle retórico. Seus discursos sagrados eram estruturados metodicamente em três seções clássicas: a introdução ou apresentação do tema (intróito ou exórdio); a argumentação e a defesa da tese baseada em exemplos bíblicos minuciosos (desenvolvimento ou argumento); e a conclusão voltada para a comoção e a conversão do auditório (peroração).

No plano estilístico, o sermonista rejeitou enfaticamente os excessos ornamentais do cultismo dominicano de sua época, tachando o floreio formal e o trocadilho vazio de “xadrez de palavras” ineficaz para a salvação das almas. Em contrapartida, Vieira fez amplo e magistral uso do conceptismo, valendo-se de raciocínios silogísticos complexos, agudezas intelectuais e sofisticadas correspondências alegóricas (analogias) estruturadas com clareza e precisão matemática para convencer o ouvinte.

Entre as suas peças de oratória mais célebres destacam-se:

  • Sermão da Sexagésima (1655): Pregado na Capela Real de Lisboa, funciona como uma metalinguagem sobre o ato de pregar, censurando os pregadores que priorizavam a afetação verbal em detrimento do conteúdo evangélico e da reflexão argumentativa.
  • Sermão de Santo Antônio aos Peixes (1654): Proferido no Maranhão na véspera de sua partida para Portugal, utiliza uma sofisticada metáfora zoológica inspirada na vida de Santo Antônio de Pádua. O orador finge dirigir-se aos peixes para, por meio de uma analogia irônica, repreender os vícios dos homens colonos, criticando duramente a exploração social em que “os peixes grandes devoram os pequenos”.
  • Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda (1640): Pronunciado na Bahia durante o cerco das forças calvinistas holandesas, constitui um discurso político dramático em que o jesuíta clama pela intervenção divina em favor das forças católicas luso-brasileiras contra os invasores estrangeiros.
  • Sermão do Mandato (1645): Pregado em Lisboa, debruça-se sobre os mistérios teológicos do amor divino e místico, estabelecendo antíteses em relação às limitações do amor puramente humano.
  • Sermão do demônio mudo (1661): Dirigido às religiosas do Convento de Odivelas, foca nas tentações da vaidade e do amor-próprio, utilizando a metáfora silenciosa do espelho como um objeto traiçoeiro que afasta o homem da contemplação de Deus.

Outros Autores Notáveis do Período

  • Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711): Nascido na Bahia e contemporâneo de Gregório de Matos, estudou em Coimbra e tornou-se historicamente o primeiro escritor nascido no Brasil a publicar formalmente um livro de poesias, intitulado Música do Parnaso (1705). Escrita em quatro línguas (português, castelhano, italiano e latim), a coletânea destaca-se pelo poema descritivo “Ilha da Maré”, que apresenta contornos nítidos de exaltação da terra e nativismo precoce.
  • Frei Itaparica (1704–?): Destacado poeta religioso e satírico que integrou o cenário literário setecentista da colônia sob os moldes da tradição barroca tardia.
  • Nuno Marques Pereira (1652–1728): Prosaísta de caráter moralizante e religioso, cuja produção reflete a profunda preocupação com os costumes e a doutrinação cristã no ambiente colonial brasileiro.