Parnasianismo: A Estética da Perfeição Formal

1. Introdução e Contexto Histórico

Se examinarmos a história da arte e da literatura, perceberemos que ela se constrói em ciclos. O ser humano busca constantemente romper com aquilo que considera ultrapassado para propor algo “novo” que, no entanto, muitas vezes é apenas uma roupagem diferente para conceitos antigos. Esse movimento cíclico explica o surgimento do Parnasianismo na segunda metade do século XIX.

Enquanto a prosa da época se voltava para o Realismo e o Naturalismo — movimentos focados no exame crítico da realidade e influenciados pelas teorias científicas e filosóficas da época, como a seleção natural de Charles Darwin, o Positivismo de Auguste Comte e o determinismo de Hippolyte Taine —, o Parnasianismo representou a manifestação poética desse mesmo período. Contudo, em vez de focar na crítica social direta, os poetas parnasianos absorveram o discurso objetivo e racional da época para mudar o fazer poético, aliando-se a um projeto estético estritamente antirromântico. Trata-se de uma fase de forte reação contra o Romantismo, combatendo diretamente o sentimentalismo, a idealização, a subjetividade e os excessos de emoção e fantasia da geração anterior.

2. A Origem do Termo: Mitologia e Tradição Francesa

O nome do movimento possui duas origens complementares e de grande interesse cultural:

  • Origem Mitológica: Associa-se ao Parnaso grego, uma montanha de pedra calcária situada na Grécia central, na região da Fócida. Na mitologia greco-romana, esse monte era consagrado a Apolo (deus da música e da poesia) e às suas nove musas. A lenda dizia que Apolo recebia ali os verdadeiros poetas, durante a primavera, para iniciá-los. Para os parnasianos, o monte funcionava como uma morada simbólica e uma forte referência para a produção de sua arte.
  • Origem Literária: O termo provém diretamente da revista e antologia literária francesa O Parnaso Contemporâneo (Le Parnasse Contemporain), publicada em três volumes entre 1866 e 1876. Foi nessa publicação que os poetas franceses, liderados por mestres como Leconte de Lisle, preconizaram os ideais da Escola e serviram de modelo direto para os escritores brasileiros.

Vale ressaltar que o Parnasianismo, com expressão verdadeiramente significativa, foi um fenômeno literário que existiu de forma marcante apenas na França e no Brasil.

3. O Projeto Estético Parnassiano: Características Principais

A poesia parnasiana estruturou-se em torno de diretrizes claras que visavam resgatar o equilíbrio, a contenção da forma e o racionalismo da Antiguidade Clássica. Suas características fundamentais incluem:

A Arte pela Arte e a Metalinguagem

Os parnasianos defendiam o conceito de “arte pela arte”, segundo o qual a arte não possui finalidade utilitária de ordem moral, política, religiosa ou pedagógica; ela existe unicamente para si mesma e para a criação da beleza. Por focar intensamente no próprio processo de construção do poema, a produção parnasiana possui um forte caráter metalinguístico. O fazer poético era visto como um trabalho árduo, e o poeta associava-se à figura de um escultor ou de um ourives que burila, esculpe e lapida as palavras até atingir a “arquitetura” perfeita. Para dedicar-se a esse duro labor das “Belas Letras”, o autor afastava-se das questões sociais de seu tempo, isolando-se em uma simbólica “Torre de Marfim”.

Objetividade, Impassibilidade e Descritivismo

Diferente dos românticos, os parnasianos cultivavam o desprezo pelos temas individuais, buscando o controle emocional, a objetividade e a impassibilidade absoluta na composição. A poesia era predominantemente descritiva, focando no retrato detalhado do real e de objetos refinados e de bom gosto (como vasos chineses, vasos gregos e leques) ou de paisagens da natureza, sem espaço para análises psicológicas ou sociais. Havia também um gosto acentuado pelo exotismo e por referências constantes a personagens da mitologia greco-romana.

Rigor Gramatical e Formas Fixas

Havia uma busca obsessiva pelo perfeccionismo formal e pela correção absoluta da linguagem, o que por vezes beirava o pedantismo. Caracteriza-se pelo uso de uma sintaxe erudita com predomínio da ordem indireta, comedimento nas figuras de ornamento, nível vocabular sofisticado e inserção de expressões em latim e francês. No plano estrutural, os parnasianos demonstravam total preferência pelas formas poéticas fixas, elegendo o soneto como seu modelo favorito.

O Trabalho com as Rimas e a Musicalidade

Os poetas dedicavam um esforço singular à construção das rimas, classificando-as rigorosamente:

  • Rima Rica: Ocorre quando rimam palavras de classes gramaticais diferentes ou que possuem uma terminação pouco frequente na língua (como a rima entre o pronome enclítico “vê-la” e o substantivo “estrela”). Os parnasianos priorizavam as rimas ricas e raras.
  • Rima Pobre: Ocorre quando há o uso acentuado de palavras pertencentes à mesma classe gramatical ou com terminações muito comuns.

Apesar do foco plástico e visual, a musicalidade também era valorizada e obtida, principalmente, por meio da variedade na escolha das vogais ao longo dos versos.

4. O Parnasianismo no Brasil: Trajetória e Especificidades

Embora tenha tido pouca repercussão no restante da Europa, o movimento encontrou solo fértil no Brasil. Seus ideais já eram difundidos desde a década de 1870, culminando em uma polêmica literária veiculada pelo jornal Diário do Rio de Janeiro, que colocou em embate os românticos contra os adeptos do Realismo e do Parnasianismo — episódio que ficou conhecido como a Batalha do Parnaso. O saldo dessa disputa foi a ampla aceitação dessas propostas nos meios intelectuais do país.

Oficialmente, o marco inicial do Parnasianismo brasileiro ocorreu em 1882, com a publicação do livro Fanfarras, de Teófilo Dias. Teoricamente, o movimento estendeu-se até 1922, ano da Semana de Arte Moderna; contudo, na prática literária, manifestações e publicações parnasianas continuaram ativas e influentes nas primeiras décadas do século XX.

A Adaptação à Realidade Brasileira

O Parnasianismo brasileiro apresentou desvios importantes em relação ao modelo rigoroso e frio da França. Os poetas nacionais não conseguiram manter uma impassibilidade absoluta, criando o que se chamou de “lirismo objetivo”. Nessa vertente, as exigências de perfeição formal uniam-se a sentimentos como o amor, a saudade, a despedida, a solidão, os sonhos, a evasão e até mesmo o patriotismo. Além disso, a crítica literária aponta que, em muitos casos, o conteúdo clássico e mitológico funcionava apenas como um “verniz” artificial utilizado para garantir prestígio e aceitação junto às camadas letradas e elites consumidoras do país.

5. A Tríade Parnasiana Brasileira e Seus Autores

Embora poetas como Vicente de Carvalho e Francisca Júlia tenham desempenhado papéis relevantes na consolidação da escola literária , o Parnasianismo brasileiro ficou imortalizado e consagrado pelo trabalho de três grandes autores, conhecidos coletivamente como a Tríade Parnasiana:

Olavo Bilac (1865–1918) — O Ourives da Linguagem

Nascido no Rio de Janeiro, iniciou os estudos em Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum dos cursos. Atuou como jornalista, inspetor escolar e dedicou grande parte de sua vida pública à educação. Foi um ferrenho defensor da instrução primária, da literatura infantil, da educação física e do serviço militar obrigatório, fundando a Liga de Defesa Nacional em 1916 e promovendo campanhas nacionais de alfabetização. Seu patriotismo levou-o a escrever a letra do Hino à Bandeira e a produzir obras de caráter histórico-nacionalista. Consagrado pelo público e pela crítica, foi eleito o “Príncipe dos Poetas” em um concurso realizado pela revista Fon-Fon em 1907.

Na literatura, Bilac destacou-se pela fluidez de seus versos, sofisticação da linguagem, pureza linguística e rara habilidade de versificação. Ele defendia que a beleza artística resultava do esforço laborioso da composição, e não da mera inspiração do autor. Essa proposta foi imortalizada em seu poema-manifesto “Profissão de fé”, que abre seu principal livro, Poesias (1888). Na obra, Bilac utiliza a metáfora do ourives para ilustrar o trabalho minucioso com a palavra escrita. No entanto, ele próprio não seguiu o formalismo rígido de forma absoluta; sua poesia resgata o sentimentalismo, a subjetividade e exibe um lirismo amoroso marcado por forte sensualidade e erotismo. Valendo-se das formas fixas (especialmente os sonetos inspirados na tradição clássica de Camões e Bocage) , suas composições usam cores, texturas e sons para construir imagens concretas e primorosas.

  • Principais Obras e Séries:
    • Poesias (1888): Coletânea principal que engloba as séries Panóplias (de caráter rigorosamente parnasiano); Via-Láctea (composta por 35 sonetos de postura intimista, subjetiva e de lirismo amoroso singelo, onde se destaca o famoso poema “Ouvir Estrelas”) ; e Sarças de Fogo (onde a objetividade se mescla ao sensualismo e à paixão carnal).
    • O Caçador de Esmeraldas: Poema de caráter épico, histórico e nacionalista que glorifica os feitos do bandeirante Fernão Dias Pais Leme.
    • Alma Inquieta.
    • Tarde (1919): Obra publicada postumamente, marcada por um tom meditativo, sereno e filosófico que reflete sobre a proximidade da morte.
    • Através do Brasil: Livro de leitura voltado para o público escolar, escrito em parceria com Manoel Bonfim.
    • Composições Consagradas: “Nel Mezzo del Camin”, “Língua Portuguesa”, “O Julgamento de Frineia”, “Satânia” e “Inania Verba”. Destaca-se também um diálogo estético com o poema “Boa noite” do romântico Castro Alves, no qual Bilac reconstrói ciclicamente o passar das horas entre dois amantes.

Raimundo Correia (1860–1911) — A Pesquisa da Linguagem

Nascido no Maranhão, estudou Direito em São Paulo e atuou como magistrado em diferentes estados brasileiros. É considerado o mais musical de todos os poetas parnasianos. Correia acreditava que a impessoalidade e o rigor absoluto da escola francesa não combinavam perfeitamente com a índole expansiva do povo brasileiro , o que o levou a introduzir marcas muito pessoais de melancolia e desespero sutil em sua produção. Sua trajetória literária costuma ser dividida em três fases distintas:

Raimundo Correia
  1. Fase Romântica: Correspondente ao início de sua carreira, é representada pelo livro Primeiros sonhos (1879), demonstrando forte influência de poetas como Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela.
  2. Fase Parnassiana Propriamente Dita: Iniciada com a publicação de Sinfonias (1883) e consolidada com Versos e versões (1887). Nessa fase, o autor adere ao projeto formal com uma linguagem ricamente trabalhada, mas imprime um profundo pessimismo de base filosófica associado ao pensador alemão Arthur Schopenhauer (que defendia que todas as dores do mundo provêm da vontade de viver), além de apresentar reflexões de ordem moral e social.
  3. Fase Pré-Simbolista: Momento em que seu pessimismo existencial diante da condição humana busca refúgio na metafísica e na religião, enquanto sua linguagem passa a investigar profundamente a musicalidade e os efeitos de sinestesia.

Sua obra caracteriza-se pela preocupação existencial, pelo forte sentimento de transitoriedade das coisas, grande sensibilidade, poder pictórico e profundidade psicológica.

  • Principais Obras: Primeiros SonhosSinfoniasVersos e VersõesAleluias e Poesias.
  • Composições Consagradas: Ficou amplamente conhecido como o autor dos célebres sonetos “Mal secreto” e “As pombas”, além de peças como “A Cavalgada” e “Banzo”.

Alberto de Oliveira (1857–1937) — O Poeta das Palmeiras

Alberto de Oliveira é apontado pela crítica literária como o poeta cuja produção se manteve mais fiel e rigorosa aos valores ortodoxos do Parnasianismo. Em seus textos, o descritivismo minucioso, a impessoalidade e a tematização de objetos físicos são levados ao grau máximo. Embora não tenha abandonado por completo certo intimismo, ele combatia ativamente o exagero emotivo por meio do registro atento das sensações visuais e das impressões da realidade, controlando sentimentos vagos. A própria escolha sistemática pelo gênero do soneto, com sua estrutura métrica rígida e distribuição calculada de rimas, era utilizada por ele como uma ferramenta para domar a emotividade.

Alberto de Oliveira

Sua poesia destaca-se por uma técnica de composição extremamente apurada, ritmo elegante, vocabulário cirúrgico e rimas pacientemente trabalhadas. Dedicou-se de forma brilhante a descrever paisagens, elementos da natureza e objetos de arte. Com o passar do tempo, sua postura inicialmente impassível foi se abrindo para um lirismo objetivo focado também na temática da saudade.

  • Principais Obras: Canções RomânticasMeridionaisVersos e RimasSonetos e PoemasPoesias (dividida em 4 séries) e Livro de Ema.
  • Composições Consagradas: Seus poemas mais famosos são os sonetos “Vaso grego” e “Vaso chinês” — nos quais a proximidade estreita da poesia com as artes plásticas e visuais se torna evidente —, além de “Aspiração”, “O Muro” e “Alma em Flor”.

6. Diálogo Cultural: Arquitetura Neoclássica e Urbanismo

Os valores estéticos cultivados pelo Parnasianismo — como o gosto pela simetria formal, a sobriedade, o equilíbrio, a proporção e o resgate da Antiguidade Clássica — não ficaram restritos à literatura. Eles encontraram um reflexo direto no plano artístico e visual da arquitetura neoclássica. Assim como a poesia buscava espelhar a estrutura geométrica e harmônica de templos antigos como o Partenon de Atenas (dedicado à deusa Atena) , diversos edifícios construídos no Brasil no início do século XX seguiram essa mesma concepção formal. Essa influência manifestava-se notoriamente nas linhas retas, fachadas lisas, colunas marcantes nas entradas e formatos retangulares ou triangulares das construções.

Essa busca pelo refinamento e progresso material coincidiu com um momento de profundas transformações e modernização urbana no país. O conceito de modernidade da virada do século buscava afastar o Brasil de suas memórias coloniais e de aspectos considerados provincianos. Exemplos claros desse alinhamento estético e ideológico, inspirados diretamente nos projetos urbanísticos de Paris, foram:

  • Belo Horizonte: O projeto e a construção da nova capital mineira, conduzidos pelo engenheiro Aarão Reis entre os anos de 1894 e 1897.
  • Rio de Janeiro: A grande reforma urbana da capital federal, capitaneada pelo prefeito Pereira Passos entre 1903 e 1906.

Ambas as intervenções urbanas apoiavam-se em diretrizes modernas que priorizavam não apenas a estética e o embelezamento, mas também preceitos rigorosos de higiene pública, circulação fluida de pessoas e escoamento eficiente de mercadorias.

Bibliografia

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UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ. Departamento Acadêmico de Comunicação e Expressão. Literatura brasileira. Gerência de Ensino e Pesquisa. Curitiba: UTFPR, 2010. 

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CEREJA, William; VIANNA, Carolina Dias; DAMIEN, Christiane. Identidade: língua portuguesa: área do conhecimento: linguagens e suas tecnologias: ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2026. 3 v. (Manual do professor).